Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta.

Antes de começar a florear a minha perspectiva sobre o filme, serei objetivamente crítico de cara com uma questão que me incomodou muito: Ainda que o jovem Jacob Tramblay tenha feito um trabalho de excelência, nos envolvendo e nos aproximando da perspectiva de uma pessoa que tenha de fato nascido com um problema, qual foi o motivo pelo qual as produtoras envolvidas no processo de desenvolvimento do filme não trabalharam de fato com alguém que estivesse vivenciando essa situação, que tivesse nascido com a Síndrome de Treacher Collins? Por que Hollywood adora nos expor grandes dramas sobre pessoas com dificuldades físicas, mentais, e questões realísticas mas na hora da elaboração desses trabalhos sempre opta por atores e atrizes que não experimentaram nem nunca vão experimentar a veracidade daquele problema?

Bem, algumas semanas atrás me deparei com o vídeo de uma comediante americana que é vítima de paralisia cerebral, e basicamente, na palestra que ela promovia na importante plataforma TED TALK, uma das coisas que ela se queixava, era de não ter sido chamada para uma peça que falava sobre a vida de uma garota que tinha exatamente o mesmo problema que ela. Indignada com isso ela foi reclamar ao diretor da peça, e ele a respondeu que não a chamaram porque ela poderia não conseguir fazer as acrobacias que a personagem fazia. Com senso de humor e uma pitada de ironia, ela respondeu: “Mas se eu não consigo, então obviamente a personagem também não consegue!”
Bem, basicamente isso é um apelo por uma realidade mais inclusiva, que considere e respeite as limitações alheias, mas que não opte pela exclusão como forma de resolução. Fazer um filme sobre aceitações e sobre respeito as capacidades potenciais do outro é incrível, mas executar na prática esses valores seria ainda melhor.

Confira o Trailer do filme:

Com lançamento para o dia 07/12/2017, Extraordinário é uma adaptação do célebre livro, de mesmo nome, da escritora R.J. Palacio. A história gira em torno da vida do jovem Auggie Pullman, portador da Síndrome de Treacher Collins, que apesar de não ter sido apontada no livro, foi depois confirmada pela autora, que disse ter se inspirado nas pessoas portadoras do problema.

Dirigido por Stephen Chbosky, mesmo diretor de As Vantagens de ser Invisível, o mais novo trabalho se mostra completamente eficaz. Tomando como base um livro que já era dotado de sentimentalidade, Chbosky soube utilizar os recursos da narrativa cinematográfica pra fomentar uma ligação empática inquestionável entre o público e o personagem, e ele recorre a uma ambiguidade muito bem aplicada, que se baseia nesse contraste iminente entre a sutileza e a brutalidade.

Brutal, sobretudo, porque a história é por si só condicionada a uma realidade cruel, e o mundo fílmico em questão nos remete o tempo todo a isso, através das experimentações cotidianas do personagem, que naturalmente se mostram não só desafiadoras, como também pesadas. Sendo um garoto, portador de uma deformidade tão significativa e comprometedora a nível de interação e sociabilidade (haja visto a falta de tato das pessoas para lidar com a diferença), o filme poderia ter tomado rumos pesados, até mesmo culminando numa história fatídica, voltada para a inconformidade e para os aspectos mais exclusivos da humanidade, contudo, a direção foi tão bem conduzida que a introdução do universo infantil foi suave, e esses problemas tão gritantes foram pouco a pouco apaziguados tanto pela personalidade marcante da personagem, incrivelmente interpretada pelo talentoso Jacob Tramblay, como pelos elementos simbólicos do imaginário infantil, que perpassaram diante dos nossos olhos através de mil formas, como do astronauta que dava passos astronômicos de leveza pelo corredor, ou o Chewbacca, que diga-se de passagem foi um golpe baixíssimo com um público que viveu Star Wars.

O filme foi cheio de pontos altos, e as interpretações foram, inquestionavelmente, um dos grandes destaques desse trabalho. Não houveram fraquezas quanto a isso, porque desde as crianças até os já conhecidos Julia Roberts e Owen Wilson, os personagem dados foram completamente explorados, extraindo o que havia de mais essencial e humano dentro de cada um deles.

Assim como no livro, o filme contava com um formato que era permissivo com uma espécie de “protagonismo momentâneo”, onde as personagens tinham pedaços de suas vidas e histórias priorizadas, no intuito de correlacionar aquelas pessoas ao jovem Auggie, o que serviu não só pra ser mais abrangente com o cerco individual, mas também pra fomentar que a vida do jovem menino não era por si só um ponto que se delimitava, mas incluía e afetava, direta e indiretamente, a existência de todas aquelas outras pessoas.

Um ponto negativo, é que na recorrência constante a inúmeros elementos simbólicos emocionais, o filme termina por sufocar o enredo, gerando uma atmosfera de doçura, de superação, de esperança e eu ousaria até dizer, de desrespeito.  Antes de escrever essa crítica, busquei sites especializados americanos que estivessem falando do filme, e algo que me deparei com constância foram críticas de pessoas que realmente tem problemas de deformidade, e que se sentiram um tanto quanto “apagadas” com o filme. Uma das recorrências que me deparei foi justamente com o ponto da maquiagem. Tomei a liberdade de traduzir alguns tweets de uma mulher chamada Mike Moddy, e gostaria que vocês lessem:
“Meu rosto não leva horas toda manhã para ser colado, e eu não posso remover isso no final do dia.”
“Eu não existo?”
“Eu não consigo enfatizar isso suficientemente. Isso é traumático, quando 99% das pessoas desfiguradas na tela estão usando maquiagem.”
“Me deixa muito muito muito triste ver o Jacob Tramblay nessa máscara. Faz parecer que meu rosto é uma fantasia.”
“Imagina que resultado eles poderiam ter alcançado se tivessem contratado pessoas realmente desfiguradas pra consultar.”

Não é sobre necessidade de divulgação, é sobre representatividade. Crianças que assim como a personagem nasceram com o problema deveriam ter o direito de se enxergar diante das telas, e esse não seria um favor feito por Hollywood, mas uma obrigação. Precisamos repensar as políticas inclusivas, ou filmes como esse jamais passarão de um universo hipotético de esperança e luminosidade para pessoas que não vivem nem nunca viveram os problemas realísticos de nascer com uma deformidade.

Dito isso, é inegável que o filme foi dirigido com maestria, e que os elementos fílmicos tão bem retratados vão fazer com que o público se debande em lágrimas, numa espécie de êxtase por esse trabalho que é uma ode a superação, e que por isso ele deve ser assistido por inúmeras pessoas ao longo de todo o período em que se mantiver em cartaz. Contudo, quero trazer a reflexão sobre o nosso real comprometimento para a criação de um mundo mais inclusivo, e não somente de faz de contas.