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Crítica | A Busca

Recentemente a Netflix adicionou ao seu catálogo um longa nacional chamado A Busca, de 2013. Isso contribuiu para a popularização do filme e gerou diversas discussões em fóruns e sites sobre cinema, com grande parte do público julgando-o como mediano, ruim ou apenas “um bom passatempo”. O objetivo dessa matéria não é invalidar a opinião alheia, mas sim mostrar que os meios de conclusão estavam, quase que invariavelmente, equivocados. (spoiler alert)


Dirigido por Luciano Moura e estrelado por Wagner Moura, o filme conta a história de Theo Gadelha, um médico que está se separando de sua esposa, Branca (Mariana Lima). O fim conturbado do relacionamento dos dois tem reflexos no filho do casal, Pedro, que desaparece no final de semana de seu aniversário. Cabe então ao pai refazer os passos do filho e encontrá-lo.

Talvez a má interpretação dessa premissa não seja apenas 20261400-jpg-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxculpa do público, já que à primeira vista A Busca parece apenas um clone de filmes americanos como Busca Implacável ou O Resgate, onde um pai cheio de habilidades precisa resgatar um filho em perigo. Expectativas alienadas tendem a criar experiências decepcionantes e é isso que acontece aqui. O próprio poster tenta nos passar a sensação de perigo iminente, com um céu nublado e um protagonista alerta. Até eu estava convencido de que era apenas mais um, mas o vi com a mente aberta e tive uma grata surpresa.
No começo do filme vemos o casal discutindo sobre o futuro dos três. Após brigas sobre o intercâmbio que Theo insiste que Pedro faça na Austrália, ele descobre que seu filho recebeu uma cadeira do avô, com quem ambos não têm contato e imediatamente desaba em fúria, destruindo-a. Uma cena que parece avulsa, mas não é.

"O que essa cadeira ta fazendo aqui?"
“O que essa cadeira ta fazendo aqui?”

Logo de cara podemos ver que a direção de elenco se preocupou em criar personagens críveis que se comportassem como seres humanos reais, sem excesso de dramatização ou apatia. Isso se mantém de forma consistente com todos os personagens ao longo do filme, nos dando a sensação de que em algum momento de nossas vidas, já vimos alguém que se comportasse dessa ou daquela forma.

a-busca-wagner-moura-mariana-lima1Circunstâncias fazem com que Theo e Branca combinem um jantar para conversar mais
calmamente sobre seus respectivos rumos. É noite de domingo e Pedro está para chegar
depois de supostamente sair com seu amigo. Como sabemos, ele não retorna, e a busca que da título ao filme se inicia.

A longo prazo há a construção do destino do filho, com a informação de que ele sumiu a cavalo e imediatamente iniciam-se as descobertas do pai, que apesar de ele ainda não saber, são inteiramente espirituais.

Conforme pergunta sobre o paradeiro de seu filho para estranhos, Theo descobre sobre a personalidade dele. Descobre seus interesses e a sua independência, tendo que abdicar do dinheiro que queria usar para afastá-lo para tê-lo por perto novamente. Todos os desconhecidos que o ajudam descrevem Pedro de uma forma que ele jamais conseguiria.

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Theo investigando o paradeiro do filho

O filme começa então, gradativamente, a quebrar o desespero inicial do protagonista para dar espaço a momentos de autoconhecimento e de reconciliação com sua esposa, com quem fala por telefone durante o filme todo, e é aí que ele desanda para muitos que o assistem. “Como assim a ação parou?”; “Porque ele está nadando nesse rio enquanto o filho dele está desaparecido?”

Theo então conclui que Pedro estava indo à casa do avô, com quem trocava desenhos carinhosos e tinha interesses em comum. Sua busca o levou ao filho em mais de um sentido. Ele finalmente o conheceu, através de pessoas que o enxergavam verdadeiramente, sendo uma delas o próprio pai de Theo, com quem ele evitava contato a todo custo.

Brás Antunes como Pedro
Brás Antunes como Pedro

O filme termina como um drama com a restauração de relacionamentos familiares, e não como uma obra de suspense ou ação, sem uma bala ter sido disparada, sem um bad guy ter sido morto. Isso decepciona o público que não estava esperando algo além de um filme de sequestro, ou um filme nacional que pensasse fora da caixa.