Você está em um lugar seguro, aconchegante, quentinho, comida à disposição. De repente, alguém tenta de tudo para te expulsar dali. Um monstro te puxa pela cabeça e te leva para fora dali. Uma luz muito intensa e ofuscante. Você foi levado para um lugar completamente novo, uma nova dimensão, nada ali faz sentido. Quem são esses seres? O que está acontecendo? Por que estão me batendo? Por que furaram meu pé? Eu quero minha mãããããããããããããe!!!!!!!

A forma que somos apresentados ao mundo pode ser considerado cruel e traumatizante. Chegamos em um lugar totalmente desconhecido e é justamente nesse momento que um personagem guia aparece na história. É aquele personagem que apresenta o mundo novo não só ao personagem perdido, mas a todos espectadores. Ao trazermos para o mundo real, esse guia nada mais é do que a figura materna (seja sua própria mãe, pai, tio, avô, gorila, Leon…), aquele que te mostra o mundo novo, te levanta nas horas em que você cai e ensina a não cair mais.

Em O Quarto de Jack, um garotinho (Jack) e sua mãe vivem durante anos em um cativeiro, um pequeno quarto com um espaço para dormir, um espaço para comer e uma televisão. Esse quarto era o mundo para Jack, representando quase um útero, onde o bebê não tem ideia de como o mundo lá fora é até o parto. Quando Jack consegue sair daquele quarto, o parto acontece. Onde estou? Quem são essas pessoas? O que são essas coisas?

Jack, então, nasceu para o mundo de forma prematura, ele não estava preparado para toda essa novidade, nem sua mãe. Não tinha como ela criar seu filho para o mundo, quando se vive preso em um útero e seu único cordão umbilical para o exterior é uma televisão e uma claraboia. Ela precisa agora criar seu filho para a vida.

“Mas ela sabe que depois que cresce O filho vira passarinho e quer voar…”

Todos animais passam pela fase em que precisam sair do ninho e enfrentar a vida de peito aberto sozinhos. As histórias do pequenino Nemo e da pequena Dory nos traz a tona esse conceito de preparar o filho para o mundo, preparar o filho para as dificuldades da vida. Os dois que nasceram com um deficiência,  mas cada um criado de uma forma diferente. Marlin criava seu filho sempre debaixo de suas nadadeiras, protegendo seu filho de qualquer perigo. Tudo isso muito influenciado pelo que havia acontecido com sua mulher, acarretando em um sentimento de culpa e protecionismo em Marlin. Enquanto isso, Dory foi criada, desde seus primeiros passos, ou mais precisamente,  desde suas primeiras nadadas, a enfrentar suas dificuldades sozinha.

Às vezes, a saída do ninho pode ser acidental, por isso, é função dos pais ensinar, desde criança, seus filhos a baterem as asas, para que essa queda não seja tão traumatizante quanto já é. E, claro, que o aviso também serve para os pequenos pardais que sonham com a tão sonhada liberdade. Não esperem o momento chegar para aprender a bater as asas, caçar sua própria comida, fugir do gavião… A liberdade é como um carro, sonho de todo jovem, te dá poder, pode te levar a qualquer lugar, mas requer habilidades para que não machuque a si próprio ou a outrem, além de responsabilidade para arcar com todos seus gastos e obrigações. Mais tarde você talvez acabe achando que o carro só te traz despesa e resolva andar só de transporte público, mas isso vai de cada um.