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Billy Wilder é essencial

Billy Wilder foi um diretor ácido que não poupava o público das críticas. Nesse longa, escrito em parceria com o roteirista, nominado ao Oscar, Lesser Samuels, e com o escritor Walter Newman; Wilder envolve o espectador em uma angustiada metáfora das notícias falsas.

Em A Montanha dos Sete Abutres

Charles Tatum (Kirk Douglas) é um jornalista habituado aos grandes centros urbanos. Demitido dos jornais da capital acaba indo parar na esquecida Albuquerque, invisível cidade da região do Novo México, onde arranca a fórceps o papel de jornalista para uma edição local.

A vida na cidade estava tediosa quando Tatum, indo cobrir em evento agrícola, encontra um acidente envolvendo um mineiro chamado Leo Minosa. O homem ficou preso no fundo de uma montanha conhecida como “A Montanha dos Sete Abutres”. Some-se isso a algumas lendas indígenas e um povo humilde, afogado nas mais diversas crendices, e Tamtum tem o seu homem mordendo um cachorro.

Lição número 1 do jornalismo: o jornalista jamais será capaz de contar A Verdade

A simples decisão de escolher entre duas palavras já é, em si, uma interpretação da Verdade. No filme, Tantum, que decorou a cartilha do jornalismo de cabeça para baixo, resolve, na impossibilidade de manter o homem mordendo o cachorro por muito tempo, fabricar sua própria verdade. A frente do resgate ele passa a manipular a situação e faz dela um show.

O que começou como um acidente qualquer em um fim-de-mundo qualquer, ganha nas mãos do jornalista uma narrativa épica de sobrevivência. Tornando o assunto interessante para os grandes jornais.

A Montanha dos Sete Abutres ainda explora como é fácil manipular as autoridades quando a grande mídia está envolvida.

Dono de exclusividade na matéria, com o controle das autoridades e com o poder do suborno. Tantum pode controlar quem, diz o que, sobre quem, quando, como, onde e o porquê. Fake News na essência, explicada de cabo a rabo.

Este filme é uma das exceções em que o nome em português de fato acrescenta à obra. A montanha dos sete abutres não faz somente uma alusão ao local onde o mineiro ficou preso, mas também aos personagens em volta do acidente, que agem como abutres em volta da carniça.

Um dos abutres somos nós, refletidos na tela, vemos quais são os limites do entretenimento e suas consequências na vida real

Também são abutres os engenheiros responsáveis pelo salvamento do mineiro, o médico que acompanha o estado de Minosa no fundo da caverna; a esposa do mineiro. Enfim, em um filme recheado de carniceiros, é possível acusar inclusive o público dos jornais, que transveste o seu desejo por entretenimento e o prazer mórbido da desgraça catártica através de falsos sentimentos solidários.

Em uma interpretação paralela. É possível distinguir como um abutre o próprio Leo Minosa (Richard Benedict), preso no fundo da caverna; sucumbe ao autoengano, talvez por medo de encarar o mundo lá fora, mesmo que soe contraditório, ele não demonstra tanta ânsia para sair da caverna.

Papa e Mama Minosas (John Berkes, Frances Dominguez) são os pais do mineiro, e possíveis antagonistas da trama, já que em meio ao caos, eles são os únicos que se opõem ao que está acontecendo.

Papa Minosa assiste a tudo com um misto de dor e angústia. Mama Minosa reza, não sabemos se para retirar seu filho da montanha ou para pôr fim ao sofrimento da família de modo rápido.

A angústia da história aumenta gradativamente como se fosse um balão recebendo gás. Do momento em que o jornalista Tatum encontra a sua história, até o seu desfecho, o filme não larga a tensão um minuto sequer. A situação se desenrola no limiar do absurdo, transformando a tragédia em uma comédia ácida.

Todos os personagens são caricatos e ainda assim absurdamente reais. É possível ver-se refletido em um deles ou em todos eles. Wilder, que já dirigiu grades estrelas como Marilyn Monroe, soube tirar destes atores cenas potentes e especialmente próximas.

Um filme dos anos 50, que tem especial eco em nossos dias onde os stories do Instagram dominam a dieta básica de entretenimento.

A obra faz uma alusão à caverna de Platão através da mídia, em que o desejo por ganhos, seja em dinheiro ou status, leva ao autoengano e a atitudes desesperadas. Wilder coloca toda uma cidade dentro da caverna, alguns por acidente, outros por escolha própria.

O filme toca na ferida ao expor a covardia de todos para fazer a coisa certa quando isso significaria a perda de benefícios.

Com 111 minutos, fez a sua estreia oficial em 4 de Julho de 1951, nos grandes centros dos Estados Unidos. Antes disso, em 14 de Junho, ele já havia feito uma sessão première em Albuquerque, local onde se passa a trama.

Os críticos consideram o filme um drama, contudo, graças a habilidade de Wilder, o filme flerta com o humor. Particularmente, vejo como um humor ácido, extremamente necessário para tirar o espectador do seu lugar de conforto.

Este será um filme que ficará grudado na sua memória. Você retomará a lembrança sempre que se deparar com a cobertura jornalística de um acidente, ou matérias sobre pessoas em situação de miséria. Além de te ensinar importantes lições sobre o que é e como deve ser feito jornalismo. Jornalismo não é apenas sobre contar a verdade, é sobre procura-la.

Infelizmente, para muitos, o jornalismo virou algo como uma história de ninar. Fale-me a parte em que o caçador mata o lobo mau. Mesmo que não exista lobo mau e que o caçador seja um maldito de um desgraçado.

Fale-me da parte em que o super-herói salva a mocinha do prédio em chamas. Mesmo que tenhamos quase certeza de que lá nunca teve um prédio, ninguém viu as chamas e honestamente, nem sei se esse cara é mesmo um super-herói.

A Montanha dos Sete Abutres: aquela pilulazinha de política que serve para todos. Não tem contra indicação e caí bem no paladar.