Autor: Oitavo Anão

CONTO | Cinema em 3 Atos

“Nenhum homem pode assistir duas vezes ao mesmo filme…
pois na segunda vez o filme já não é o mesmo,
nem tão pouco o homem!” – Heráclito de Éfeso

Primeiro Ato:

Um jovem corre desesperado. Tudo a sua volta está desmoronando. Ele está cansado, fatigado, aparentando estar correndo durante toda uma vida.

George, o jovem, já quase desistindo de continuar a correr e fugir, avista, ao longe, uma escadaria em formato de caracol tão alta, que cortava as nuvens e seu fim não podia ser avistado. Essa visão traz um fio de esperança que ele necessitava. Sem querer saber se tudo aquilo era real ou se não passava de uma alucinação, ele usa suas últimas forças para alcançar a escadaria. Ele finalmente a alcança e começa a subir ainda desesperado. Parece não ter fim. Será um pesadelo?! Ele ultrapassa as nuvens e parece avistar o final daquelas escadas.

Segundo ato:

Nada mais a sua volta parece estar desmoronando. Ele estranha. Ele já havia se acostumado em correr eternamente fugindo do ambiente a sua volta se desmoronando. As pessoas ali não corriam, mas simplesmente andavam, sorriam, conversavam, divertiam-se. Aquilo com certeza não era real. Ele pensa em descer as escadas e voltar a correr. Mas lá no fundo ainda havia uma pequena curiosidade em seu ser, inerente a todo ser humano.

– Só uma olhadinha. – ele prometeu a si. Depois ele voltaria a sua corrida de praxe.

Em seu tour por aquele lugar, George vê um grupo de pessoas adentrando uma sala e resolve seguí-las. Abriu a porta, passou por uma cortina, como se fosse um véu separando o impuro do sagrado.

Dentro da sala, estava tudo escuro. As pessoas iam acomodando-se, como em um templo, de forma a conseguirem a melhor visão de uma espécie de janela ou portal de formato retangular na parede oposta a porta de entrada. Trombetas ao redor da sala tocaram anunciando um grande evento. Todos se calaram em respeito imediatamente, assim como todos se levantam quando um juiz adentra o tribunal. Imagens começaram a ser projetadas naquela espécie de portal e sons ecoavam por todo ambiente. George não sabia, mas dizem que era uma entidade tentando se comunicar com os humanos.

Esse contato com a entidade provocava as mais variadas emoções nos seres daquela sala, mas até hoje ninguém sabe explicar o porquê.  Uns dizem que já sentiram uma vontade incontrolável de chorar, outros dizem que riram sem parar. Naquele dia em específico, todos na sala ficaram simplesmente em silêncio. Talvez os humanos ainda não estavam prontos para a mensagem que a entidade estava querendo transmitir.

George não sabia o que estava sentindo. Era seu primeiro contato com a entidade, então havia momentos em que ele chorava, outros em que ele ria descontroladamente, mas só decidiu sair mesmo quando sentiu uma dor no estômago, como se alguém tivesse lhe dado um soco bem forte naquela região. Foi só então que procurou uma saída. Ele seguiu um foco de luz que parecia lhe indicar a cortina pela qual havia entrado.

Terceiro ato:

Ele passou pela cortina e estava novamente do lado de fora, mas ainda não estava bem. Algo lhe incomodava. Ele não conseguia para de pensar naquelas imagens e sons, tentando entender tudo aquilo. Como havia prometido a si próprio, desceu as escadas e enquanto descia, tentava decifrar aquela mensagem a qual acabara de ser exposto.

Quando chegou lá em baixo ainda estava pensando e acabou não percebendo que o ambiente estava normal como nunca havia sido. Nada estava desmoronando como outrora. Ele procurou por um banheiro para lavar o rosto e tentar aliviar todas sensações estranhas que ele experimentava. No banheiro, ele abriu a torneira, jogou água no seu rosto, olhou se para o espelho e tomou um susto. Ele, de alguma forma, não era mais o mesmo George. Ele havia mudado. Olhou assustado também para seu em torno e tudo havia mudado. Ele olhou novamente para o espelho, porém dessa vez de mais perto.

 

Ele sorriu.

fim.

Trilha sonora: This world is not my home | Fern Jones

“[…] a cidade é uma criação natural, e que o homem é por natureza uma animal social, e que é por natureza e não por mero acidente, não fizesse parte de cidade alguma, seria desprezível ou estaria acima da humanidade […]” – Aristóteles, A Política

Em uma de suas obras mais famosas, Aristóteles afirma que o homem, por natureza, é um animal social, um ser adaptado para o convívio e relações sociais. Talvez alguém deva sair espalhando essa notícia por aí.

Triiiim, triiiiiiim. O despertador toca anunciando o alvorecer de mais um dia. Também conhecido como eufemismo de: “Triiiiiiim,  triiiiiiim. O gongo toca anunciando o início de mais um round entre você e o mundo.”

Cada dia é um round e ao longo dos dias, alguns vão ficando pelo caminho, mas você continua talvez não tão firme, nem tão forte, mas continua. Continua apanhando sem nem mesmo saber o porquê, apanhando quando opina diferente dos outros, apanha quando alguém falta com educação ou respeito para você, apanha até mesmo quando o soco não é desferido em você, mas no seu próximo. Apanha quando vê injustiças, desrespeito, intolerância, quando vê o meio ambiente pedindo ajuda. E você continua nas cordas, tentando se segurar de alguma forma, torcendo pelo final do round, mas sem saber quantos rounds essa luta tem. Essa luta parece não terminar nunca.

Poster do filme 'Já não me sinto em casa nesse mundo'

Essa luta não é minha. Não fui eu que causei tudo isso. Mas mesmo assim sou eu que tenho que levar os socos e seguir em frente?! Já não me sinto em casa nesse mundo. Esse é o grande questionamento e o título do longa dirigido por Macon Blair que foi tão aclamado no festival de Sundance que acabou atraindo a atenção da Netflix que o adquiriu.

O filme conta com as grandes atuações de Melanie Lynskey (Ruth) e Elijah Wood (Tony) e traz à luz essa indignação dos humanos médios que vivem sua vida correta, fazendo o que é certo e vendo seres – de intelecto voltado para única e exclusivamente o benefício próprio que, erroneamente, se auto denominam seres humanos – se darem bem na vida.

O mundo está cada vez mais… ESQUISITO é a palavra. Um recado para os extraterrestres que porventura estejam lendo esse texto: esse mundo não me representa. É claro que nos indignamos com tudo isso, é claro que não nos sentimos satisfeitos com essa vida média e além disso ter que aguentar sermos pisados por seres superiores e magnânimos, como quem pisa em um estalinho só para ouví-lo estourar e se divertir. Indignai-vos, ó humanos! Lutai por seus direitos, lutai por sua liberdade, lutai por seu mundo.

Poster do filme 'Mãe!'

Mais recentemente, Aronofsky, em Mãe! no uso da metáfora para a bíblia e para o mundo em si, alerta para o rumo que estamos dando para o mundo, para a forma que tratamos nossa casa. Como ele afirmou em uma entrevista, o próprio título, com o ponto de exclamação, funciona como um grito de socorro, um grito de alerta para acordarmos enquanto o penhasco ainda não chegou.

” E dado que a condição do homem […] é uma condição de guerra de todos contra todos, sendo neste caso cada um governado por sua própria razão, e não havendo nada, de que possa lançar mão, que não possa servir-lhe de ajuda para a preservação de sua vida contra seus inimigos, segue-se daqui que numa tal condição todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo os corpos dos outros.” – Hobbes, Leviatã

Talvez o filme de Macon Blair não seja tão otimista com os seres humanos como Aristóteles ou até mesmo como Aronofsky, seguindo mais a linha de Hobbes, que acreditava no princípio do homem ser o lobo do homem. Todavia, até mesmo este acreditava em uma maneira de ultrapassar essas dificuldades quando o homem se abdicasse de parte de sua liberdade para que todos pudessem conviver em paz. Assim, também podemos ver um fio de esperança na humanidade através do longa, quando vemos que talvez nem todas pessoas sejam ruins. Talvez, assim como você e Ruth, existam outras milhares, até mesmo milhões de esquisitos e selvagens, conforme afirma Aristóteles, que não concordam com esse mundo e queiram apenas viver suas vidas e serem felizes. Não podemos deixar que todo o resto suje nossa fama para os extraterrestres.

Trilha Sonora: Over the Rainbow
“It is not the strongest of the species that survives, nor the most intelligent that survives. It is the one that is most adaptable to change.” – Charles Darwin

Na natureza, aquele que melhor se adapta ao ambiente em seu em torno, sobrevive por mais um dia. O homem, por sua vez, evoluiu. Evoluiu por perseguir seus sonhos, evoluiu por não se acomodar a apenas sobreviver. O homem queria muito mais do que um dia, muito mais do que um mês,  ele queria sua vida e a partir de então evoluiu. Evoluiu por buscar viver ao invés de simplesmente sobreviver.

Muito mais do que ser racional, o que diferencia o homem das outras espécies é o sonho e vemos reflexo desse pensamento constantemente no cinema. Em filmes onde objetos ou animais são antropormofizados, ou seja, ganham habilidades humanas, entre elas está a habilidade de construir um avião e fugir do galinheiro, a habilidade de nadar em mar aberto, a habilidade de sonhar, a habilidade de acreditar que há algo a mais do que simplesmente sobreviver.

Essa inconformidade com o status quo inerente dos humanos não é restrita a filmes atuais. O brilhante, Charles Chaplin, em seu filme Tempos Modernos, questiona, entre tantos outros assuntos, a mesmice da vida a que fomos impostos e que muitas vezes não temos coragem ou força suficiente para sair dessa inércia.

Poucos anos mais tarde, em uma das melhores adaptações já feitas para o cinema, O Mágico de Oz, acompanhamos a pequena Dorothy em sua jornada por um lugar além do arco íris no qual todos seus sonhos se realizariam. E, como em uma bela jornada do herói, a pequena heroína e seus fiéis escudeiros enfrentam suas maiores fraquezas e, ao final, acabam retornando para casa com o precioso ensinamento que eles sempre possuíam as habilidades necessárias para vencer o inimigo, só precisavam acreditar neles próprios.

Ao contrário do que Arquivo X possa ter nos ensinado, a verdade não está lá fora. A verdade está em cada um, talvez o mais difícil seja achar a pergunta certa como aprendemos com Douglas Adams. Como compreender esse mundo complicado se não entendemos a nós mesmos?

Em outra excelente adaptação para o cinema, Blade Runner, o maior exemplar da cultura cyberpunk na sétima arte, nos convida a questionar nossa própria humanidade, mas não por ter carne e osso, ou por sermos racionais, mas se temos sonhos, se temos esse ímpeto de viver ou apenas vemos a vida passar na frente de nossos olhos sem nos movermos.

Mas todo esse papo furado nos leva para esse exato momento, onde lhes apresento um curta do longínquo ano de 2017 que reúne tanto o conceito de sonho, não o de contar carneirinho, mas o sonho quanto a sair da inércia e buscar uma vida melhor, quanto a ideia da resposta estar dentro de si e em quem você ama.

HOME

Home (Trailer) from Daniel Mulloy on Vimeo.

O curta Home, retrata um futuro distópico no qual famílias de classe média tem o costume de pagar um pacote de viagem ‘Refugiados’, onde fazem justamente o caminho inverso dessas pessoas que tanto sofrem. Ao final da jornada, a família acaba ficando mais próxima e sentindo aquele lugar triste, sujo, destruído como um lar.

Então, fica a recomendação desse curta e de todos as outras obras citadas acima que, como em toda boa obra de arte, nos faz pensar um pouco mais em nós como pessoas, como seres humanos e o que estamos fazendo com nossas vidas. Onde estamos indo pra encontrar a felicidade ou nossos sonhos? Como a pequena Dorothy aprendeu, às vezes a felicidade está no quintal de casa e nós procurando nos mais distantes lugares. Valorize cada pequena conquista, cada pequeno momento ao lado dos seus entes queridos, mas sem deixar de sonhar. Sonhe, sonhe muito e corra atrás deles com toda sua força. A distância entre a realidade e o sonho é de apenas um passo. Dê o primeiro passo.

“The dreams shall not remain in the deep of your heart, otherwise they will never reach the Sun of reality” – Oitavo Anão
Deixe nos comentários outras obras que tratem desse conceito de sonho, ou seja, aquilo que nis diferencia dos outros animais.

Saindo do Ninho

Você está em um lugar seguro, aconchegante, quentinho, comida à disposição. De repente, alguém tenta de tudo para te expulsar dali. Um monstro te puxa pela cabeça e te leva para fora dali. Uma luz muito intensa e ofuscante. Você foi levado para um lugar completamente novo, uma nova dimensão, nada ali faz sentido. Quem são esses seres? O que está acontecendo? Por que estão me batendo? Por que furaram meu pé? Eu quero minha mãããããããããããããe!!!!!!!

A forma que somos apresentados ao mundo pode ser considerado cruel e traumatizante. Chegamos em um lugar totalmente desconhecido e é justamente nesse momento que um personagem guia aparece na história. É aquele personagem que apresenta o mundo novo não só ao personagem perdido, mas a todos espectadores. Ao trazermos para o mundo real, esse guia nada mais é do que a figura materna (seja sua própria mãe, pai, tio, avô, gorila, Leon…), aquele que te mostra o mundo novo, te levanta nas horas em que você cai e ensina a não cair mais.

Em O Quarto de Jack, um garotinho (Jack) e sua mãe vivem durante anos em um cativeiro, um pequeno quarto com um espaço para dormir, um espaço para comer e uma televisão. Esse quarto era o mundo para Jack, representando quase um útero, onde o bebê não tem ideia de como o mundo lá fora é até o parto. Quando Jack consegue sair daquele quarto, o parto acontece. Onde estou? Quem são essas pessoas? O que são essas coisas?

Jack, então, nasceu para o mundo de forma prematura, ele não estava preparado para toda essa novidade, nem sua mãe. Não tinha como ela criar seu filho para o mundo, quando se vive preso em um útero e seu único cordão umbilical para o exterior é uma televisão e uma claraboia. Ela precisa agora criar seu filho para a vida.

“Mas ela sabe que depois que cresce O filho vira passarinho e quer voar…”

Todos animais passam pela fase em que precisam sair do ninho e enfrentar a vida de peito aberto sozinhos. As histórias do pequenino Nemo e da pequena Dory nos traz a tona esse conceito de preparar o filho para o mundo, preparar o filho para as dificuldades da vida. Os dois que nasceram com um deficiência,  mas cada um criado de uma forma diferente. Marlin criava seu filho sempre debaixo de suas nadadeiras, protegendo seu filho de qualquer perigo. Tudo isso muito influenciado pelo que havia acontecido com sua mulher, acarretando em um sentimento de culpa e protecionismo em Marlin. Enquanto isso, Dory foi criada, desde seus primeiros passos, ou mais precisamente,  desde suas primeiras nadadas, a enfrentar suas dificuldades sozinha.

Às vezes, a saída do ninho pode ser acidental, por isso, é função dos pais ensinar, desde criança, seus filhos a baterem as asas, para que essa queda não seja tão traumatizante quanto já é. E, claro, que o aviso também serve para os pequenos pardais que sonham com a tão sonhada liberdade. Não esperem o momento chegar para aprender a bater as asas, caçar sua própria comida, fugir do gavião… A liberdade é como um carro, sonho de todo jovem, te dá poder, pode te levar a qualquer lugar, mas requer habilidades para que não machuque a si próprio ou a outrem, além de responsabilidade para arcar com todos seus gastos e obrigações. Mais tarde você talvez acabe achando que o carro só te traz despesa e resolva andar só de transporte público, mas isso vai de cada um.

  1. Música: open.spotify.com/track/4U45aEWtQhrm8A5mxPaFZ7

A arte nada mais é do que uma forma de expressão. É por onde expressamos todos aqueles sentimentos das formas mais variadas possíveis e uma delas é chamada cinema. Este, que por muitas vezes, é utilizado como uma forma de escapismo, ou seja, como fuga do mundo cruel em que vivemos. Porém, muitos filmes acabam exagerando nesse conceito e iludindo muitas pessoas passando um padrão de vida, em sua maioria inalcançável. Por isso, venho escrever esse post de utilidade pública, como uma forma de choque de realidade. Como aprendemos em Arquivo X, “A verdade está lá fora”.

Rocky Balboa em seu golpe mais certeiro de toda sua carreira, acertou um direto, não apenas na cara de seu filho, mas de muitas pessoas iludidas. Em uma aula de vida, podemos dizer assim, ele nos traz a mais pura e triste verdade. A vida realmente não é só sunshine and rainbows, a vida pode ser sua mais cruel adversária se você deixar. Não se iluda com uma vida colorida como alguns filmes possam fazer parecer.

A vida é como o porão de Pulp Fiction, se você não estiver preparado, pode ser que você se dê muito mal, mas você pode também aprender com tudo isso, escolher suas armas e acabar um a um com seus problemas, ou não. Mas como um bom cinéfilo que você é,  sabe que o mais importante não é o fim, e sim todo aquele caminho que você já trilhou e aqueles vilões e dificuldades que deixou para trás.

Música: open.spotify.com/album/7drYNu2imHk188vP81icR3

Esperto foi Peter Pan que escolheu nunca envelhecer, ficar uma criança para o resto da vida. Ainda não inventaram nenhum pó mágico (legalizado) que faça você viajar para a terra do nunca e nunca mais envelhecer. Peter Pan serve como um alerta para você aproveitar cada pequeno instante da sua vida, para alguns anos depois não ficar se lamentando como um velho gagá que queria voltar ao passado e aproveitar mais daquele momento.

Música: open.spotify.com/track/2h6ogDxsZ6Tzy82g16nhFa

Woody Allen, conhecido por suas obras quase bibliográficas, sempre tenta mostrar em seus filmes como relacionamentos também podem ser complicados. Em uma de suas melhores obras, Rosa Púrpura do Cairo (filme muito mais conhecido por seu nome, do que por sua história), ele consegue passar incrivelmente bem toda essa ideia entre o mundo perfeito do cinema versus a vida real, triste, cinza, cruel, de corações partido, pisados, estraçalhados… Respira, inspira, respira inspira. Perdão, me empolguei. Acabei me lembrando de alguns eventos de outrora.

A Rosa Púrpura do Cairo

Poster de A Rosa Púrpura do Cairo

Cecilia (Mia Farrow) é uma clássica mulher dos anos 30 que vive para servir seu marido. Todavia, ele é um marido abusivo e que após ter perdido seu emprego após a grande crise de 29, não faz mais nada além de farrear com seus amigos e “amigas” e viver às custas de sua mulher. Ela é uma apaixonada por cinema, justamente por trazer um escapismo para sua vida, mesmo que tão momentâneo. Em uma de suas idas ao cinema, um dos personagens sai do script, movido por seus sentimentos para com ela. Não satisfeito em conversar com ela, ele cria forças e consegue sair da tela e se materializar no mudo nosso de cada dia. Tom Baxter (Jeff Daniels) consegue convencê-la a viver uma aventura e sair de sua vidinha mais ou menos. Todavia, o ator, Gil Shepherd (Jeff Daniels) que interpreta tal personagem viaja para aquela cidadezinha a fim de convencê-lo a voltar para a telona, mas acaba se apaixonando também por Cecilia. Ela se vê, então, dividida entre um aventureiro, o príncipe encantado que ela e tantas mulheres sonham, mas irreal, ou um galã de carne e osso e apaixonado por ela.

“Estava pensando em coisas muito profundas. Sobre Deus e sua relação com Irving Saks e R.H. Levine. E eu estava pensando sobre a vida em geral. A origem de tudo o que vemos sobre nós. A finalidade da morte; Como quase mágico parece no mundo real, ao contrário do mundo da celulóide e sombras cintilantes.” – Tom Baxter

Será que realmente existe um príncipe encantado como eu, que virá em seu cavalo branco, matará todos dragões de sua vida e te levará para seu castelo e lhe tornar uma princesa e tratá-la como tal? Ou não existe nada disso, apenas Shreks (pessoas com muitos defeitos, mas que no fundo talvez seja uma boa pessoa)? Talvez exista os dois, mas não haja príncipes suficientes para todos, e precisamos nos contentar com um Shrek ou nem isso às vezes. A vida pode ser muito cruel também no que tange o mundo dos relacionamentos e é justamente esse o cerne da maioria dos filmes de Woody Allen. Talvez as pessoas passem muito tempo esperando um príncipe encantado no cavalo branco e não conseguem ver a beleza no Shrek a seu lado.

P.S.: A vida não é de todo mal. Uma boa notícia, por exemplo: estou livre mulheres! Me chame de C&A, use e abuse-me.

Nesse momento, talvez você esteja no canto do quarto, abraçando os joelhos, balançando em movimento periódico e chorando, pensando que o mundo cruel. Você está certo, mas é essa a beleza da vida. Uma vez que você veja a vida dessa maneira, cada dia é uma batalha vencida e só os fortes sobrevivem, e uma dica (sussurrando), se você chegou até aqui, você é um dos fortes. Procure viver, não apenas sobreviver. É isso o que nos diferencia dos outros animais. Busque sua felicidade, não passe essa responsabilidade para os outros, esse é um poder exclusivo seu.

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO

Escrito e dirigido por Woody Allen; diretor de fotografia, Gordon Willis; editado por Susan E. Morse; diretor de arte, Stuart Wurtzel; música por Dick Hyman; produzido por Robert Greenhut; distribuído por Orion Pictures Corporation. Tempo de duração: 84 minutos. Elenco: Cecilia (Mia Farrow); Tom Baxter, Gil Shepherd (Jeff Daniels); Monk (Danny Aiello).

Em um beco escuro, uma silhueta, lhe intriga. Sua imaginação recorre a sua memória e todos contos de terror, reais ou imaginários, que você possa se lembrar.
– A estatura daquele ser é maior do que a de um ser humano normal. Não pode ser um homem. – Você pensa. – Talvez seja um monstro.

Em algumas obras de ficção, como em Star Trek, aprendemos a deixar um pouco de lado nosso egocentrismo de que todo o universo é baseado em nossas formas, nossos conhecimentos, nosso modo de ver a vida. Aprendemos que uma nuvem cósmica, por exemplo, pode ter vida. Ou seja, aprendemos que pelo fato de não entendermos ou não percebermos com nossos meros 5 sentidos, não quer dizer que não seja real.

No início do século XX, um alemão e um sueco fizeram não somente nós meros mortais, mas a toda comunidade científica parar para pensar. Em um vale, você percebe uma linha reta estranha cortando o vale. Nela, algo ou alguém só poderia se locomover para frente e para trás, possuindo, portanto, apenas uma dimensão. Todavia, você pega um binóculo e consegue observar que tal linha reta trata-se de uma mangueira e nela há uma formiga que consegue andar ainda para os lados ao longo de sua circunferência. Uma nova dimensão foi descoberta. A Teoria de Kaluza-Klein trata-se mais ou menos a respeito disso. Para eles, o universo não possuiria apenas 3 dimensões espaciais, mas 4 ou até mais se nos utilizarmos de outras teorias que acabam ratificando a Teoria das Cordas. Essa nova dimensão seria tão pequena que nenhum equipamento existente hoje em dia poderia percebê-la, mas isso tornaria, portanto isso uma fantasia?! Apresentações feitas, vamos ao filme.

Poster de Personal Shopper

Em Personal Shopper, Maureen (Kristen Stewart), uma jovem americana que ganha sua vida como uma personal shopper (criatividade transbordando) também é uma médium. Seu irmão, ainda jovem, acaba morrendo decorrente de um problema congênito em seu coração. Porém, antes de morrer, ele e sua irmã fazem uma promessa que quem morresse primeiro tentaria se conectar um com o outro.

Nessa trama, um pouco Chico Xavierzística, acabamos encontrando uma proposta bastante interessante. Embora, a sinopse possa aparentar que o filme tenha uma pegada religiosa, é aí que você se engana. O filme tem a intenção de provocar o espectador sair da caixinha e se abrir a possibilidade de um mundo totalmente novo e inalcançável aos sentidos humanos possa existir ou não. A história que tem uma ambientação hitchcockiana/expressionismo alemão, onde embora tenha um clima pesado, tanto na temática de suspense e horror, como na fotografia, atuações, trilha sonora e, claro, direção de Olivier Assayas, o filme foca em uma personagem passando por uma jornada de autoconhecimento.

Maureen está passando por uma fase sensível de sua vida, muito suscetível a acreditar que realmente seu irmão, de alguma forma, ainda está do seu lado. A sutileza de todos os acontecimentos provocam o público a se questionar se tudo aquilo é real ou apenas fantasias que ela criou.
Por isso, é um filme que eu indico fortemente a todos assistirem não só para saírem um pouco do lugar comum e pensar um pouquinho que o mundo, digo, o universo pode ser muito maior do que os olhos podem ver, mas também por esse clima de suspense hitchcockiano que tanto amamos.

Trailer

Trilha Sonora: Caetano Veloso – Você Não Me Ensinou a Te Esquecer

O cinema francês, desde sua época áurea, já nos ensinava que o amor não se trata de conto de fadas como Hollywood costumava e ainda costuma contar. O amor é complexo, não traz só alegrias, muitas vezes machuca, algumas vezes é efêmero. Por isso, muitas pessoas acabam optando por se fecharem para esse sentimento tão cruel. Um sentimento que deixa marcas profundas que nem sempre é possível esquecer.

Por não se tratar de um sentimento preto e branco, costumamos classificá-los em tipos diferentes. E na classe dos mais cruéis, sem sombra de dúvida está o amor passageiro. Um amor que chega tão rápido, mas deixa marcas eternas, um furacão. Em Hiroshima, Meu Amor encontramos esse mal. E como todo mal, é necessário encontrar uma cura. Nesse caso, o esquecimento.

Poster do filme ‘Hiroshima, Meu Amor’

O filme, que foi iniciado com a ideia de ser um documentário retratando as consequências do ataque a Hiroshima, não deixa ainda de relatar tais fatos e usá-los como chave em seu argumento. Emmanuelle Riva (ela mesma) é uma atriz francesa que vai à Hiroshima para participar de um filme e lá se encontra com Eiji Okada (ele mesmo), um arquiteto casado que se rende a seus encantos à primeira vista. Após uma noite de amor, eles se veem em um impasse após se darem conta que ela partiria no dia seguinte de volta à França. Eles devem deixar todos aqueles sentimentos para trás. Eles passam, então, a última noite se martirizando, pensando em tudo aquilo que eles passaram e deverá ser esquecido. O filme usa como base a metáfora entre o sofrimento de amor e o sofrimento da guerra, convidando a todos a esquecer o que te faz sofrer. Sem isso, a vida seria impossível. Embora a marca fique para sempre e o aprendizado também.

Poster do filme ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’

Outro filme que acabou utilizando-se dessa premissa em parte de seu argumento, sem deixar de ser original, foi Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, escrito magnificamente por autor de mesma alcunha, Charlie Kaufman (Anomalisa). Todavia, dessa vez, o desejo de esquecer os sofrimentos de amor, embora natural, é tratado como uma fraqueza, uma vez que as dores ou alegrias elas nos moldam como pessoas, moldam nossa história e nosso caráter. Então esquecer nossos sofrimentos é esquecer de parte de nós mesmos. Por exemplo, uma pessoa azarada, onde tudo de errado aconteça com ela (nada autobiográfico), ela não teria um passado.

“A experiência é o nome que damos aos nossos erros.” – Oscar Wilde

É claro que um filme de Charlie Kaufman vai muito além desse argumento. O filme é complexo em sua montagem, com uma linha do tempo longe de ser linear, mas com elementos além dos de roteiro, como elementos da direção artística que servem de ferramentas de conexão para o espectador não se perder e ficar a todo momento focado na história e se emocionar por rios e mais rios, talvez oceanos de suores escorridos pelos olhos.

Poster do filme ‘Antes do Amanhecer’

Em tempos mais modernos onde vemos uma sociedade voltada para os ideais helenistas, de uma busca incessante do prazer, Richard Linklater, pai do cinema americano mais francês de todos, consegue trazer um viés neoliberalista/helenista para a questão do amor efêmero em uma de suas grandes obras. Em Antes do Amanhecer, um casal acaba se encontrando em um trem, corações batem mais forte, respirações acelerados, mãos suadas. Eles têm apenas um dia para passarem juntos e em um surto de juventude irresponsável ou em um surto de juventude tentando aproveitar cada segundo de suas vidas sem pensar no futuro, pensando no agora, o depois, a gente corre atrás, resolvem se conhecer melhor. Porque não?! O diretor, conhecido por contar histórias de jovens tentando descobrir o mundo, descobrir a si mesmos, traz essa sua característica para esse filme.

Cena do filme ‘Thelma e Louise’

A adolescência é como alguém saindo com um carro esportivo em uma estrada vazia. O piloto acelera ao máximo, sem querer perder um segundo sequer dessa estrada vazia. Até que, sem nenhum aviso, se depara com uma estrada toda esburacada, os freios não funcionam e, como em Thelma e Louise, um abismo nos espera logo a frente. É assim que sabemos que estamos na juventude. Nada, nem ninguém vai conseguir te preparar para o mundo lá fora. Você vai ter que descobrir os buracos sozinhos, tentar desviar deles e ainda tentar aproveitar cada minuto antes que chegue no abismo. É claro que você vai cair em alguns buracos, talvez furar alguns pneus, mas nunca parar o carro e deixar te pegarem. Essa é a juventude segundo R.L.

HIROSHIMA, MEU AMOR

Dirigido por Alain Resnais; escrito por Marguerite Duras; direção de fotografia, Sacha Vierny e Michio Takahashi; edição por Henri Colpi, Anne Sarraute e Jasmine Chasny; música por Georges Delarue; direção de arte, Esaka Mayo; produzido por Samy Halfon; distribuído por Zenith International. Preto e Branco.

Tempo: 88 minutos.

Elenco: Emmanuelle Riva (Ela), Eiji Okada (Ele), Stella Dassas (Mãe), Pierre Barbaud (Pai) e Bernard Fresson (Amante alemão).

ANTES DO AMANHECER

Dirigido por Richard Linklater; escrito por Mr. Linklater e Kim Krizan; direção de fotografia, Lee Daniel; edição por Sandra Adair; production designer, Florian Reichmann; produzido por Anne Walker-McBay; distribuído por Castle Rock Entertainment.

Tempo : 100 minutos.

Elenco: Ethan Hawke (Jesse) e Julie Delpy (Celine).

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS

Dirigido por Michel Gondry; escrito por Charlie Kaufman, baseado na história de Mr. Kaufman, Mr. Gondry e Pierre Bismuth; direção de fotografia, Ellen Kuras; edição por Valdis Oskarsdottir; música por Jon Brion; production designer, Dan Leigh; produzido por Steve Golin e Anthony Bregman; distribuído por Focus Features.

Tempo: 108 minutos.
Elenco: Jim Carrey (Joel Barish), Kate Winslet (Clementine Kruczynski), Kirsten Dunst (Mary), Mark Ruffalo (Stan), Elijah Wood (Patrick) e Tom Wilkinson (Dr. Howard Mierzwiak).

 

Guia Definitivo do Oscar 2017

Após as campanhas de Oscar so White (Oscar tão branco) na edição do ano passado, a Academia resolveu tomar providências e algumas mudanças foram realizadas. Essas mudanças acabaram não afetando somente a premiação e seus indicados, mas também foi notável a mudança na própria indústria, que seja por oportunismo ou por realmente querer passar uma mensagem, dar voz aos desprivilegiados, acabou produzindo uma quantidade muito acima da média de filmes com protagonistas negros.

Na edição de 2017 do Oscar é evidente que todas as mudanças anunciadas surtiram efeito, seja por terem mais filmes bons com atores negros ou apenas para aparência, satisfazendo o público que reclamou anteriormente.

Cores à parte, vamos avaliar os filmes como filmes. Deixem as cores para avaliar a fotografia, fora isso, a cor pouco importa para avaliarmos um filme, ou pelo menos não deveria.

História

O Oscar começou com suas premiações no final da década de 20, começo da década de 30, anos de ouro do cinema. O cinema já não engatinhava mais, as superproduções começavam e alguns filmes em technicolor também seriam lançados. E todo esse glamour era repassado para o prêmio da academia. Anos se passaram, e acabamos chegando, no então, século XXI. E o que mudou desde a primeira edição até sua 89ª edição?

Atores negros conseguiram muito mais espaço e muito mais papéis além dos de empregados como costumava acontecer. Além disso, filmes independentes ganharam mais e mais força desbancando grandes produções e nas edições mais recentes acabaram se tornando maioria nas indicações. E esses dois pontos ficaram evidentes no Oscar 2017. Mas chega de história e vamos ao que interessa, uma análise nada detalhada dos prováveis vencedores, quem ficou de fora e quem deveria ganhar. Bora lá!

 

Melhor Filme

É quase certo que Moonlight ou La La Land leve o maior prêmio da noite por tudo que ele representa nessa temporada de mudanças do Oscar. Um filme que fala de maneira crua e natural de um menino que passou por todas as dificuldades possíveis e mesmo assim tão real e sinestésico. Todavia, minha preferência pessoal vai para Manchester à Beira-Mar, um filme que conseguiu falar muito mais comigo e me conectar.

Quem deve levar:  Moonlight: Sob a Luz do Luar

Quem deveria levar: Manchester à Beira-Mar

 

Melhor Diretor

Quem deve levar: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações) – conseguiu juntar todas as ideias e talentos em um filme e tornar tudo real.

 

Melhor Atriz

Hollywood se encantou por La La Land e uma das grandes culpadas é Emma Stone e seu carisma e atuação emocionante, alegre, viva. Porém, nesse ano tivemos atuações que, ao meu ver, requereram uma performance melhor: Isabelle Huppert, interpretando uma mulher independente, vivida e que passa por um acontecimento que marcaria a vida de qualquer um, mas que com essa personagem acabou gerando uma sensação quanto que confusa; e Natalie Portman, interpretando a mulher do ex-presidente Kennedy, uma personagem e mulher complexa e absurdamente profunda para ser interpretada por reles mortais.

Quem deve levar: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)

Ficou de fora: Kate Beckinsale (Amor & Amizade), Amy Adams (A Chegada) e Rebecca Hall (Christine)

Quem deveria levar: Rebecca Hall (Christine)

 

Melhor Ator

Para mim, nessa última temporada tivemos duas grandes atuações: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) e Colin Farrell (The Lobster). Se pudéssemos comparar com outras atuações, diria que Casey Affleck acabou encontrando o tipo de personagem perfeito para sua atuação assim como Jake Gyllenhaal em O Abutre, personagens mais retraídos. Já Colin Farrell, fez uma atuação única nessa vida, algo como Heath Ledger em Cavaleiro das Trevas, com trejeitos, passando emoção de um jeito totalmente fora do comum, por ser um personagem com uma mentalidade completamente diferente do normal.

Quem deve levar: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

Ficou de fora: Colin Farrell (The Lobster)

Quem deveria levar: Colin Farrell (The Lobster)

 

Melhor Ator Coadjuvante

Quem deve levar: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

Ficou de fora: John Goodman (Rua Cloverfield 10) e Aaron Johnson (Animais Noturnos)

Quem deveria levar: John Goodman (Rua Cloverfield 10)

 

Melhor Atriz Coadjuvante

Duas atrizes se sobressaíram frente as outras, Viola Davis e Michelle Williams. Pelo tempo de tela ser tão curto, embora tão impactante, Michelle Williams deve acabar não levando, mas está merecendo faz um bom tempo.

Quem deve levar: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

 

Melhor Roteiro Original

 Uma das categorias mais difíceis de se prever esse ano. No Globo de Ouro, La La Land acabou levando, mas embora ache um filme muito bem produzido, tecnicamente espetacular, seu roteiro não é o que fez desse filme o mais novo queridinho de Hollywood.

Quem deve levar: Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações ou, bem melhor, Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)

Quem deveria levar: Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou (The Lobster) – por cumprir a proposta de ser original e não ter medo de ousar em um filme que te faz pensar, rir e chorar na mesma cena.

 

Melhor Roteiro Adaptado

Quem deve levar: Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

Quem deveria levar: Eric Heisserer (A Chegada)

 

Melhor  Animação

Zootopia é uma metáfora em forma de animação. Conseguiu debater tantos temas tristes do mundo dos adultos sem perder a inocência de um filme infantil.

Quem deve levar: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

 

Melhor Documentário em Curta-Metragem

Sinceridade 1: Só assisti Os Capacetes Brancos por estar na Netflix. Os outros faço a menor ideia de como achar para assistir.

Quem deve levar: Não sei opinar. Vamos chutar Os Capacetes Brancos, vai que a gente acerta.

 

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Sinceridade 2: Só consegui assistir 13ª Emenda e Fogo no Mar, por isso a avaliação foi feita com base em outras premiações.

Quem deve levar: O.J.: Made in America

Melhor Longa Estrangeiro

O que falar desses gringos que sabem fazer filme melhor que muitos americanos. Todos merecem ser assistidos.

Quem deve levar: Toni Erdmann (Alemanha) ou O Apartamento (Irã) – qualquer um que ganhar está de bom tamanho. Minha torcida vai para o filme alemão.

Ficou de fora: Aquarius (Brasil) e A Criada (Coreia do Sul)

 

Melhor Curta-Metragem

Sinceridade 3: Não sei opinar. Não consegui achar nenhum para assistir e todo ano é mesma coisa, infelizmente.

 

Melhor Curta em Animação

Quem deve levar: Piper

Quem deveria levar: Borrowed Time – uma história emocionante obrigatória para todos assistirem. Um curta que resolveram fazer em animação.

 

Melhor Canção Original

Não preciso falar nada, próximo.

Quem deve levar: “City of Stars” | Música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul (La La Land: Cantando Estações) – traduz todo o filme e mesmo Hollywood, de jovens em busca do sonho de se tornarem estrelas.

 

Melhor Fotografia

Fotografia, a 8ª arte. Um dos aspectos fundamentais dos filmes, principalmente de filmes independentes, que, muitas vezes, preferem passar uma ideia, uma emoção apenas com imagens. E esse ano tivemos diversos exemplos da fotografia como forma de passar uma mensagem. Seja com La La Land tentando dar ideia de um sonho, sempre muito colorido e irreal, seja com Moonlight com uma fotografia crua, cores frias, trazendo essa melancolia, ou até mesmo com o cinza característico d’A Chegada dando ideia de medo e desconhecido.

Quem deve levar: Linus Sandgren (La La Land: Cantando Estações)

 

Melhor Figurino

Não é muito o meu forte avaliar essa categoria ou a próxima. Em figurino, geralmente filmes de época ou com figurinos muito diferentes do usual costumam levar o douradinho. Seguindo essa lógica, acredito que o novo filme do Harry Potter leve esse prêmio. Todavia, senti falta do figurino de ‘Amor & Amizade’. Uma pena que esse filme tenha sido totalmente esquecido pelos grandes prêmios.

Quem deve levar: Colleen Atwood (Animais Fantásticos e Onde Habitam)

Ficou de fora: Eimer Ni Mhaoldomhnaigh (Amor & Amizade)

Quem deveria levar: Eimer Ni Mhaoldomhnaigh (Amor & Amizade)

 

Melhor Maquiagem e Cabelo

Quem deve levar: Joel Harlow e Richard Alonzo (Star Trek: Sem Fronteiras)

 

Melhor Mixagem de Som

Nas categorias de som, temos dois grandes concorrentes: um musical e um filme de guerra. É claro que um dos dois deve levar o prêmio. Agora, quem? Je ne sais pas. Os dois são grandes merecedores, mas minha torcida vai para ‘Até o Último Homem’ nessas duas categorias.

Quem deve levar: Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow – La La Land: Cantando Estações ou Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mckenzie e Peter Grace (Até o Último Homem)

 

Melhor Edição de Som

Quem deve levar: Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan (La La Land: Cantando Estações) ou Robert Mackenzie e Andy Wright (Até o Último Homem)

 

Melhores Efeitos Visuais

No momento em que assisti Mogli, antes da metade do ano, já falava em Oscar para esse filme. O que fizeram com ele é algo de bater palmas, trazer uma animação para o live action com apenas um garotinho e o resto todo em CGI e me fazer sentir ali naquela floresta… Parabéns! O extraordinário é demais!

Quem deve levar: Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon (Mogli: O Menino Lobo)

 

Melhor Design de Produção

Todo bom musical requer uma excelente produção artística e é justamente isso que La La Land traz.

P.S.: ‘Ave, César!’ também merece uma menção honrosa

Quem deve levar: David Wasco (design de produção) e Sandy Reynolds-Wasco (decoração de set) (La La Land: Cantando Estações)

 

Melhor Edição

Edição, a arte de dar ritmo ao filme. 2016 foi um ano em que tivemos excelentes exemplos de boas edições, como em A Chegada, onde a edição era fundamental, tinha uma total conexão com a história no que tange a ideia da história cíclica e por isso deveria receber o homenzinho nu coberto em purpurina desse ano.

Quem deve levar: Joe Walker (A Chegada)

Quem deveria levar: Joe Walker (A Chegada)

 

Melhor Trilha Sonora

Preciso falar alguma coisa?

Quem deve levar: Justin Hurwitz (La La Land: Cantando Estações)

Ficou de fora: Jóhann Jóhannsson, Max Richter (A Chegada) – A excelente trilha transcendental de A Chegada acabou ficando de fora infelizmente. Vale a pena pegar esse filme pra assistir em casa com um bom home theater, porque é o que essa trilha merece, junto, é claro com a edição de som, trazendo sons de outro mundo.

 

Foram Heróis, Verdadeiros Heróis

Trilha Sonora: https://www.youtube.com/watch?v=uwGO9hqmP3o

“A guerra, a princípio, é a esperança de que a gente vai se dar bem; em seguida, é a expectativa de que o outro vai se ferrar; depois, a satisfação de ver que o outro não se deu bem; e finalmente, a surpresa de ver que todo mundo se ferrou.” – Karl Kraus

Tiros, explosões, mortes, resgates, valentia, vitória, patriotismo. GUERRAS. Como pode haver heróis em meio a barbáries?! Como podemos distinguir pessoas que devem viver e pessoas que devem morrer só pelo fato de terem outra religião, morar em um outro país, ter uma opinião diferente? Essa não é minha batalha, essa não é sua batalha, nem a dos soldados. Como Charles Chaplin deixou claro em seu comovente discurso ao final do filme O Grande Ditador:  “Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos! […] Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!”.

Chaplin convoca, entre tantos outros pontos levantados por ele, os soldados a serem muito mais do que máquinas de guerras que apenas tiram vidas de outras pessoas e viram meras estatísticas ao final de uma guerra que eles não começaram e ninguém nunca vai terminar.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Até o Último Homem é aquele filme de praxe concorrente ao Oscar que trata de uma história que precisava ser conhecida por todos. O filme conta a história real de Desmond T. Doss, que, durante uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra, resolveu, simplesmente, salvar vidas. Sem atirar uma vez se quer com um rifle, sem tirar uma só vida, mas salvando dezenas de soldados, sejam americanos ou japoneses, salvando vidas (ponto).

Mel Gibson te leva em uma viagem por uma história inspiradora e motivadora. Uma história que nos deixa no chão como humanos egoístas. Mas também em uma viagem visceral por uma batalha sangrenta e desesperadora. Ele consegue nos colocar no lugar daqueles soldados jovens e que veem uma batalha pela primeira vez. Somos pegos de surpresa, estamos perdidos como eles em meio a balas, explosões e corpos. Mel Gibson aprendeu bastante com todos acertos e erros de Randall Wallace em Fomos Heróis, proporcionando uma direção incrível e auxiliada por uma atuação impecável de Andrew Garfield, mostrando o lado humano dessa história que merecia ser contada a altura.

Os Capacetes Brancos

Falando em Oscar e história de verdadeiros heróis, precisamos falar também do candidato a Melhor Documentário de Curta-Metragem da Netflix, Os Capacetes Brancos. O documentário traz a história dos civis da síria que se voluntariam para fazer os resgates das vítimas dos bombardeios frequentes no país. O curta a todo momento mostra que embora sem especializações, equipamentos adequados, eles estão ali para ajudar. Eles podem não ter superforça, velocidade, armadura, mas a força de vontade deles, muitas vezes doando suas vidas para salvar outras, isso os torna verdadeiros heróis. E tudo isso em meio ao caos e seus próprios familiares morrendo. Tudo ratificado por uma das cenas mais marcantes do documentário, quando um dos socorristas recebe a notícia que uma das vítimas não é o filho dele e ele, mesmo assim, indaga com tristeza em seu olhar: “O que diferencia a vida do meu filho de outra pessoa?!”.

“Salvar uma vida é salvar toda humanidade” – Lema d’Os Capacetes Brancos

As guerras não começaram nem hoje, nem ontem, assim como também não é de hoje o preconceito o valorização do ‘eu’ frente ao conjunto e nem vai terminar tão cedo, mas como o soldado Doss nos ensinou, “só mais um homem”, uma pequena ação de cada vez.

“Nós vencemos metade da batalha quando mudamos nossas mentes e aceitamos o mundo como o encontramos, inclusive os seus espinhos.” – Orison Swett Marden

2016 também, foi um ano agradabilíssimo em termos de cinema “estrangeiro”. Começando na Itália, passando por Espanha, Chile, Alemanha… Viagem simplificada pela magia do cinema.

ITÁLIA

A Itália conseguiu trazer dois grandes filmes, sendo um deles ganhador de vários prêmios ao longo do ano e candidatíssimo ao Oscar, Fuocoammare (Fogo no Mar). Documentário totalmente diferente do que você provavelmente está acostumado. Nesse, esqueça jornalistas, depoimentos,  informações na tela, você vai sentar e assistir a um filme real. O filme italiano tem como maior objetivo contrapor os pequenos problemas de uma pequena cidade pacata italiana com as dificuldades inimagináveis passadas pelos refugiados em busca de uma vida melhor.

Referência ao filme Thelma e Louise

Outro grande filme italiano deixado de lado pelos grandes distribuidores, foi Pazza Gioia (Loucas de Alegria) que conta uma história, no mínimo louca, de duas mulheres internadas em uma casa de repouso. O filme é sutil na crítica a situação de pessoas com problemas psicológicos são submetidas sem ser piegas e é equilibrado na dramédia, ou seja, hilário quando tem que ser e emocionante quando precisa contar a história. O filme é sensível e respeitoso em um assunto tão melindroso e ainda conta com atuações espantosas das atrizes principais.

ESPANHA

Almodóvar nos presenteou com Julieta no ano que passou, mas isso você provavelmente já sabia. Um filme intenso seja nas cores, nas emoções, sem deixar de ser real. Resumindo, uma novelona digna de Almodóvar e que eu não tenho vergonha alguma de ter assistido e amado.

ALEMANHA

Ainda na Europa, mais especificamente na Alemanha saiu o aclamado Toni Erdmann apresentado a nós brasileiros por meio do Festival do Rio. Enquanto os latinos são conhecidos por serem emotivos e expressivos e repassarem isso em seus filmes, o que pudemos comprovar, os alemães são conhecidos por serem mais frios ou pelo menos mais retraídos ao demonstrarem os sentimentos. E esse filme é um excelente reflexo disso. O filme questiona não só os alemães, mas a sociedade como um todo sempre tão preocupada com dinheiro, trabalho,  dinheiro,  contas, dinheiro e acabam se esquecendo de olhar para o lado, amar a si próprio, amar a família, viver. Um filme que te convida a se despir desse mundo alucinado em que vivemos, despir das preocupações por pelo menos um instante e amar.

CHILE

 

Ainda nessa viagem de sentimentos, conseguimos pegar uma carona na motocicleta de Gael Garcia Bernal para visitar o amante chileno, Neruda. Filme do mais novo competente diretor Pablo Larraín, que dirigiu El Club e Jackie, e que não se propõe a contar a bibliografia de Neruda, não se propõe a contar os poemas de Neruda, mas sim se propõe a nos convidar a viver os poemas dele, a sentir seus versos, sentir sua dor, sentir seus amores, suas angústias, suas alegrias, nos convida a viajar com Neruda, ser um personagem de suas histórias, ser um com ele. Viaje com ele nesse belíssimo e poético filme.

P.S.1: É claro que essa não é uma lista de melhores filmes do ano, porque muitos filmes ficaram de fora. Essa é simplesmente uma lista de filmes que não receberam a devida atenção que mereciam no ano que passou.

P.S.2: Eventuais esquecimentos de filmes nessa lista podem ter ocorrido.

“[…] I’m beginning to see the light […]”

-Música de Ella Fitzgerald

Uma mulher que te ama a seu lado, filhos saudáveis sorrindo e brincando, um irmão para todas as horas e um sobrinho adorável. Uma família perfeita. Uma vida perfeita. Um sonho. Você acorda, se espreguiça, boceja, olha para o lado e vê um vazio, sente um vazio. Nada daquilo era real. Você entra em desespero, aquilo só pode ser um pesadelo, você tenta acordar para escapar, mas não tem como apagar o que aconteceu, não tem como fugir da realidade.

Casey Affleck

Manchester by the Sea (uma pequena cidade de Massachusetts e também nome desse filme) conta a história de Lee Chandler (Casey Affleck) que acabou de perder seu irmão e se vê obrigado a mudar sua vida e enfrentar os demônios do passado, que ainda o atormentam e vivem naquela cidade, para cuidar de seu sobrinho órfão. Tudo naquela cidade o faz lembrar de seu passado, que ele faz de tudo para deixar enterrado, embora não consiga. Ele ainda está preso a tudo o que aconteceu com ele e por isso não consegue seguir em frente.

O cinema que nasceu como uma forma de fuga da realidade, mostrando fantasias que o homem jamais alcançaria, foi se adaptando ao longo do tempo e funcionando muitas vezes como uma fuga dos sonhos, ou seja, filmes que mostram a realidade crua, fria e relacionamentos mais conturbados e reais do que a própria vida, na qual muitas vezes fechamos os olhos e fingimos não ver. Tudo isso desde clássicos como E o Vento Levou, mostrando que o amor nem sempre é lindo e perfeito para todo sempre, até os atuais filmes depressivos de Charlie Kauffman e sem esquecer de Woody Allen, Richard Linklater, Kelly Reichardt, entre muitos outros. Manchester by the Sea é mais um exemplo belíssimo dessa fuga dos sonhos que o cinema pode ser.

O filme de Kenneth Lonergan consegue transmitir essa realidade em todos os sentidos, desde o drama sem toda aquela carga pesada, mas ainda capaz de emocionar até os mais durões em conjunto com uma trilha sonora sutil e uma fotografia mais acinzentada e depressiva graças ao clima da Nova Inglaterra. Além de trazer conflitos plausíveis e um humor totalmente cotidiano e encantador. Porém, o maior mérito do filme e do diretor/roteirista se dá por conta das pessoas e suas relações.

Poster do filme com a cena mais emblemática

Um casting louvável, exaltando o melhor de cada um, trazendo toda a carga emocional que Casey Affleck é capaz e que não conseguíamos ver em outros papéis; o jovem Lucas Hedges iniciando sua carreira com o pé direito e com tanto tempo de tela, conseguiu uma química lindíssima com Casey; e para fechar a incrível Michelle Williams, que mesmo com tão pouco tempo de tela, mas com um roteiro bem escrito e uma direção impecável, conseguiu passar para o público toda a profundidade de sua personagem e de seu relacionamento tão complexo com o personagem de Casey Affleck. Propiciando, por exemplo, uma das cenas mais dramáticas e memoráveis do cinema dos últimos anos.

Às vezes, quando não conseguimos acordar de um pesadelo, é porque ele é real e quando finalmente nos damos conta disso, fica mais fácil se levantar e seguir em frente. Manchester by the Sea nos ensina acordar para vida e não fugir dela.

Crítica | La La Land

Playlist: https://open.spotify.com/user/1121960258/playlist/5jktEuEOhXva2u3Gr16oxV

Esse lugar é conhecido pela língua inglesa de La la Land, ou por mim, de aposentadoria antes dos 40. La la Land, o filme, trata justamente disso, dois serelepes jovens artistas que buscam alcançar seus sonhos em Hollywood (city of stars), assim como milhares de outras pessoas. A jornada pode ser longa, difícil e cruel, mas parafraseando Alcione, “Não deixe o sonho morrer, não deixe o sonho acabar, Hollywood foi feita de sonho, sonho para gente sonhar”.

Acompanhamos o desenrolar desses sonhos em fases, ou mais precisamente, estações conforme o subtítulo. A primavera, o desabrochar do sonho. Tudo é tão belo, planos mil e a vontade também. No verão, damos os primeiros passos para fora do ninho, encaramos a vida de frente, crescemos, somos independentes e acreditamos ser fortes o suficiente para alcançar nossos sonhos. No outono, as primeiras folhas começam a cair, assim como os problemas começam a surgir, o desânimo bate à porta e a vontade de desistir é grande ao ver o inverno chegar. E ele chega. O que você faz? Se entrega ao frio que castiga ou enfrenta e vê que logo na esquina está a primavera com suas flores belas para recompensar seu esforço?

O filme vai te preparando, como os clássicos musicais e os filmes antigos em geral, para uma história de amor fofinha, cuti cuti, do casal perfeito, o casal que adora se odiar e acabam juntos no final (à la Aconteceu Naquela Noite com Clark Gable) com uma trilha sonora envolvente e alegre combinando com o clima do filme e, claro, o clima da estação. Tudo é perfeito e colorido, estamos no mundo de Encantada. Até o momento que você leva um soco no estômago, realidade na cara, segura essa, porque a vida não é bonitinha assim. E você, que ao longo do filme já vinha dando a alcunha para o filme como o musical de Woody Allen, pelo jazz, o humor do ryan gosling caricato, emma stone como uma personagem feminina de personalidade forte e como um contraponto de opiniões ao personagem masculino, mas agora passa a ter certeza, percebe que a relação amorosa complicada, real e triste de seus filmes também está presente. Umas gotas salgadas saem dos seus olhos.

Nas estações certas, o filme te faz cantar, rir, sapatear, dançar, lembrar dos filmes da Disney, dos clássicos dos anos 30/40/50, mas nas outras estações, também te faz perceber que nem sempre vamos conseguir conquistar tudo aquilo que sonhamos. Essa é a vida. Só nos basta sorrir, aproveitar cada primavera, porque “the winter is coming”.

Tecnicamente, o filme é lindo e um páreo duro para o coreano A Criada nas categorias técnicas, com belas cores, uma excelente edição, som agradável, todas músicas combinando como roupas de gêmeos, produção de arte caprichosa e toda em tom nostálgico com referências à época de ouro do cinema. Artisticamente, tocante, com atuação soberba de Emma Stone e o humor na medida de Ryan Gosling, que já tínhamos visto outras vezes como em Os caras legais. Uma direção, por parte de Damien Chazelle (Whiplash), que conseguiu amarrar todas essas ideias e fazê-las funcionarem e um roteiro que conseguiu unir o clássico, nostálgico, divertido e belo com a dura e fria realidade. Esse é La la Land, o filme que honra seu nome e nos faz olhar para além da tela de cinema como se fosse uma janela e pensar em todos aqueles sonhos que acabamos deixando de lado nos outonos passados.

 

O ano de 2016 enfim acabou. Muitas coisas ruins aconteceram, muitas pessoas morreram, mas também muitos filmes estrearam. Claro que os blockbusters você já sabe quais foram, mas e aqueles patinhos feios, excluídos… Não tema, porque com o Oitavo Anão, defensor dos filmes indies e oprimidos, não há problema. Minha função hoje é fazer aquela retrospectiva de praxe lhes apresentando alguns filmes que você provavelmente perdeu e eu não me posso deixar que esse ultraje ocorra, outros, são só filmes que merecem aquela mençãozinha leve do tipo “Ah, teve esse filme aqui também, só como questão informativa mesmo”.

Novíssimo Testamento

Muita coisa pode ser dita desse ano que passou, mas filme bom não faltou, pode não ter passado no cinema perto da sua casa, na sua cidade ou no Brasil, mas que teve filme bom, isso teve. O ano então começou com o pé direito e O Novíssimo Testamento nos cinemas, filme belga que acabou concorrendo ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
O filme conta a história de uma garotinha, filha de Deus, resolve fugir de casa após divulgar a data da morte de todas pessoas do mundo e escrever um novíssimo testamento. Uma fábula lindíssima, delicada, angelical que acaba convidando o público a levantar da cadeira e lutar por seus sonhos. Uma bela mensagem de início de ano.

Mais Forte Que Bombas

2016 foi o ano também que tivemos Isabelle Hupert até dizer chega, 4 filmes que eu consegui contar. Tivemos desde o super elogiado e premiado Elle de Paul Verhoeven até os menores independentes, mas não piores por isso, Louder than Bombs e O que está por vir. O primeiro que passou despercebido mesmo com ela no elenco junto com Gabriel Byrne e Jesse Eisenberg, mas que deixou sua marca no jovem ano de 2016. O filme com a temática clássica dos filmes independentes acompanha um jovem tentando viver após a morte de sua mãe. Digo temática clássica, porque os filmes independentes acabam sempre frisando na ideia dos sentimentos, emoções muito mais do que as falas ou grandes acontecimentos como é o caso desse filme e de outro filme de 2016 também, Ponto Zero.

Ponto Zero

Ano esse, em que muito se falou de Aquarius, mas Ponto Zero outro filme que merece ser visto por seus conterrâneos brasileiros. Ele também acompanha a vida de um garoto excluído da sociedade tentando fugir da sua vida que nada o agrada. O filme conta com uma excelente direção e técnicas de fotografia bem interessantes e engenhosas na hora de passar uma ideia sem precisar falar muito.

A Qualquer Custo

Hell or High Water, um dos filmes indie com maior arrecadação do ano que passou, trouxe uma história de faroeste moderno para os cinemas. Se você é fã de filmes como Onde os Fracos não tem Vez, Sicario, esse é o filme para você. História simples de um policial já velho (Jeff Bridges) que se recusa a se aposentar e 2 irmãos que “não estão ali pra roubar seu dinheiro, só o banco”. Você já ouviu isso antes, certo?! Então porque devo assistir?! Porque ele é um filme independente em sua essência, ou seja traz um respiro nessa indústria cada vez mais saturada e trazendo filmes de fórmula pronta. Hell or High Water consegue isso com atuações que se destacam, fotografia diferente do comum e ótima trilha sonora.

Eu não Sou um Serial Killer

Falando em filmes que trazem ideias novas, preciso falar de Eu não sou um Serial Killer. O filme está longe de ser um grande ganhador de prêmios, mas é um filme que traz os anos 80 em sua essência, seja na fotografia, no absurdo ou na temática. Por isso deixo essa dica aos nostálgicos, oitentistas ou órfãos de Stranger Things. O filme tem um plus a mais também por trazer no elenco Christopher Loyd e Max Records, o garoto de Onde Vivem os Monstros no papel principal.

Certas Mulheres

Quando falamos de filmes independentes, vamos muito além do fato de ter recebido investimentos ou não. Ser independente está no estilo, está no cerne, assim como quando falamos em indie rock por exemplo. Ser independente é ser subversivo, diferente, inovador, porém esses filmes acabam recorrendo quase sempre a um pequeno grupo de temas (não que isso seja ruim), como o faroeste moderno, a liberdade (carpe diem) e a vida como ela é. Certas Mulheres, outro filme que passou no festival do rio, é um daqueles que se encaixam nessa última categoria e que também se encaixam num espacinho abaixo do meu mamilo esquerdo, chamado coração. Poucos em Hollywood conseguem fazer a humanidade tão presente em uma tela de cinema quanto Richard Linklater e Kelly Reichardt (diretora desse filme). O filme conta a história de 3 mulheres em suas imperfeições, em suas realidades. Além disso, assim como Scorsese tem seu trunfo na manga seja com Harvey Keittel, depois Robert de Niro e agora Leonardo DiCaprio, Kelly (minha bff) tem como trunfo ninguém mais ninguém menos que Michelle Williams, uma das melhores atrizes da atualidade. Assim fica difícil competir também Kelly.

Um Cadáver Para Sobreviver

Swiss Army Man, também conhecido como Canivete Humano, foi uma grata surpresa do ano que passou. Um filme à la road movie e apesar da aparência de um filme bizarro, trash, toca em temas como auto conhecimento e aceitação. O filme que conta com as atuações absurdas de Daniel Radcliffe e Paul Brilhante Dano. Canivete Humano traz uma trilha sonora mágica e um argumento sobre se aceitar, se valorizar, colocar sua opinião na frente da opinião dos outros. Lembrando um pouco o incrível filme Her, no que diz respeito a solidão, mas com uma pegada mais nonsense.

Natal – Um Dia de Louco

“Então é Natal/A festa cristã/O ano termina/E começa outra vez…” Feliz Natal humanos e humanas queridas desse Brasil. Que época feliz, não?! Casas enfeitadas, comidas gostosas, filmes natalinos na tv (talvez no computador, porque n tv aberta só passa filme de Natal no dia 24 depois das 22 horas), Simone nas Lojas Americanas e, passas e frutas cristalizadas em tudo que é comida (talvez não seja uma época tão feliz assim, não é verdade?!).

O Natal é dividido em 3 fases. A primeira é a da infância, quando as pessoas acreditam no bom velhinho. A fase mágica, as crianças contam no calendário cada dia até o dia 24 chegar. A segunda, a adolescência, na qual os pais fazem seus filhos pararem de acreditar porque os presentes ficam cada vez mais caros. Uma das piores fases da vida. Momento traumático pra criança. As crianças passam a procurar os presentes escondidos pela casa, os presentes vão ficando cada vez mais escassos, até você não achar mais nenhum presente e ter outro momento traumático que é passar o Natal sem um presentinho sequer. A terceira e última fase, o resto da vida. As pessoas estão mais velhas, têm seu próprio dinheiro e, geralmente, fazem um amigo oculto. Aquela fase que as pessoas deixam pra comprar de última hora, não sabem o que comprar e quando finalmente descobrem o que precisam comprar, adivinha, está esgotado (vide Um Herói de Brinquedo).

Então, pra vocês aproveitarem bem esse Natal independente em qualquer fase que você se encontre, resolvi dar uma dica fora do comum.

Mixed Nuts (Um Dia de Louco)

Um filme que provavelmente não deve estar na lista de filmes de Natal da maioria das pessoas, mas vale e muito a indicação (talvez esteja exagerando um pouco pelo clima do natal). Filme underrated, ou seja, recebeu 7% no Rotten Tomatoes (o que não quer dizer muita coisa), e que conta com atuações brilhantes de Adam Sandler em início de carreira, Steve Martin, a inigualável Juliette Lewis e o formidável Liev Shreiber no papel de um dos melhores travestis do cinema.

O filme baseado no filme francês Le Père Noël est une ordure, mostra um escritório onde as pessoas que querem se suicidar ligam para poderem receber uma palavra de conforto, porém conta com muitas dívidas e seu fechamento é quase eminente. As histórias dos personagens vão se conectando e uma tragédia atrás da outra. O filme é muito interessante para os fãs do bom e velho humor-negro, uma boa pedida se você quer fugir daquela temática mais infantil, mas ainda assim quer ver um filme de Natal. Vale a pena conferir.

Natal vai muito além dos presentes, do Papai Noel, árvore de Natal… Natal é tempo de se passar com as pessoas queridas, é tempo de magia, felicidade, mostrar que os humanos podem sim conviver em sociedade, tempo de superar as dificuldades e ver o lado bom da vida. Talvez esteja espremendo mais desse filme do que ele realmente é, mas como já disse, esse é o espírito natalino.

Essa é a mensagem desse Natal, procure ver o lado bom dos filmes (mesmo aqueles filme bem ruins, tente encontrar uma mensagem), assim como a vida. Se o filme é mesmo muito ruim, talvez mude os atores, o diretor talvez esteja levando o filme para o lado errado, reescreva o roteiro e seja feliz. Linda metáfora.

P.S.: O título em inglês é perfeito!

O Último ato de Birdman

Muito se falou do grande ganhador do Oscar de 2015, BIRDMAN, mas do que ele trata, qual seu diferencial? Isso que espero passar um pouquinho pra vocês, ou não. E aproveitando essa temática já bastante batida, porquê não falar também sobre O ÚLTIMO ATO, filme com o mesmo tema de BIRDMAN. Então, vale a pena dar uma lida nesse post e tentar entender o que cada um tem de igual, diferente, o que fez de um ganhar Oscar e o outro não. Isso tudo, claro, sem spoilers, e com a opinião de ninguém mais ninguém menos do que OITAVO ANÃO (então, é claro que vale a pena conferir).

BIRDMAN

Uma metalinguagem cinematográfica. O filme que atraiu a atenção do público desde o momento de divulgação, afinal tratava-se de um filme quase que bibliográfico da vida de Michael Keaton. Porém, o filme é muito mais do que isso, é uma obra de arte. Birdman traz nomes de peso como o “eterno” Batman/Birdman, Emma Stone, Edward Norton, Zach Galifianakis (Alan de Se Beber não case) e consegue mais do que honrar esse elenco com uma história dramática, com toques cômicos e retratada com maestria.

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Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator veterano, decadente que carrega o peso de ter representado um personagem marcante nos cinemas, Birdman (qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência), seja para o bem ou para o mal. Ele acaba indo para o teatro e monta uma peça para que ele possa se reerguer. O filme mostra como ele vive ainda à sombra do Birdman e vive como se sua vida fosse uma peça de teatro, na qual ele é o personagem principal e precisa da aprovação de todos. – E pode-se perceber isso, ao notar que o filme “não possui cortes”, representando o teatro, onde o show não pode parar. – Ao longo da história ele tenta recuperar sua carreira, sua família e a si próprio, que vive atormentado pelo demônio, mais conhecido como Birdman.

Ao contrário dele, Edward Norton (Mike Shiner) vive um personagem que vê a peça de teatro como sua vida, ou seja, enquanto Riggan vê a vida como uma peça, Mike vê a peça como uma vida. Porém, ninguém realmente vive a própria vida. E isso é só mais um atrativo desse filme, que mostra essa evolução dos personagens, onde Riggan expulsa seus demônios, tira sua máscara de Birdman e recupera sua vida, torna-se livre, e Mike passa a viver de verdade ao invés de viver no palco.

É de tirar o fôlego, cenas imensas sem corte algum, uma história de drama, mas sem todo aquele peso e contado de uma forma artística, poética que nos faz filosofar um pouco durante o “espetáculo”. O roteiro, a direção, os atores, tudo se conecta de maneira harmônica passando a exata intenção do filme. Então, se você ainda não viu, vá ver Batman, digo, Birdman, não vai se arrepender, e por favor bata palmas no fim, afinal é o fim de um espetáculo.

 

THE HUMBLING (O Último Ato)

Filme lançado no final de 2014 / início de 2015, baseado na obra de  Philip RothTHE HUMBLING. Assim como em Birdman, nesse filme, o ator principal estava meio apagado no mundo cinematográfico, Al Pacino, porém, as semelhanças não param por aí. O tema: Ator decadente que tem dificuldade de entender o que é realidade e o que não é. Contudo, acho que não cabe comparar esse dois filmes (embora tenha mais filmes com esse tema e quando assisti os primeiros 8 minutos de The Humbling, eu podia ter certeza que era Birdman), porque esses filmes acabam abordando o mesmo tema de maneira bem distinta, tanto que um ganhou alguns Oscar e o outro passou bem longe disso, recebendo até críticas negativas por alguns (isso não quer dizer nada, não se levem pela crítica, se levem pela minha opinião, é melhor).

Enfim, vamos falar de Tecpix, digo, vamos falar sobre o filme. Antes de qualquer coisa, 2 palavras “Al Pacino“. Muita gente falava que ele já tava morto (para o mundo cinematográfico), mas esse filme foi um tapa na cara da sociedade com luva de pelica com uma atuação que a gente sentia falta. Por isso, se você é fã dele, ou pelo menos era, você tem a obrigação moral de parar agora (mas deixa a página do post aberto pra me ajudar, ou se quiser pode terminar de ler e ver mais outros posts, avisar seus amigos(as) sobre o site… pensando bem termine de ler, porque aí você já pega um pouquinho do clima do filme, e é melhor pra mim também XD, não vou negar) e ver esse filme.

Nele, como eu já falei, Al Paccino é um ator de teatro que com o passar do tempo não consegue mais diferenciar o real da ficção e acaba se internando em uma clínica. Depois de algum tempo ele volta para sua casa, mas continua suas consultas periódicas através da Internet com um psicólogo. Coisas novas e diferentes vão acontecendo em sua vida e ele vai relatando tudo. Entretanto, o que é real? Nem ele, nem o psicólogo, nem nós sabemos. E isso é o diferencial do filme e o faz atraente e interessante.

Porém, nem tudo são flores. A maioria dos atores não acompanham o nível de atuação do Al Paccino, o que tira alguns pontos do filme e ele perde um tanto da beleza que ele poderia ter. Além disso, algumas situações que acontecem ao longo do filme são meio forçadas e desnecessárias. Por exemplo, mostrar o Al Pacino falando sozinho acaba quebrando essa ideia do filme que é você ficar pensando se é real ou não, acaba quebrando a magia.

Resumindo, o filme, ao meu ver, é bem interessante e filosófico, com uma atuação que há muito tempo não se via do Al Pacino. O filme é bem dinâmico, a todo momento com um novo acontecimento e consequentemente um novo “mistério”, uma nova peça no quebra-cabeça que você vai tentando montar e a atuação dele é fundamental pra tudo isso funcionar. Embora, eu tenha falado que não cabe a comparação entre os dois filmes, sei que o ser humano gosta de comparar as coisas. Então, eu diria que Birdman é bem mais completo, com todos atores sensacionais, mais artístico e cheio de metáforas e por isso mais cabeça, não tão acessível a todos os públicos. Já The Humbling, é um filme mais dramático, com um elenco não tão forte, mas mesmo assim com Al Paccino, que se esforça em fazer as engrenagens do filme girarem perfeitamente. Ele não é tão redondinho, nem tão cabeça, mas um bom filme e que te leva com ele até o fim.

Sabe aquele filme que você é fã e não entende como não é tão conhecido assim pelas outras pessoas? COPLAND – CIDADE DOS TIRAS ou como gosto de chamar, COPLAND – O FILHO BASTARDO DE SCORSESE, é um belo exemplo. E não é por ser um filho bastardo que não merece nosso respeito também.

Robert Patrick attends the 12th Annual Screen Actors Guild Awards at the Shrine Auditorium. Los Angeles, January 29, 2006. (Pictured:Robert Patrick). Photo by Lionel Hahn/Abaca. [Photo via Newscom] krtabacaphotoslive070913_ABACA_A26999_018.JPG Newscom TagID: krtabacaphotoslive070913) [Photo via Newscom]
Robert Patrick (T1000) [Photo via Newscom]
Scorsese é conhecido por seus filmes sobre crimes, máfia, relatando a vida em NY e com um elenco de respeito. Por isso, COPLAND pode sim ser considerado filho bastardo do Scorsese, mesmo tendo sido escrito e dirigido por James Mangold (conhecido por Garota, Interrompida). Pra começar as comparações, o filme conta com um elenco bem “meia-boca” (acho que vão concordar comigo): Ray Liotta, Harvey Keitel, Robert De Niro, Sylvester Stallone, Robert Patrick, Michael Rapaport

Eu poderia já acabar de escrever aqui e você já estaria convencido a assistir esse filme. Na verdade, já poderia ter parado antes e vocês já estariam convencidos pela minha simples palavra, não é verdade?! Porém, o filme além de um elenco sensacional, também tem uma história que vai te atrair. Freddy (Stallone) é o xerife de Garrison, uma cidade de Nova Jersey habitada pelos policiais de Nova York, e descobre lentamente que a cidade é uma fachada para conexões com a máfia e corrupção. Freddy é um cara ingênuo, inocente ou apenas desiludido com a vida e por isso não esboça nenhuma reação em frente a corrupção que ele vê a todo momento em sua cidade, ou até mesmo apenas tem medo de ir contra aqueles que o colocaram na posição de xerife. Tornando-o assim altamente manipulável. Será que ele terá os colhões de um verdadeiro Sly e conseguir desmascarar todo esse esquema?

Trailer

Não vá esperando nenhum filme intenso todo momento à la BONS COMPANHEIROS ou OS INFILTRADOS, com violência visceral, mas um filme com um ritmo um pouco mais cadenciado focado muito mais no drama (sentido lato da palavra, ou seja, os conflitos emocionais e psicológicos dos personagens e toda a “política” que envolve a situação) do que na ação. Então, aqueles fãs dos filmes policiais do Corujão, fãs de filmes de máfia ou até mesmo fãs de atores bons e filme bom, fica a dica desse filme bem interessante e não tão divulgado quanto deveria.

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.” ― Cora Coralina

Trilha sonora recomendada para ler esse post:  https://www.youtube.com/watch?v=rVN1B-tUpgs

A vida é cheia de chegadas e partidas e muitas vezes não damos a devida importância aos eventos que ocorrem nesse intervalo de tempo.

Louise Banks, uma professora de linguística, é convocada pelo governo a coordenar uma equipe de especialistas para traduzir as comunicações de uma espécie alienígena, que chega à Terra. Seu objetivo principal é entender os reais objetivos da chegada daquela espécie desconhecida à Terra.

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Embora o trailer e até mesmo a sinopse do filme dê a entender que o filme parta mais para uma ficção científica comum, porém ainda interessante, o filme se propõe a ir muito além disso. Por isso, todos aqueles que poderiam estar, de certa forma, ressabiados quanto ao fato do diretor Denis Villeneuve (Incêndios, O Homem Duplicado, Prisioneiros…), conhecido por seus filmes mais dramáticos e de cunho filosófico, poderia fazer em um filme de ficção científica, podem ficar tranquilos.

Como o próprio diretor em entrevista afirmou, ele quis trazer uma ficção científica “suja”, mais pé no chão, realista, mas sem perder a essência de seus filmes: a fotografia marcante em seus filmes, trazendo um clima mais dramático; a excelência em atuações; a trilha sonora transcendental, grandioso, magnânimo na apresentação desses seres “superiores”; e claro, não poderia faltar uma bom e leve questionamento filosófico.

Trilha sonora: Max Richter (Ilha do Medo), Jóhann Jóhannsson  (Sicario, A Teoria de Tudo, Os Prisioneiros) – https://open.spotify.com/album/07dwFvc0yjd7N4K2SvxQUd

Em entrevista ao THR, Amy Adams afirma que o filme trata da relação dos humanos uns com os outros. Ela ainda continua, citando o diretor que ao falar sobre o filme com ela diz que o filme tem alienígenas, tem coisas de outro mundo, mas no fim é uma mãe contando sua história para sua filha. E isso é o que torna qualquer filme excelente, abordar assuntos mais filosóficos, emocionais, espirituais, entre outros, mas com uma roupagem diferente, atraente. Ou seja, aquela mulher ou homem que consegue ser bonito(a) e ainda ter conteúdo (o que nós todos almejamos encontrar).

Preciso dizer mais alguma coisa para fazer você levantar da frente desse seu dispositivo eletrônico e ir correndo comprar ingressos para esse filme?

ANÁLISE (Cuidado com os Spoilers)

Se você está nessa sessão, você é uma pessoa diferenciada. Não que quem tenha visto esse filme seja melhor do que as outras, mas é sim.

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‘A Chegada’ é um filme baseado no conto ‘Story of Your Life’ de Ted Chiang. Conto este, muito mais denso que o filme no que tange a ficção científica, por isso uma excelente indicação para fãs de Asimov, Star Trek… Todavia, o conto apresenta um tema bastante claro e bem definido, o embate entre o livre-arbítrio contra o conhecimento do futuro.  Os heptapodes, nome dado para se categorizar a espécie alienígena, apresentam uma noção física/matemática de se analisar o mundo diferente da dos humanos, o que é analisado de forma mais aprofundada no livro dando como exemplo o Teorema de Fermat. Em suma, Ted Chiang tenta mostrar que essa espécie alienígena ‘enxerga’ o tempo de maneira paralela, cíclica, onde é necessário conhecer o início e o fim antes de tomar uma decisão. Ideia essa, que também pode ser percebida quando a linguagem dos heptapodes é analisada. Ao contrário, nós humanos, vemos o tempo sequencialmente, numa abordagem sequencial, onde o AGORA é o único momento que conseguimos perceber.

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Ted Chiang

Louise ao entender essa visão de mundo e tempo, passando a perceber passado, presente e futuro, ou seja, ela consegue perceber o futuro. Todavia, conforme aprendemos com Ted Chiang em seu conto, é impossível ter noção do futuro e ainda ter livre-arbítrio ou vice-versa (o que ratificaria a ideia de livre-arbítrio em algumas religiões). Louise vê-se então diante de um impasse: como seguir em frente sabendo que sua filha morreria jovem e que seu marido a abandonaria?

Mas afinal, nós todos não sabemos da efemeridade da vida e que um dia morreremos e passaremos por maus momentos? Como dizia Cora Coralina, “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”. Assim como no filme belga O Novíssimo Testamento também, essas obras têm o intuito de nos fazer seguir em frente apesar das adversidades, aproveitar cada momento como único. ‘A Chegada’ mostra a história de uma mulher forte que apesar de saber de todas as dificuldades que passaria, aceitou seguir em frente, acreditando que cada pequeno momento de alegria lhe daria forças para enfrentar todos outros momentos de tristeza.

Além de todos esses aspectos presentes no filme adaptados do conto de Ted Chiang, o filme consegue também trazer elementos e questionamentos novos, tornando o filme tão complexo, intrigante e um fortíssimo concorrente a prêmios na categoria de roteiro adaptado. Entre um desses aspectos, está na preocupação com o mundo. A história convida a humanidade como um todo a pensar no futuro, pensar em nossas atitudes de hoje e o que elas vão acarretar no futuro do planeta e nos unirmos para que um mundo melhor seja possível.

Concluindo, vale também salientar uma comparação interessantíssima que podemos fazer entre esse filme com Sr. Ninguém, onde ambos são dois lados da mesma moeda. Moeda essa chamada livre-arbítrio. Enquanto A Chegada trata de uma situação em que um personagem se vê impedido de exercê-lo, sendo obrigado a enfrentar o destino reservado a ele; Sr. Ninguém, por outro lado trata da história de um personagem com a plenitude do livre-arbítrio em seu poder, onde cada pequena atitude o leva para um caminho diferente e ele se vê em uma constante escolha de Sofia.

Afinal, o que é mais fácil, fazer uma escolha que vai determinar o resto da sua vida ou saber seu futuro nada animador e aprender a conviver com isso? Deixe nos comentários também o que você mudaria se soubesse seu futuro.

BABEL: Filho de Saul

Sabe quando você dá uma dica de filme para uma pessoa, fala sobre a história do filme, ela fica toda interessada, mas quando você fala que é antigo ou de outro país que não fale inglês, ela já vira a cara e nem quer saber mais do filme?! Por isso começa agora a nova série de posts, BABEL, onde falo de filmes de outros países pra você sair dessa mesmice.

Que tal conhecer mais dos dramas latinos, o sentimentalismo francês, os filmes densos alemães e do leste europeu, os filmes-cabeça iranianos, os filmes perturbadores ou delicados asiáticos e muitos outros?! Para começar com o pé na porta, vamos falar de nada mais, nada menos que Filho de Saul (Saul fia), filme húngaro ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano, com todos os méritos.

Quando se fala em filme sobre a 2ª GM, chego até fazer careta, porque já fizeram tantos que acaba sendo mais do mesmo. Porém, por ser um cara que não deixa se levar pelas aparências (não é à toa que estamos nessa série), dei essa chance para Filho de Saul e não me arrependo nem um pouco. Um filme brilhante e que merece cada frame estar aqui por sair dessa mesmice.

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László Nemes, diretor de Filho de Saul

O filme conta a jornada de um pai húngaro, prisioneiro do exército alemão e que trabalha em um campo de concentração, em busca de um enterro digno para seu filho, encontrado por ele entre uma pilha de outros corpos que partiriam para fornalha. Não bastasse esse enredo pesado, o diretor e toda sua equipe, conseguem passar todo esse sentimento de encarceramento, desespero, sufocamento para o espectador e que te deixa mais incomodado que o ronco do senhor do seu lado (digo por experiência própria). O diretor consegue passar todo esse sentimento por ângulos das câmeras, muitas vezes posicionados rente às costas do personagem principal, além da ausência da trilha sonora e cenas pesadas psicologicamente sem cortes e em um silêncio sufocante que dura minutos, horas, meses… (não sei, muito tempo). Resumindo, um filme que te deixa no fundo do poço.

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Géza Röhrig, ator principal de Filho de Saul

Se pudéssemos comparar este com qualquer outro filme, não tem como não lembrarmos de outro filme estrangeiro, A Vida é Bela (La Vita è Bella). Os dois filmes funcionam quase como lados opostos da mesma moeda. Enquanto o filme italiano mostra um pai aprontando as maiores confusões para mostrar um lado colorido e fantasioso da guerra para seu filho, o filme húngaro mostra um pai enfrentando a realidade fria, escura e cruel da guerra para, pelo menos depois da morte, assegurar momentos de paz a seu filho.

Pensando bem, não sei se foi uma boa ideia dar como primeira dica um filme que vai te fazer sentir mal, mas agora já foi, não vou escrever outro agora que já estou no final. Enfim, um filme que sem dúvida vai entrar na sua lista de melhores/piores filmes de 2ª GM e que vai te surpreender por sair daqueles mesmos roteiros de sempre. Um drama em todos sentidos possíveis e que vai te deixar a todo momento perturbado, nervoso, preocupado, apreensivo, desconfortável e mesmo assim vai gostar (me joga na parede e me chama de lagartixa).

 

The Lobster acabou chamando a atenção da crítica e do público nos festivais do ano passado, inclusive aqui no Brasil, e esse mês, o filme chegou aos cinemas e ganhou a graça de todos.

A sensacional, inigualável, lindíssima, Rachel Weisz
A sensacional, inigualável,
lindíssima, Rachel Weisz

Em um futuro distópico, pessoas solteiras devem ser levadas para O Hotel, onde devem encontrar um parceiro dentro do tempo de 45 dias, caso contrário, são transformados em um animal de sua preferência. Depois que sua esposa o abandona por outro homem, David (Colin Farrell) chega ao hotel com seu irmão, que foi transformado em um cão, e afirma, que caso não encontre ninguém, que seu desejo seria ser transformado em uma lagosta. Ele tenta encontrar sua parceira ideal, mas percebe que ali não é seu lugar e, por isso, se junta ao grupo dos solitários que vivem livres. Lá, ele acaba encontrando uma mulher míope (Rachel Weisz) como ele e eles acabam tentando se conhecer melhor, mesmo sendo proibido no grupo dos solitários. Será que eles vão conseguir ficar juntos?

O diretor e roteirista Yorgos Lanthimos, que ficou “conhecido” por seu filme Dente Canino, acaba mostrando uma certa marca em seus filmes o que acaba agradando aos bons e velhos cinéfilos de plantão. Ele acaba mostrando em suas obras um grau elevado de irreverência, personagens caricatos sem emoção, uma fotografia meio apagada/desbotada, muito sadismo, uma boa dose de humor negro e muita crítica social. Não é à toa que o diretor grego ficou conhecido como Wes Anderson Black Edition.

– Por quem?

– Por mim.

– Ahhhhhh.

– Por que o desprezo?! Eu sou um crítico conceituadíssimo, segundo minha vovó.

Enfim, vamos ver se ele se encaixa mesmo nessa categoria. Se você não se lembra das regras dos filmes do Wes Anderson leia esse post aqui e depois volte (eu te espero, não tenho nada pra fazer mesmo).

Regra 5.1 – Cigarro: check

Regra 5.2 – Personagens sem expressão: check

Regra 5.3 –  Personagens excluídos: check

Regra 5.4 – Relacionamento impossível: check

Regra 5.5 – Relacionamento em crise: check

Regra 5.6 – Talento: double check. Não só do diretor, mas de todo elenco.

Pelo visto ele pode ser sim classificado como um seguidor de Wes Anderson.

Porém, o filme consegue ir além de tudo isso. Ele questiona a sociedade e os relacionamentos de uma maneira geral. O questionamento se aprofunda nessa quase obrigação moral imposta sobre nós de ser necessário de relacionar com alguém, procurar alguém que seja parecido, manter relacionamentos só por fachada e mostra também o quão difícil é manter um relacionamento.

Colin Farrell ou algo do tipo, não me importo
Colin Farrell ou algo do tipo,
não me importo

É possível notar que o filme encanta não apenas por esses questionamentos de padrões instituídos pela sociedade, mas pelo seu conjunto. O filme entrega atuações soberbas de personagens à la Wes Anderson, ou seja, personagens que não se encaixam numa sociedade “normal”, principalmente palmas pro casal principal Colin Farrell e Rachel Weisz, simplesmente sensacionais. Além disso, o diretor consegue passar todo esse peso e drama através da fotografia, atuações e trilha sonora monocromáticas e densas.

Resumindo, um filmaço que todo fã mais adulto do Wes Anderson deveria assistir, um diretor que todos devem ficar de olho e um filme que promete muitos prêmios importantes esse ano (pelo menos, eu vou ficar na torcida aqui).

Trailer

A Beleza no Caos

Trilha sonora recomendada para ler esse post: https://www.youtube.com/watch?v=QSJzTag9N4Q

O caos. Para alguns, uma bagunça; para outros, o belo, uma oportunidade de seguir em frente. Da escuridão, nasceu o universo; do lado negro, nasceu Luke Skywalker (que viu a luz em Darth Vader) e das trevas de Gotham, nasceu o Batman (que é um dos poucos que ainda vêem solução para Gotham).

You must have chaos within you to give birth to a dancing star.” ― Friedrich Nietzsche

Enfim, vamos falar dessa beleza, também conhecida como caos, em algumas de suas representações cinematográficas.

Donnie Darko e Graham Greene

Jake Gyllenhaal em Donnie Darko
Jake Gyllenhaal em Donnie Darko

É difícil de se falar em caos sem falar do clássico cult de Richard Kelly, Donnie Darko. O filme que aborda diversos temas, como universos paralelos, viagem no tempo, morte, também referencia direta e indiretamente a obra de Graham Greene (The Destructors). A ideia principal do livro é a de que destruição é uma forma de criação (https://www.youtube.com/watch?v=7hV8HrOqLuk). O que aconteceria se um pouco de caos fosse instaurado? Talvez as coisas se ajeitassem ao se reconstruir tudo do zero.

Ambas as obras falam sobre essa ideia de perturbar a ordem, a conjuntura atual e deixar o sistema achar uma solução por si só.

Demolition

‘Demolition’ Teaser Trailer from J.D. Funari on Vimeo.

Em Demolition, filme de Jean-Marc Vallée (C.R.A.Z.Y., Livre, Clube de Compras Dallas), podemos observar muito bem essa ideia. Davis (Jake Gyllenhaal) perde sua mulher e para poder seguir em frente, ele resolve demolir toda sua vida e começar do zero. Um bom comparativo seria quando estamos alegres e pimpões terminando de montar aquela nave, barco, o que quer que seja de LEGO. Tudo parece estar de boa, mas você se depara com uma peça sobrando. Você quebra a cabeça tentando achar onde que encaixa aquela peça e não acha de jeito nenhum. A partir daí você passa a conhecer o caráter das pessoas, uma vez que só existem dois tipos delas: as que escondem aquela peça, fingem que nada aconteceu e seguem em frente mesmo com uma peça faltando (eu não ligo); ou aquelas que têm paciência suficiente para destruir tudo e começar do zero.

O filme está longe de ser um dos melhores filmes do diretor canadense, justamente por faltar essa singularidade de seus filmes com histórias e personagens únicos e reais. Demolition apresenta uma ideia interessante, atuações marcantes (o que já era de se esperar) de Jake Gyllenhaal, Chris Cooper (Adaptação, Beleza Americana) e até mesmo do jovem Judah Lewis (que lembra um pouco Jodie Foster jovenzinha no início de carreira), mas abusa dos clichês e acaba não aprofundando em personagens e ideias propostas.

É claro que não se trata de um filme ruim, mas se tratando do mestre Jean-Marc Vallée, conhecido por seus filmes sentimentais, sensíveis, emocionantes, tocantes, reais (muita influência do cinema francês), perfeitos, sempre esperamos algo fora do comum. Porém, vale dar uma chance para Demolition, não só pelas atuações boas, mas também por apresentar essa ideia interessante.

Possibilia

Falando em loucura, caos, vamos falar de um curta recente e que se encaixa muito bem nesse tema, Possibilia, curta dirigido por Dan Kwan e Daniel Scheinert (Swiss Army Man). A história tem como base uma DR braba de um casal em crise. O curta analisa de forma única a questão das possibilidades e consequências dos atos, o que nos lembra da famosa teoria do caos (explicação em Jurassic Park: https://www.youtube.com/watch?v=n-mpifTiPV4) e efeito borboleta, na qual cada decisão, mesmo que pequena, gera uma consequência. Ele representa essa necessidade de analisar o passado para não errar no futuro, algo que aprendemos em história e devemos colocar em prática nos relacionamentos e na nossa vida em geral. Ou seja, fala sobre não desistir facilmente, tentar e tentar, analisar juntos o que está errado e tentar um caminho novo.

Porém, esse curta sensacional representa um marco no universo cinematográfico não apenas pelo seu conteúdo, mas também pela forma em que os Daniels transmitiram essa história de maneira ímpar, singular. Aproveitando-se dessa crescente no mercado de jogos de torná-los em filmes em que você toma as ações, esse curta usa basicamente essa técnica, onde a cada evento novo, novas possibilidades surgem e você decide qual tomar. O mais interessante é que além de ser interessantíssimo esse caminho concomitante entre jogos e cinema, é o fato dessa técnica não ser usada de maneira vã, mas totalmente inserida no contexto. Então, fica essa dicassa para você assistir o quanto antes e ficar de olho nesse diretores que vão dando toques de novidade na sétima arte mais uma vez.

Possibilia: https://helloeko.com/v/D3iXb9?autoplay=true