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Incrível o poder que uma história tem. Ela pode transmitir emoções, inspirar ou mudar o modo como vemos alguma coisa. Nenhuma historia é, sequer, real. Nunca. Quando você conta algo a veracidade se perde, mesmo que minimamente. O que resta da verdade é a essência que se transmite no conto. Até que outra pessoa conte a história e ela perca mais um pouco da verdade. Como um grande telefone sem fio.

Por essa linha, biografias são histórias sobre a vida das pessoas. Mas quem conta essas histórias? O que mudou? O que se perdeu? Assim, se criam lendas e mitos que transformam pessoas em figuras humanas. Mentes brilhantes que antes de terem sua vida exposta eram pessoas geniais e depois se tornaram gênios. Rei do rock, ícone do cinema, exemplos de superação. O que estes filmes mostram é apenas isto e o caminho que levou a isto. Mas não dá pra esquecer que essas figuras também foram pessoas, que sentavam em bares para beber e rir com os amigos.

Atrás de cada filme deste existe ainda mais história, e muito dela nunca vai ser contada.

1. A lista de Schindler, 1993

De empresário ganancioso que encontrava nos judeus mão-de-obra barata a herói que investiu sua fortuna na salvação do máximo deles que pôde. Schindler aos poucos vai se comovendo com a situação dos oprimidos pelo nazismo, até o ponto de sua transformação, que acontece numa cena de arrepiar o cabelo da nuca. A mudança de Schindler é tão grande que, no fim, quando deve abandonar a fábrica para fugir do Exército Vermelho, ele ainda julga ter feito pouco pelos seus funcionários.

Quando penso em Spielberg dirigindo um filme, penso em ficção. Mas ele sabe atuar fora da sua zona de conforto e ele consegue deixar o filme duramente real. A prova final disso é a sequência de cenas da garota de vestido vermelho, onde o elenco também superou expectativas.

2. Coco antes de Chanel, 2009

Sempre com personalidade forte, Gabriele Chanel cresce num orfanato e se torna cantora de cabaré. Diferente de sua irmã, Coco (como acaba sendo apelidada) não crê no amor e busca fortuna de todas as formas que consegue. Quase como uma versão feminina do estereótipo do malandro.  Enquanto sua irmã se envolve com um homem por amor, a jovem Gabrielle se envolve por interesse. Mas sempre mantendo seu orgulho e deixando o amante consciente da situação. A sua ascensão a moda acontece quase por acaso, já que muitos a consideravam uma “selvagem” pelo seu estilo simples e prático.

Já vale a pena assistir o filme só pela atriz principal: Audrey Tautou (Fabuloso destino de Amelie Poulain). Além de linda e carismática, a atuação é digna!

3. 127 horas, 2011

Interpretado por James Franco, Aaron Ralston é o alpinista que ficou preso pelo braço em uma pedra e, sem nenhuma chance de resgate, amputou o próprio braço para sobreviver. E você se achava o foda não é? O desenvolvimento do filme se dá a partir disso e te deixa tenso. Não dá pra contar qualquer coisa além disso. O resto do filme é só sentir.

O PapodeHomem já falou desse filme aqui. E do seu protagonista aqui.

4. À procura da felicidade, 2007

O cinema está lotado de filmes motivacionais e superação e é verdade que muitos deles são difíceis de levar a sério. Mas este aqui traz consigo o diferencial de ser uma historia real, e por isso é quase impossível não se emocionar.

Tudo dá errado para Chris Gardner. A sua esposa o abandona, ele fica sem economias e é despejado com o filho de cinco anos. Trabalhando seis meses sem remuneração, ele e seu pequeno dormem em qualquer lugar que possa protegê-los do frio, porém Gardner continua trabalhado duro para, quem sabe, se tornar um investidor na bolsa de valores. O filme é tão dramático que às vezes duvidamos que possa ser real. Mas justamente por isso ele vai mexer com você.

5. O garoto de Liverpool, 2009

Primeiramente, a tradução do título perde metade da essência do original “Nowhere Boy” que faz alusão à música “Nowhere Man”. Dito isso, prossigamos.

Mesmo se você não gosta de Beatles, deve dar o braço a torcer e admitir a influência e importância deles para o Rock e Pop Rock atual. No filme vemos a historia de John Lennon baseada no livro “Imagine This: Growing With My Brother John Lennon”, escrito pela meia irmã de Lennon. Pois é, eu também não sabia que ele tinha uma meia irmã. Nos anos 50 John vivia em Liverpool e ainda não entendia nada de música. Em meio ao tumulto de sua juventude, sua suposta mãe o apresenta ao rock. Ao longo disso o filme mostra Paul se apresentando para John em uma cena cômica. E depois George.

A diretora Sam Taylor-Wood merece seus créditos. Sobe o seu comando as câmeras captam muito bem a personalidade de Lennon e de sua música. Claro, o ator fez sua parte, mas o show foi da montagem das cenas.

6. Capítulo 27, 2007

Um filme sobre Mark Chapman. Não sabe quem é? Talvez o seu nome não tenha ficado tão famoso, mas o seu feito ficou. Ele é o fã que matou John Lennon. E ele tem um filme contando a história. Tudo se desenrola nos três dias que antecedem o assassinato do ex-Beatle e caminha até o momento em que a icônica foto de Lennon dando autógrafo para Mark foi tirada. O nome faz referencia ao capitulo de O Apanhador no Campo de Centeio que Chapman estava lendo na época.

Apesar de mal recebido pela critica, eu considero um bom filme. Não no quesito de qualidade técnica, mas sim de historia. Se você é fã dos Beatles, pode ser legal complementar o que você sabe.

Curiosidade extra do filme: Repare na semelhança de nomes do assassino de Lennon com o ator que interpreta o próprio Lennon.

7. Chaplin, 1992

De garoto de rua a ícone do cinema. O velho Chaplin relembra sua vida e o filme corre a partir de suas memorias em uma conversa com um personagem fictício. Ele conta de quando era um garoto que vivia nas ruas Londres, seus envolvimentos românticos e sobre sua expulsão dos EUA.

Chaplin fala pouco de suas obras no cinema e conta muito sobre sua vida fora das telas, sua vida de galanteios e a fundação da United Artists com Douglas Fairbanks. Infelizmente a proposta do estúdio acabou não dando muito certo.

Quem interpreta Charles é Robert Downey Jr, bem antes de ele se tornar Tony Stark e um pouco antes de ele se envolver nas drogas. É um filme para quem realmente quer saber um pouco sobre a vida de Chaplin e não tanto sobre seus filmes. Para quem só conhece o Downey Jr. como Stark ou Holmes, é uma chance de vê-lo em uma atuação mais livre.

8. Clube de Compras de Dallas, 2013

Ron Woodroof é um eletricista heterossexual e homofóbico com AIDS que começa a traficar remédios ilegais para seu tratamento.  Em meio a isso ele cria um tráfico de remédios com o chamado Clube de Compras onde pacientes podiam adquirir seus medicamentos por uma taxa mensal. Em meio a tudo isso ele desenvolve uma amizade com o transexual Rayon, um soropositivo que ele conhece em suas internações. Ron, antes diagnosticado com trinta dias de vida consegue viver sete anos e cria uma amizade poderosa com Rayon.

Incrível como estar na pior pode servir para quebrar tudo que uma pessoa pode acreditar. Em meio a pior situação possível, Woodroof se agarra a vontade viver e esquece suas diferenças com Rayon em uma amizade singular.

9. Coração Valente, 1995

No ano em que eu nascia, nascia também este grande clássico. A história contada aqui é do guerreiro Willian Wallace, que após perder seus pais e ser criado pelo tio viaja o mundo até voltar para sua terra natal. Depois de se casar em segredo para se livrar do direito de prima nocte do senhor feudal, sua esposa também é assassinada. A partir disto inicia-se sua luta contra a Coroa Inglesa, motivada inicialmente por uma vingança pessoal, e a luta se torna símbolo da independência escocesa.

O filme ganhou o Oscar em cinco categorias. Ele também ganhou um prêmio de melhor figurino, porém o verdadeiro Willian Wallace nunca usou um kilt.

10. Eu não estou lá, 2007

Quem foi Bob Dylan? O cantor viveu uma constante transformação em sua vida e todas elas são retratadas no filme em seis fases, cada uma com um ator.  Sim, seis atores para “um” personagem.

O modo como a historia é contada é nada convencional. Cada ator faz uma passagem na vida de Dylan mostrando suas influencias e motivações como guitarrista, defensor dos direitos civis, poeta e outros adjetivos.

Todd Haynes acertou em cheio com na escolha de um estilo nada convencional para o filme. Parece até que não é o mesmo Bob Dylan criança que está fazendo seu discurso inflamado por álcool sobre se parecer com o assassino de Kennedy. Talvez porque não fosse realmente o mesmo Dylan.

11. Uma mente brilhante, 2001

O filme mostra a história do matemático John Nash, um matemático genial que revoluciona com sua teoria econômica. Porém o que chama a atenção na trama não é a sua genialidade, mas sua personalidade difícil e às vezes quase perturbada.

Nash é arrogante, menospreza os trabalhos dos colegas e não possui o mínimo tato social. Durante seu trajeto ele sofre ao ser obrigado a dar aulas e, assim como outro matemático que já foi citado nesta lista, decifra códigos para o governo.

12. Jobs, 2013

Steve Jobs é uma figura de admiração para muitos. Inegavelmente sua ascensão na carreira é incrível. Porém, a que preço? Se hoje criticamos a figura do workaholic,porque tanto se admira Steve? Ele parece encontrar no vicio em trabalho a saída da vida de hippie sem foco, sem conseguir encontrar um meio termo entre o esforço e o relaxar. Não hesita em passar por cima de relações pessoais em prol de seu desenvolvimento profissional.

O filme em si não é tão bom. A atuação de Ashton Kutcher está longe de parecer natural ao imitar os trejeitos do fundador da Apple e o filme se perde em certos pontos da história. Porém, a experiência é valida por fazer questão de não esconder o lado mais problemático de uma pessoa tão admirada.

13. Walk the line, 2005

O filme conta a historia do músico Johnny Cash. Pelo título você já deve ter desconfiado, certo? De uma infância difícil com a morte do irmão ao exército e problemas com drogas até se tornar um músico famoso e icônico. Infelizmente o filme insiste em focar mais na relação de Johnny com a cantora June Carter.

Mas vale assistir a interpretação de canto de Johnny e June, que deixa sua atuação ainda mais verídica.

14. Na natureza selvagem, 2008

Ao se formar com mérito na faculdade, Christopher McCandless resolve abandonar a vida que levava para viajar o país e viver algum tempo junto à natureza, no Alasca. Sua principal motivação são seus problemas familiares e uma visão de que a sociedade onde ele está inserido é hipócrita.

O filme e a história de Chris dividem opiniões. Se por um lado alguns admiram o rapaz que foi em busca de seu sonho e foi corajoso em tentar viver com simplicidade, outros enxergam seu completo despreparo para se aventurar no Alasca sem equipamentos e sem, ao menos, um mapa.

A história da viagem é alternada com flashbacks que contam a vida de McCandless, mostrando os seus problemas familiares e seu relacionamento difícil com todos. Durante o caminho Chris conhece pessoas incríveis que se encantam com ele e muitos tentam dissuadí-lo da sua ideia (em vão).

Além de reflexivo, o filme é lindo. A câmera mostra muito bem e com um ar de simplicidade as belezas naturais no caminho e a trilha sonora, composta por Eddie Vedder especialmente para o filme, é fantástica. Além de tudo isso, o ator que interpreta Chris ficou incrivelmente parecido com o verdadeiro.

Nota pessoal: a narração da irmã do Chris é apaixonante.

15. O Contador de Histórias, 2009

Filme nacional que conta a historia de Roberto Carlos (não o cantor) considerado um dos “dez maiores contadores de história do mundo”.

Depois de passar pelo maior trauma de sua vida, o jovem Roberto, na época com treze anos, queria morrer. A partir disso, o filme caminha do passado até o momento da tentativa de suicídio dele, para então nos mostrar como um pouco de carinho e amor puderam salvar o garoto considerado irrecuperável pela FEBEM.

Hoje, Roberto Carlos adota outras crianças chamadas de irrecuperáveis e as refaz com a mesma receita que a sua mãe francesa utilizou.

Em aspectos técnicos, é interessante como o filme une a narrativa cheia de metáforas e imaginação infantil de um contador de histórias com a realidade. Garrafas coloridas se tornam super poderes e esmeris se tornam bicicletas cuspidoras de fogo na mente do jovem Roberto.

16. O Jogo da Imitação, 2014

Alan Turing liderou uma equipe da inteligência britânica durante a segunda guerra. O objetivo desse grupo? Decodificar as mensagens interceptadas da Alemanha Nazista. Tais mensagens eram codificadas com a máquina Enigma, que se atualizava a cada 24 horas.

A história é narrada por Turing durante um interrogatório e alternada com cenas da sua infância mostrando sua grande inteligência prodigiosa e como acabou por se interessar pela criptografia.

O plot do filme provavelmente é, muito provavelmente, de conhecimento geral, e por isso a surpresa não é grande quando Alan se revela gay. O suspense fica mesmo por conta da descodificação de Enigma, e esse sentimento se transforma em surpresa com a atitude fria e calculada de Turing quando Enigma é decodificado.

A maneira como a narração mantém uma voz calma e direta ao ponto com as cores do filme cumprem muito bem seu papel de transmitir tensão ao expectador. E, como sempre, Cumberbatch exerce atuação brilhante.

17. O pianista, 2002

Outro filme sobre a segunda guerra na Alemanha Nazista. Mas fazer o quê se esse período está cheio de histórias trágicas? Władysław Szpilman é um pianista judeu que trabalha numa rádio da Varsóvia. Durante a segunda guerra ele foge para o Reino Unido na esperança de que a guerra não se prolongue demais, porém se percebe cada vez mais enganado.

Quando ele é encaminhado para um dos campos de extermínio, é salvo aos quarenta e cinco do segundo tempo por um amigo policial. A partir daí o risco passa a fazer parte de sua vida. Porém Szpilman é uma pessoa agraciada em sorte e sempre consegue escapar.

Quem dirige o filme é Roman Polanski. Polanski viveu a segunda guerra, inclusive escapando de um gueto na Cracóvia. Isso pode explicar sua excelente direção do longa.

18. Sniper Americano, 2015

O filme conta a historia de Chris Kyle, considerado o sniper mais letal dos Estados Unidos. Pois é, o filme é foda.

Não dá pra negar que ele era bom no que fazia, mas você pode ver esse filme por duas óticas: a primeira, que conta a história de um herói de guerra condecorado que, possivelmente, definiu o rumo de diversas operações.

Se visto com um pouco mais de crítica, a segunda visão é bem menos gloriosa. Ela diz respeito ao lado que vem depois da guerra, a dificuldade de voltar pra casa de corpo e alma. Aos poucos, o atirador se torna obsessivo com seu dever, o que acaba sendo prejudicial para Chris e quem estava ao seu redor, na família ou mesmo no pelotão.

Clint teve a manha da direção. Quando assistir, dê atenção extra para a edição de som, que transmite muito bem as memórias do personagem quando ele está em casa.

Vale a pena reforçar o olhar crítico em cima dos estereótipos do filme também, pra não achar que se trata de uma propaganda para o exército americano.

19. A Teoria de Tudo, 2014

Todos já ouviram falar de Stephen Hawking. Em A Teoria de Tudo, o filme nos mostra o cientista ainda jovem, que acaba condenado à cadeira de rodas por pura obra do acaso. Ainda assim ele é genial e desenvolve, com base em erros, sua teoria sobre buracos negros. Apesar de Hawking passar a maior parte do tempo mudo, Eddie Redmayne soube atuar de forma incrível com seus trejeitos e expressões.

O filme é recheado de licença poética, o que pode fazê-lo parecer uma comédia romântica em certos pontos. Nada que desagrade, porém.

20. Grandes Olhos, 2009

Se você acha que tem o dedo podre pra escolher relacionamentos, conheça Margaret D. H. Keane.

Ela se divorcia de seu primeiro marido e se muda para São Francisco onde conhece Walter. Este se encanta pela pintora que retratava crianças com olhos exageradamente grandes e rapidamente a pede em casamento. Aos poucos, com o talento de Margaret para pintura e o marketing pessoal de Walter, os quadros das crianças se tornam um sucesso.

Mas todos parecem acreditar que é Walter o verdadeiro pintor. Ele constrói uma carreira em cima dessa mentira e vai deixando Margaret cada vez mais perto de surtar.

O filme é dirigido por Tim Burton, que tem algumas sacadas interessantes durante o filme. A cena que se repete é Margaret dando a mão para a filha que está atrás de si, como um símbolo de proteção e união. Além da representação do sentimento de farsa quando Margaret tem breves alucinações com seus quadros.

Texto publicado originalmente no Papo de Homem, e reproduzido aqui pelo próprio autor.