Escrito e dirigido por Damián Szifron, relatos selvagens é um filme que conta 6 breves histórias sobre como nos encontramos verdadeiramente humanos quando desnudos de todas as falsas moralidades do cotidiano. O filme procura demonstrar que é ao abrir mão das máscaras habituais e dando lugar ao sentimento entranhado no sangue e na raiva que encontramos verdadeiramente o que há de humano em nós.

Primeiro Relato: Pasternak

Sete minutos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, sete minutos é todo o tempo que Relatos Selvagens precisou para explicar o mesmo sentimento que a série “13 razões porque” levou 13 episódios.

Pasternak reúne em um avião todos os seus afetos e desafetos, agindo como um sujeito oculto para amarrar em um só ato épico o destino de todos aqueles que manipularam a sua vida sem o devido cuidado ou atenção.

A cinematografia é impecável, os diálogos são perfeitos e a  cadência dos acontecimentos faz com que esse seja um episódio muito inteligente para abrir o filme, o final é maravilhoso e te coloca no espírito certo para continuar acompanhando os relatos seguintes.

 

Segundo relato: Os ratos

Uma oportunidade, é praticamente tudo o que as personagens deste episódio estavam esperando, uma oportunidade.

Moza teve a sua vida destruída pelo criminoso Cuenca. O pai se suicidou, ela e a mãe foram obrigadas a fugir as pressas para outro lugar. Agora ela trabalha em um restaurante na beira da estrada. O único laço entre essa nova vida e a antiga é o ódio que ela sente pelo responsável por toda a sua angústia, ou não é?

Quando confrontada com a oportunidade de lidar com essa dor a personagem se vê questionando certezas a tanto tempo estabelecidas, qual será o poder do seu ódio?

Este relato fala ainda da outra personagem, companheira de Moza no restaurante e que estava aparentemente aguardando somente uma oportunidade para sentir-se, em suas próprias palavras, mais livre.

Terceiro relato: A estrada

O terceiro relato trata sobretudo da relação de poder e de como essa relação gera resultados absurdos. Diego e Mario são dois personagens que se encontram e atuam como réguas de poder um sobre a outro.

A tensão é dada através das oportunidades que estes dois personagens têm de demonstrarem o seu poder e de como as coisas se dão a partir daí. Mais de uma vez o roteiro dá a ambos a oportunidade de encerrar a queda de braço. Quem já teve uma discussão de casal sabe que as coisas dificilmente vão terminar como estavam planejadas no inicio, o que começa sempre como uma troca de ofensas pode acabar, e normalmente termina, em atitudes irreversíveis. É a nossa falta de controle quando o poder é depositado em nossas mãos, principalmente quando o uso desse poder não trará nenhum resultado negativo.

Quarto relato: Bombita

O quarto relato fala sobre o engenheiro de demolição apelidado posteriormente de Bombita.

Este é o meu relato preferido pois as angústias vividas por Bombita têm relação direta com o nosso cotidiano, a forma como o roteiro foi estruturado tira deste relato o aspecto mais lúdico que estava presente nos anteriores para criar uma atmosfera muito mais realista.

A vida do engenheiro começa a se desintegrar diante de uma relação de poder muito diferente da apresentada no terceiro relato, aqui o engenheiro está em confronto com o estado das coisas, a simples rotina gradativa dos problemas se somando e criando problemas ainda maiores tornam esse relato um espelho perfeito do nosso cotidiano.

Quantas vezes você acordou atrasado e no meio do caminho começou a chover o que atrasou mais ainda tudo? Bombita vive isso.

A resposta é libertadora, o personagem (interpretado pelo incrível Ricardo Darín) manda aquele gigantesco e incrível dedo do meio para todos os problemas e nós temos a oportunidade de nos sentirmos vingados. É perfeito.

Quinto relato: O acordo

Maurício, filho de um riquíssimo empresário,  atropela e mata uma grávida. Para livrar o filho da culpa os pais vão tentar controlar a situação através do suborno. Aqui a relação de poder entre os envolvidos é revertida. O poderoso empresário possui o poder financeiro necessário para lidar com a situação, contudo, uma vez que as engrenagens da corrupção são postas em funcionamento ele percebe que é impossível saciar o desejo pelo seu dinheiro.

Fazendo um paralelo com o segundo relato, neste, os personagens se deparam com uma oportunidade para mudar de vida. Mesmo o caseiro encontra fibra moral para debater com o seu patrão, uma vez que a própria situação equaliza as suas forças.

Uma vez que as regras do jogo são manipuladas o terreno se torna incerto, ninguém consegue manter o controle da situação e todos atuam como inimigos.

Este relato é uma aula de como funciona a corrupção, perto do fim é possível entender o aspecto cíclico dela, como uma atitude corrupta gera diversas outras atitudes que se sobrepõem, no fim, não existem honestos.

O ato final de “Relatos Selvagens” : Até que a morte nos separe

O que é real em um casamento? A decoração, a música, as luzes, as cadeiras e todas as roupas? Onde está o palpável em um casamento?

Todos os sorrisos de um casamento são reais? Todos os elogios? Quantas máscaras existem em um casamento?

O último relato fala sobre a liberdade, não a liberdade de escolha ou a liberdade financeira que estão presentes nos relatos anteriores, não fala da liberdade de ser violento, fala da liberdade da imperfeição.

E para demonstrar essa liberdade o diretor de Relatos Selvagens fez a escolha correta, um casamento. Uma festa repleta de contrassensos, no mundo real, o que deveria ser uma festividade para homenagear um casal de pessoas queridas acaba virando uma verdadeira batalha entre vestidos, comidas, gostos, ir a um casamento é assistir um desfile de críticos de arte, gastronomia, moda.  É tudo menos sobre os noivos, então o que o diretor faz?

Neste último conto de Relatos Selvagens o diretor demonstra que a verdadeira união, a felicidade desta união, só pode vir quando despida da obrigatoriedade da perfeição. É no imperfeito que os corpos se encaixam.  E assim, cheio de contradições e cheio de imperfeições o filme termina, humano e possível.

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