Autor: Letícia Nunes

em tudo é sobre pêssegos. Ok.. A cena é memorável sim, mas vamos dar um crédito decente ao conjunto desta bela obra. Obra de um simpaticíssimo ítalo diretor, Luca Guadagnino, e, de um senhor roteirista de igual simpatia, James Ivory. Originalmente escrito por Andre Aciman , Call Me By Your Name/Me Chame Pelo Seu Nome nos choca de forma lírica com dois temas de coragem: romance homoafetivo e o primeiro amor.

Esta adaptação carrega em seus cantos a beleza literal e a pureza sexual, percebidos na exaltação ao natural que Guadagnino explora muito bem. Assim como A Bigger Splash, e, Io Sono l’Amore, a Itália é: o visual, o local, o lírico, a excitação, e, a cultura.  

Among love and sex o filme cria um imaginário e o fixa na nossa mente. Sem exageros de fantasia, o que acontece é a perpetuação do clima nostálgico entre Elio e Oliver. O ambiente dos personagens se repete e repete , á medida que acompanhamos a trilha sonora, por exemplo. Numa certa entrevista Aciman disse que nostalgia é a melhor palavra a descrever algo não estabelecido, porém eterno. Carregamos a história deles como esse eterno, reforçado pelas belas e cultas referências no filme, e pelas expressões .

Sobre expressões (fotografias)

Primeiras impressões são ótimas. A naturalidade delas, o mesmo. Sabe-se que desde a chegada de Oliver, passa-se 1 dia até Elio se impressionar. A sinceridade e a estrela de Davi, na mesa do café; a ida ao barzinho, que nem Elio conhecia !; a discordância intelectual com seu pai.. Elio não deixa de observar estes detalhes, até o fastidioso “later”. E ao que Elio corresponde à tais impressões, temos os trejeitos. Contando com isto, fiz algumas capturas do filme que dizem muito.

  •  Elio passa pelo primeiro embaraço quando o ombro é tocado. Olha só.

“You should relax more.”

 “I am relaxing!”

  • Elio continua confuso quando no jantar Oliver não comparece, e solta a expressão de espanto ao ser removido o  prato. 

 

  • A estadia do estudante já é habitual, e os dois convivem bem. Oliver inquieto na piscina, brinca com Elio.

-Elio! What are you doing?//  -Reading my music.//  -No you’re not.//  -Thinking, then.// -What about? 

It’s private.

 

  • O exibicionismo de Elio no piano. Expressão: o começo de seu estado sagaz.

 

  • Oliver se deixa  cair na água, para surpresa de Elio. É um movimento enigmático,  a revelar a timidez, e este, a esconder contentamento.

 

  • Passa-se o dia, a dança, e Marzia.
    Elio com tom de zombação , meio se gabando (para Oliver é claro ) sobre a noite anterior, comenta com o pai  

Oliver:

Elio de maneira tão rápida, meio que não acredita na indiferença, também com tom de zombação de Oliver:

  • No mesmo dia, Elio já não se confunde. Seus olhos estão a deleitar-se o pescoço de Oliver 

  • Better to speak or to die

Elio sente necessidade de falar com Oliver. O comentário sobre a história do cavaleiro frente á princesa, que se questiona se é melhor falar ou morrer, expressa isso. E a face de Oliver deduz, ressente, algo

 

 

  • Os dois seguem para a cidade, à uma pequena praça ornada com uma memorável estátua. Falam sobre História. Elio, moço inteligente, pontua sobre. 

Une barque sur L’Ocean (Maurice Ravel) toca ao  fundo da cena. Elio diz saber nada. E, então, hesitante, irrompe : “se você soubesse o quão pouco eu sei sobre coisas que realmente importam…” Oliver, parado:por quê está me dizendo isto?” A melodia se intensifica, e enquanto contornam a estátua,  Elio deixa se soltar,  repetindo no  ar : “porque  eu queria que soubesse”.

  Porque não ninguém a quem eu fale isso, senão você”.

  • Depois da estátua… vê-se que Elio , por ser maduro em muitos pontos, após Oliver o repreender dizendo “nós não podemos falar sobre estas coisas” , reage da melhor forma montando na bike e seguindo a tour pela região e em tom amigável exclama “andiamo l’americano”. A partir deste momento, Elio é sagaz por demais em suas expressões. Quando na bicicleta, chegando a um pequeno riacho , Elio salta dela e com um “c’mon!” apresenta o lugar. “Este é o meu canto. É todo meu! Não tenho o número de quantos livros já li aqui.” Fica na cara que depois desse momento com tom de clichê (mostrar seu lugar favorito a alguém que goste),  Elio está seguro e dizendo  gostar de Oliver. 

 

  • Oliver some por umas horas.

Expressão: Elio fica a  vagar

 

  • Momento Futile Devices, de Sufjan Stevens . Expressão:Elio agachado, ainda a vagar.

 

  • Em seu quarto, Elio tenta escrever.

Expressão: corporal; impaciente, se movimenta e escreve, ao que se percebe no ritmo de Germination – Ryuichi Sakamoto.

  • A resposta de Oliver.

Expressão: Elio lê e cai na cama, pois está “débil de vontade 1”.

 

  • Débil de vontade 2

 

  • Muita coisa acontece.. E Elio está metade do filme débil de vontade

Enfim.. CMBYN é sobre expressões. E sobre Elio. E sobre o encanto que Timothée Chalamet causa.

 

 

 

 

 

Kevin Spacey (PERFIL)

Roteiro, direção, atuação. Ás vezes mútuos, ás vezes não. É claro que os dois primeiros falam alto, mas frequentemente o filme é mera filmagem se não houver uma atuação foda. A carreira cinematográfica de Kevin Spacey rompeu com as obras de mera filmagem. É quase instantâneo dizer uau! , bastando algumas cenas assistidas. Para os que o conheceram somente em House of Cards – mais recente e de maior fama – é muito válido: Frank Underwood é o personagem-mor que sucedeu e fundiu os anteriores. Verdade seja dita, é o papel que representa as carnificinas anteriores.

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Yes. The butchery. A carnificina, no português. É o que soa a sagacidade nos papéis de Kevin. É claro que este tipo de conduta se passa em um cenário fictício, onde é acrescentado empatia, elegância, originalidade. Nos chamando a adorar o personagem, e a sermos seus cúmplices.

Obviamente, falo aqui de um gênero sombrio mas que é positivamente favorável. É importante entender isto. O entretenimento estrelado por figuras como Spacey (maioria dos personagens), Bobby Axelrod (Billions), Amy (Garota Exemplar) e Marc Torneuil (O Capital), configuram grandes – boas – obras audiovisuais. O contato estabelecido do personagem com o telespectador é chamado, segundo entendedores, de quebra da quarta parede – termo do teatro. Referência memorável em House of Cards, já que o protagonista usa da casa de cartas, lugar de jogos de poder e de cinismo, para convencer quem o assiste. Aliás. Usa da conveniência para passar por cima de questões sociais e morais para chegar onde quer.

O ator Kevin fez isso muito bem com o ator Frank.

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Falando em teatro…

Vindo de New Jersey, Kevin Spacey Fowler (1959) passou por Califórnia e New York de peça em peça e de indicação a indicação. Há de ser curioso dois fatos enquanto esteve no teatro. Estudando na renomada Juilliard em 1979, foi chamado de preguiçoso por uma professora, a qual ele já percebia liberar duras críticas e não gostar dele. O fato é que sua ínfima ideologia sobre esforço o levou a pensar “ah então não é só seguir minha vida fingindo que trabalho?” A  instrutora, no esclarecer do bafafá, o iluminou reconhecendo ser o mais talentoso estudante, e por este pequeno detalhe, ela julgava sua lentidão e o pressionava a esforçar mais.

O outro fato, já nos anos 90 fazendo tv e filmes, foi na Broadway. O inesperado foi Kevin saber que Al Pacino e seu amigo diretor, James Foley, eram espectadores da peça. Foley, dias depois, o escalou para um papel secundário, porém o colocou ao lado de Pacino e Jack Lemmon – o mentor de Spacey. ”Ele me ensinou que ser uma boa pessoa e um bom ator não eram mutuamente exclusivos, e eu ainda considero Jack o meu exemplo”, disse Spacey. O Sucesso a Qualquer Preço, 1992, foi o seu primeiro papel significativo.

Al Pacino, aliás, já foi referência pra Spacey. Meados dos anos 80, bastou Scarface e The Godfather para interpretar  o criminoso Mel Profitt do seriado Wiseguy. Criminoso do tipo jocoso e mentalmente distorcido.

O que fez de Kevin um operante das sombras foi possivelmente o teatro, que tinha muito do caractere tirano ou maquiavélico em Shakespeare. Incrivelmente comparável com seus papéis. Assustadoramente atraente. Ele ainda continuou no teatro com a peça shakespeariana Richard III, em 2014. Sam Mendes (dirigiu Beleza Americana) inclusive, registrou os bastidores no documentário Now:In the Wings on a World Stage, onde é possível ver algumas das performances. Ao falar sobre a peça, Kevin relata que inicia uma performance independentemente de seu humor. Que não é iniciada no canto, devagar. Ele apenas vai. Richard III inspirou a série original – britânica – de House of Cards.

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Kevin Spacey in Richard III - saw it at BAM and it was awesome.

Outros personagens

Um depoimento criminal a base de narrações geniais. E Verbal Kint, sendo um gênio da falácia inteligente, aborda detalhes, nomes, fatos, devaneios. A postura retraída, introvertida, vira mero caracter por conta da personalidade ligeira e esperta.

 

 

 

 

E assim percorre todo o filme como um dos suspeitos mais astutos dentre cinco. O que te convence mais, um sujeito manco sinistro, ou este mesmo lançando aforismos sobre si? The devil himself. Sério. Kevin está tão original em Os Suspeitos (1995) na sua maneira engenhosa de atuar, que os próximos papéis a serem conquistados viriam adaptados para ele. Este papel, considerado como o que pavimentou o caminho para o sucesso de Spacey, rendeu Oscar de melhor ator coadjuvante.

Em 1997, funda a produtora Trigger Street. Com créditos em alguns filmes independentes e nos nomeados Capitão Phillips e A Rede Social. No mesmo ano, é dirigido por Clint Eastwood numa adaptação. Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal.

1999. Segundo Spacey a beautiful year. Revelou o pai de família do subúrbio em um ingênuo amante. A importância desse papel com Kevin foi a de libertar o protagonista, que no meio de uma crise típica de classe média rompe o marasmo e traz nuances de fantasia. É bem sensual, na verdade. Mas talvez diz mais sobre a morte interna. Aquele marasmo dos dias arrastados da vida americana e de tudo o que está por trás do bom e do tradicional, particularmente dos anos 90. Kevin realmente liberta Lester Burham. Atraído pela garota das pétalas, em benefício  de uma mudança radical. Ótima performance. Oscar de melhor ator.

A Corrente do Bem (2000), Chegadas e Partidas (2001) e A Vida de David Gale (2003). Títulos fora da imagem pretensiosa. São destaques para a atuação emocional de Kevin.

Política segundo KS

Antes de Frank Underwood tomar posse do streaming, KS interpretou Jack Abramoff em 2010. Com acesso ao Congresso Americano, este poderoso negociante caça os melhores alvos da política para barganhar e atrever-se a ter o que o lobby proporciona. O Super Lobista é a personalidade mais próxima de Underwood. Sarcástico. Só que fanfarrão. Ele conversa com a câmera. Ele pondera e eleva a voz para persuadir. Comete a carnificina.

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Curiosamente KS ainda explorou o entretenimento da série eletrônica Call of Duty. Um dos videogames mais avançados da atualidade. A voz e a fisionomia de K foram o resultado final no jogo, mas ele atuou de verdade. E segundo entrevistas que deu, afirma ter sido uma experiência diferente e que atraiu um novo público. Jonathan Irons é o personagem e possui o mesmo perfil de K em trabalhos sobre política. No Youtube está disponível todas as cenas que ele aparece, à frente da corporativa militar independente Atlas. É um outro mundo, realmente. A coisa mais legal que descobri, depois de Mads Mikkelsen – outro ator charmoso – também fazer, no jogo Death Stranding.

 

Você sabe que cinema é pra sempre. Você também sabe que Kevin Spacey, o ator, fez um bruto trabalho lá atrás que todos vão lembrar, independentemente das notícias. It’s done. KS construiu um perfil no cinema irresistível. Difícil não sermos cúmplices dos personagens enquanto o filme/obra está rolando.

 

CINEMA NOVO – intro

Tem-se na matéria da história do cinema nacional como consideração os anos 1960, o apogeu da era de produções cinematográficas novas e jovens, dotadas de uma estética simples, porém marcante. Chamado de Cinema Novo, o movimento encabeçado por Nelson Pereira dos Santos – em 1955 – se preocupava com a sociedade da época visionando uma proposta de mostrar o cotidiano das pessoas de forma simples e natural, sem as regalias possibilitadas pelo Capitalismo – ao contrário do que vinha estabelecido pelos filmes estrangeiros, os estadunidenses.

Foi em congressos nacionais sobre cinema, realizados em 1952 e 1953, que as ideias acerca de um cinema com caráter mais popular foram argumentadas e apresentadas à um público maior. Nelson Pereira dos Santos – o importante nome cinema-novista antes de Glauber Rocha, defendeu sua tese problematizando o conteúdo dos filmes brasileiros feitos até então. A proposta de seu texto objetivou “analisar os empecilhos e dificuldades no plano econômico-financeiro , de maneira a tornar possível a superação da situação de dependência, através de uma maior produção para o mercado interno”.

Com influências das cinematografias do Neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa, o Cinema Novo mostrava seus filmes “de estética” e “anticomerciais” para revalorizar a cultura dos brasileiros (Rio 40 graus (1955), Rio, Zona norte (1957)

Utilizavam o baixo custo nas produções e se opunham ao modelo do cinema comercial estabelecido nos filmes americanos.

Sabendo que a indústria brasileira crescia neste momento , a crítica, portanto, do movimento questionava o próprio setor do cinema que mudava sua condição ao produzir filmes, principalmente na cidade de São Paulo. Os grandes estúdios e as produtoras já atuantes neste cenário, foram as companhias Vera Cruz e Atlântida que contavam com a crescente relação entre a burguesia (industrial), o mecenato cultural e a cultura que o cinema desenvolvia.

Além do neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa, a influência de Eisenstein, muito atuante nos filmes de Glauber Rocha. Era, portanto um movimento de cinema composto e paralelo aos ideais comunistas.

Somado à influência do cinema soviético e a atuação do PCB (Partido Comunista Brasileiro) na sociedade – foi o fator principal para que o movimento se expressasse com mais força sua temática política, na transição dos anos 1950/1960.

A tendência dos filmes brasileiros produzidos à época (primeira metade dos anos 1950), tinham como tema a influência norte-americana na economia e na cultura. O que se percebe já em 1952 são as manifestações de jovens e intelectuais que viram no cinema um instrumento para questionar o imperialismo cultural dos EUA no setor das mídias televisivas e cinematográficas. . A participação social, portanto, foi crucial na década de 1950 para que se iniciassem movimentos com a bandeira de esquerda  e serviu como apoio para se identificarem com o movimento do Cinema Novo com a sua missão de exaltar o desenvolvimento nacional, frente ao que chegava do país norte americano.

O interessante é que no Brasil foi percebido uma liberdade de pensar sobre política. Os jovens discutiam nos encontros entre si os rumos que o país seguia e entendiam a relação da arte (de fazer filmes) com a política.

 

Parte 1

Parte 2

A História é um artefato de conhecimento e demanda ser continuada. Se os filmes são recursos novos que auxiliam na construção do saber sobre algo, por que, então, não auxiliar também no envolvimento intrapessoal de quem assiste? É interessante voltarmos ao post Identifique-se com os filmes, aonde falo dessa relação do indivíduo que assiste e se conecta com o um filme específico de forma mágica, pessoal.

A guerra fria , foi usada aqui como estudo de caso para ser lembrada não só da sua força política, mas da força social. O que o faz ser individual. Ela não deve ser entendida somente pela leitura dos recursos impressos. É essencial, que seja entendida conforme o que o indivíduo receptor das imagens filmadas carrega em sua existência. Neste ponto, vale apresentar uma crítica quanto ao controle governamental e midiático sobre a população, durante a guerra, para a propagação “correta” do pensamento capitalista e a exaltação do american way of life.

Por vezes questionam-se o certo e o errado. A sociedade da metade do século XX, se atenta ao pensamento vigente em sua nação (Estados Unidos da América). O nascimento do Pós-modernismo nesta mesma época (o ano é relativo), – que envolveu o campo das Teorias e o campo das Artes – quis conter o questionamento no campo das perguntas. O que paradoxalmente resulta em ampliar. E ampliar dá respaldo à “qual é a minha visão de mundo?”. Cosmovisão.

O uso da história e da teoria é importante e não pode faltar. Da mesma forma, para o cinema, o artístico e o literário, também o são. O pós-modernismo para os filmes abre espaço para novos artigos a serem usados para visualizar e registrar novas versões da História. Mesmo que os filmes históricos tenham suas próprias estruturas de filmagem e montagem, os particularismos do público não irão ser abandonados. Pelo contrário, irão ser oportunos mediante a realidade registrada nas cenas cinematizadas.

O pós-estruturalismo emprestado do movimento pós-moderno na arte do cinema, elegantemente, explora a liberdade individual omitida e evoca uma seleta interpretação do real. Não quer dizer que a Guerra Fria mostrada nos filmes será vista como uma inversão dos fatos – como muitos professores de história inquietos alegam – mas poderá ser contextualizada com o indivíduo em sociedade.

Portanto, cinéfilos entendidos, temos dois pontos: primeiro, conhecimento (discurso do cinema) é acessível e exerce papel articulador de poder, e vice-versa; segundo, filmes produzem o efeito de interpretação e interiorização. Uau!!

Nota final

Para os cinéfilos que estudam Humanas e se interessam pela tríade história-política-teoria, estudar Cinema se torna mais revelador e cósmico, haha.

Utilizei nesta série o contexto que se estuda no curso de Relações Internacionais, principalmente o legado histórico e teórico que surge com a Guerra Fria.

Primeira parte clique aqui


 

Entender os fatos pode estar relacionado à empatia que qualquer pessoa possa ter pelo que ou quem foi registrado numa foto ou filme. Para o historiador de arte e curador alemão Felix Hoffman, grandes acontecimentos ou tragédias, geralmente não são gravados pelas suas datas concisas, mas os registros de imagens e películas fazem parte de uma memória visual coletiva. Sendo assim lembrados e até revividos. O período da Guerra Fria definiu o novo cenário internacional e serviu de inspiração para os cineastas filmarem a ficção com a finalidade de moldar sutilmente a realidade.

Os recursos da filmografia podem auxiliar a compreensão dos fatos. Logicamente, o visual atrai e facilita o arquivamento do conteúdo. Mas afinal, qual é a relação esclarecida que se faz da sétima arte com a História?

 O processo evolutivo histórico e o processo evolutivo cinematográfico, caminham em conjunto. É algo do tipo óbvio. É então que algo interessante acontece na política dos fodões. O poder de controle governamental e midiático sobre a população.

  No caso da Guerra Fria, não somente cineastas mas o governo também se fez forte aliado para a propagação dos filmes, exaltando o american way of life e atraindo a população à uma posição de alerta e prontidão diante qualquer tipo de ameaça que pudesse surgir. Isto se deu por duas visões dos estadunidenses à URSS, sendo primeiro a de que o inimigo era evidente – o comunismo – através de seus espiões, e segundo a de que este inimigo era uma intimidação aos padrões morais. Sendo embasado pelos muitos filmes de Hollywood na época.

O conjunto de todo material televisivo, publicitário e cinematográfico, monopolizado pelos EUA, propunha uma forma de operação semelhante aos ditames do comércio. O comércio se encontrava como promissor, e os meios informativos populares acompanhavam as empresas no mercado, e assim, beneficiavam suas audiências. O cenário era oportuno para a propaganda do Capitalismo entrar na vida dos norte-americanos.

A televisão se propagava, não como arte, mas como meio de publicidade para as massas. Percebe-se que os anos 50 da política externa brasileira com os EUA, guiada por Juscelino Kubitschek, era também um período de mudanças na identidade popular. As pessoas já iam ao cinema e assistiam tv. Hollywood trabalhou no sentido de ditar o que deveria ser assistido em concordância com o período político, colocando os EUA como potência hegemônica capitalista.

 

Segundo o historiador Marc Ferro, filme deve ir além do que se compreende do seu próprio conteúdo e, dependendo da circunstância que um país passa, precisa seguir o contexto do momento que se está produzindo-o. Hollywood seguiu isto. Não foi percebido, por exemplo, nos filmes dos cineastas soviéticos como Sergei Eisenstein, pois faltou o domínio da harmonia, da ”obediência” ao regime no sentido de seguir o pensamento dos dirigentes políticos, e não o seu próprio. O que diz respeito aos filmes estruturais soviéticos, característicos do Construtivismo usado em Eisenstein.

Na época da 2 GM os produtores de filmes não conseguiam sempre fazer o que era devido a eles. Isto é, fazer filmes pela linha de temas e estruturas que o governo norte-americano os impunha a seguirem. Os filmes tinham de ser feitos para civis, mas principalmente para os soldados, e com o intuito maior de os treinar e exaltar o heroísmo americano na guerra. Ao invés disso, Hollywood quis trabalhar proporcionando recreação e entretenimento. Com a chegada próxima da Guerra Fria – em meados dos anos 1940 – o controle dos meios de informação e do cinema pelo governo se tornou real e justificado.

Fica claro aqui, amigos cinéfilos, que Hollywood seguiu o que Ferro afirmou, ou seja, que a união dos estúdios cinematográficos com o governo norte-americano resultou em produções imperialistas e não estruturalistas como as produções soviéticas.

Juntando cinema e suas particularidades à História e à Política, apresento esta série (3 partes), não somente pra relacionar arte com vida, mas também para expandir a cosmovisão de nós cinéfilos sobre as percepções da História e da realidade cultural da sociedade nos meados dos anos 50 e 60. Foi precisamente nestas décadas que o Cinema Hollywoodiano que conhecemos, iniciou sua caminhada de “invasão cultural” e por que não capitalista, né.

Pois bem, eis a primeira parte.

Hollywood – script de guerra

É de se saber que na metade do séc. XX a Guerra Fria estava em seu auge, dividindo os capitalistas dos socialistas … blábláblá. Mas o interessante dessa parte da História contemporânea é o nosso assunto favorito do site. O cinema como a sétima arte, neste mesmo período, mostrou sua força e elegância em suas produções. É possível dizer que os filmes norte-americanos foram tanto uma arma de guerra para soft power como um entretenimento midiático de maior rentabilidade para EUA.

Os métodos de guerra foram então fundamentados na propaganda e marketing (TV), e excepcionalmente, nas produções cinematográficas. O que influenciou em uma cultura anticomunista. Os filmes foram, para a Guerra Fria, a principal batalha contra o inimigo comunista dentro mesmo do país. Obviamente, os movimentos e mudanças na sociedade tradicional americana da década de 50, foram consequências do que era visto nos filmes e na tv. Mas além disso, haviam especulações acerca da existência de espiões comunistas e da filiação de cidadãos ao suposto Partido Comunista Americano. Estes alvos alertaram os norte-americanos e se iniciaram tanto as investigações de atividades antiamericanas quanto a famosa “caça às bruxas”. 

No livro The American Cinema (1973), de Donald Staples, há uma confirmação sobre infiltração comunista em Hollywood, descoberta pela House Un-American Activities Committee. Em outubro de 1947, audiências foram realizadas sobre o comunismo na Motion Picture Industry, onde dez homens que trabalhavam para a Motion Picture Association of America, foram para a lista negra, não sendo mais empregados em Hollywood. Reconhecidos como os dez de Hollywood. 

Segundo Georges Sadoul – célebre historiador de cinema –, o movimento da caça às bruxas teve o senador do estado de Wisconsin, Joseph Raymond McCarthy, como pivô. Entre 1953 e começo de 1954, à frente do Subcomitê de Investigações Permanentes do Senado, McCarthy entregou uma lista de pessoas que estariam envolvidas no Partido Comunista, o que aumentou o medo de espionagem comunista. Em resposta, os norte-americanos iniciaram o movimento da caça que logo chamaria de Macarthismo. Manipulação midiática anticomunista; interrogatórios infundados; delatores pagos a “acharem” os traidores; e a real simpatia de agentes do governo e de artistas ao sentimento comunista. O movimento logo se exacerbou, rompendo a carreira de diretores, atores, roteiristas e ferindo os direitos individuais e a liberdade de expressão destes profissionais. Exemplos como Charles Chaplin e Abraham Lincoln Polonski (roteirista norte-americano). O público logo se comoveu o que culminou no fim do Macarthismo. 

À parte destes eventos, os estúdios cinematográficos estadunidenses, seguiram no fim da década de 50 suas atividades e mudaram a metodologia de se fazer filmes produzindo-os com os gêneros drama e ficção científica. O segundo era o que mais chamava atenção e era da categoria tipo B. Os filmes tipo B tinham os custos menores mas chamavam mais atenção por seu apelo aos estereótipos do ” comunista comedor de criancinhas”. A ficção científica apresentava o inimigo como um invasor alienígena, como um deturpador da mente e utilizava cenários surpreendentes e imaginação.

Filmografia em ataque ao inimigo

Destination Moon (1950) onde a batalha política das duas nações da Guerra Fria se dá na lua, também vista em The Right Stuff (1983) com as tentativas de conquistar o espaço que custaria bilhões de dólares, e as vidas de pilotos. The Day the Earth Stood Still (1951) que mostra a chegada de um disco voador ao planeta Terra, representa a necessidade de resolver o conflito de forma racional e pacífica com a ajuda de cientistas, exclusivamente resolver o uso das armas atômicas. The Invasion of the Body Snatchers (1956) a “infiltração comunista” se dá pela aparição de sementes que brotam e produzem corpos humanos.  (What??!!)

Os filmes de drama foram feitos dentro do estilo clássico Noir onde as cenas eram escuras, de mistérios e sombras e continham violência, crimes, decadência da moral e a presença marcante das femme fatales. Pickup on South Street (1953) do diretor Samuel Fuller, retrata a perda de informações secretas de estado que estavam na bolsa de uma charmosa mulher e é roubada por um “batedor de carteira”, que vira alvo de espiões comunistas. 

EUA já possuía armas nucleares desde o fim da Segunda Guerra. Em 1949, a URSS adquiriu armas nucleares. Os anos seguintes da década de 1950 foram parte do período quando uma destruição massiva mútua poderia acontecer!!! Com um arsenal equivalente dos dois lados do conflito ideológico, a capacidade das armas estavam à frente da política.

Resultado de imagem para dr strangeloveO termo MAD – mutual assured destruction (destruição mútua garantida) – expressou a estratégia militar conforme as paridades nucleares já conhecidas, sendo que o lado que se movimentasse primeiro sinalizaria o movimento do segundo. O disparate tamanho deste pacto foi reproduzido na clássica sátira Dr. Fantástico (1964) do gênio Kubrickpor uma linha cômica muito bem seguida.

Citando um trecho do site Obvious, basicamente “o quadro do cinema hollywoodiano na Guerra Fria era esse: o bem contra o mal, os Estados Unidos contra a União Soviética, o capitalismo contra o comunismo, o herói contra o vilão.” bláblá.

Enfim, esta primeira parte foi um breve resumo do que Hollywood passou durante os Anos Dourados. Sem frescura de intelectualismo, dá para analisarmos com os olhos de estudantes sérios e fanáticos por Cinema um pedacinho da sua história.

Sob o clima atemporal de Reunion (M83), Bored (Billie Elish) e Fascination Street (The Cure), eis que revivo a história alarmante de Hannah Baker, numa espécie de loop do cinema para com o espectador comovido. Um efeito e tanto, bastante comum quando assistimos qualquer  boa série ou filme com trilha legal…
… Pode parecer um cenário lúdico, envolvente, belo, comparado ao que logo surge em seriedade e trama. Trata-se da não rara situação do “tirar a vida”, a própria vida.
Assistida em etapas para processamento e em bom áudio e imagem para que a voz de Hannah não seja somente para Clay, a mais recente produção da Netflix colabora com um tema tabu e com uma razoável cinematografia. Fica até, por ora, desarmônico escrever uma espécie de crítica de algo que é da mídia do streaming, mas que aborda o que é tão social e polêmico perto de nós, a sociedade.
Mas é ok estarmos aqui nesta ínfima análise , já que pessoas do mundo da arte, que não são tão levadas a sério, tiveram a atitude de criar um roteiro de suspense dramático , para apresentar em uma série o suicídio de uma garota. E assim mostrar, através desta série a personalidade e comportamento, a construção social, o estopim  da mente e do sentimento. Pelo menos, é o que se sabe ser o que “contribui” para um indivíduo chegar à escolha de não suportar mais. Como foi a de Hannah em 13 Reasons Why.
Sem precisar focar na já conhecida perturbada vida escolar de um adolescente, a série já pula esta parte e nos adianta o que interessa. Que algo sério aconteceu. Que não é brincadeira. Que não é somente fazer mais um seriado para o catálogo e para dar joinhas na tela.  A forma como é contada a história de Hannah, torna possível a quem assiste a aproximação com Clay e o que ele, somente ele, tem que “lutar” para não ser em vão seu amor pela garota. Gravações em videocassetes como se fosse um diário arquitetado, abrem caminho para descobrir que havia grande disposição de Hannah em apontar suas pequenas tragédias sociais.
Ao longo dos 13 episódios, vai se desintegrando a rede para a queda de Hannah. Somos tocados pela falta de persistência e autoconfiança de uma jovem. A jovem que “dá a última oportunidade ” de seguir com a vida, a um especialista que jamais notaria que a tal garota estaria pensando num suicídio. Nesse diálogo entre Hannah e o conselheiro da escola, há uma característica que há de se odiar nos filmes e séries – a quebra de falas. O gaguejar dos personagens que não o deixam dizer por completo o que querem, e aí fica subentendido que a jovem estava sofrendo e pedia ajuda. Nas conversas da não ficção, isto pode não parecer forçado, mas afinal a pessoa nunca iria falar com todas as letras o que pretenderia cometer.

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Ao longo dos relatos de atitudes insensíveis e demolidoras da perspectiva mínima de Baker, o que resta a ser feito é justificar, corrigir, ameaçar, expor, tudo encarregado por Clay.  Parece irônico produzir um roteiro de combate levantando soluções vingativas, mas afinal a série se baseia somente na perspectiva de Hannah, o que causa desconfiança.
 Ainda que se ache o conceito do roteiro dramático demais, ou inocente demais, não deve-se deixar de lembrar do fatídicoAcredito que pra situações como a de Hannah, há soluções profundas e especiais. Ter Jesus ou certa crença como centro se sua vida; se acalentar no poder milagroso da música; tratamentos reais terapêuticos; conversa boa ; e , o mais importante, se conhecer. Baker teve dificuldade em se conhecer e determinar que as pessoas falham, e sempre vão. E que assim é a vida. Por outro lado, não há como culpa-la. Tome-se como exemplo a série. Grande projeto midiático, necessário, feita para que não se culpe pessoas como Hannah Baker.
Porém, assim como o Alex, da série, é tão realista e carregado do peso da vida e de consciência, é de se observar o que também é realista – o êxito para impedimento de um suicídio pode ser um caminho que muitos não estão atentos. A série mostra isso. Até que alguém perceba, o dano já afetou .
Mas ainda que o tema abordado seja de peso, de certa forma até difícil de ouvir e falar, a série já tem alcançado um grande público em menos de 1 mês de lançamento. Ainda que, pelo lado social, 13 Reasons Why tenha pequenas falhas e tenha exaltado a questão de uma “vingança”; pelo lado cinematográfico houve uma feliz seleção para a soundtrack melódica e reveladora dos adolescentes e jovens pós modernos. Hits como Love will tear us apart (Joy Division), Hey hey, my my (Neil Young),  mixam a melancolia com o estilo post pop, um cool adolescente de bandas indies atuais.  Doing it to death (The Kills), Reunion (M83), Run boy run (Woodkid), Bored (Billie Elish) e Into the Black (The Chromatics).

 

Largos ombros e fineza lúgubre. Artista além do atuar. Adrien Brody is in the building! (Frase usada por ele mesmo quando vai à entrevistas na rádio SwayUniverse.)

Já aos 43, esbanja elegância e casualidade no visual. Transmite o talento, o profissionalismo/responsabilidade, e o explorar da vida — o que aprendeu desde a infância pela criação dos pais. Exemplos de homem ensinados por Sylvia Plachy e Elliot Brody, no caos lírico do distrito do Queens da década de 70. Acredito que não ficou sem frequentar o Bronx também, com a pegada de más influências de gangues e toda a cultura dos subúrbios de NYC. Desde a adolescência está em contato com um cenário cultural hip-hop e cinematográfico, sem jamais deixar de ser o cara mais tranquilo e elegante de terno em um tapete vermelho.

Falar sobre Cinema e suas delícias requer estar por dentro do roteiro e etc, e, ainda mais que isto, estar atraído pelo feito de um ator ou atriz. Seja o filme que for, de início de carreira ou de prestígio de nomeação por Hollywood. E o feito de um ator em cena, durante vários personagens analisados, pressupõe-nos seu talento de tornar  real uma característica, um sotaque, um estilo de traje, um comportamento. Raros atores – ouso dizer isto sobre Brody – possuem o charme e o talento de trabalharem com atuação nas grandes telas com diversidade e encaixe. Não somente é profissional mas é também artista, permitindo-se absorver e transparecer personagens e personalidades diferentes.

Um sofrer de infância que cobra, a mudança de adolescentes, por um professor substituto (Detachment,2011), um retorno há lugares e passados sombrios atormentando a mente de um psicólogo (Backtrack,2015), uma experiência comportamental invocando o lado mais vingativo de um cara simples, da paz (The Experiment,2010).

Interessante pensar como os atores que amamos são profundos em seus papéis e aprendem com eles. Porque é de exclusivo contato que um ator presencia no ato dos filmes. É saber que a roupa, o cenário o transforma em outra pessoa. E dá certo. Encaixa.

Não é somente através do Adrien Brody Pianista, e sua conquista na noite do Oscar em 2003, que se entende o perfil do cara.  Apesar, é óbvio, que depois de vê-lo como um pianista polonês judeu, dirigido por um Roman Polanski, o respeito é bem maior.  O que dizer de sua atuação calma e bonita como homem músico; mordendo a própria gengiva e tremido pela fome e magreza experimentadas; e de sua dedicação extrema para chegar a um estado de tragédia, próprio do pianista representado na biografia.
The Good Films movie cinemagraph thegoodfilms adrien brody
adrien brody the pianist wladyslaw szpilmanEste ator das diversidades acredita na linha do representar o que é desafiador e está em constante mudança. É o que sempre afirma em entrevistas, ao falar sobre o que de melhor o showbiz pode oferecer. As inspirações de Adrien vão desde um caractere do subúrbio perigoso e profano, até um de épica sociedade da fama, como na minissérie Houdini (2014). Percebe-se em seus personagens, que está sempre encaixado, aprovado, transformado. Que a atuação está bem aplicada.

Brody é bad guy em longas de roteiros atrativos e criminais. Mas não somente isto, é adornado com a expressão de personagens ousados e sentimentais . O Ritchie, de O Verão de Sam (1999), tem a vida adulta de  um jovem punk , e é o principal alvo de investigações sobre um serial killer. O Bloom, de The Brothers Bloom (2008), como vigarista sensível á beira de deixar a profissão do crime ao se apaixonar comicamente. Em personagens assim, o easy talk, a forma como Brody pratica as falas de um jeito arrastado e provocativo de gírias, não passa despercebido em filmes de envolvimento ao crime e às ruas.

No romance difícil e gostoso Love the Hard Way (2001) , ele está como um ladrão pomposo pela jacketa de couro animal e apaixonante como escritor às escondidas em um storage . Conhece uma estudante ingênua, por acaso, se envolvendo tão profundamente que um muda o estilo de vida pelo outro. Parece ter sido um romance barato, tirado das ruas do Bronx. Mas é exatamente isso. E olha só, é ótimo. Muito anos 2000, em seu comecinho, e muito envolvente – a trilha é desconhecida mas é gostosa com o hip hop devagar e atenuado por um jazz de subúrbio, deixando as faixas sensuais.

sexy smoking shirtless adrien brody
Love the Hard Way, 2001
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American Heist, 2014

A atuação de Brody para caras de “vida curta” mas cheia de adrenalina, marca ainda em American Heist (2014), onde não convence com trama e elenco fracos, porém destaca um ex-detento empolgadíssimo para um último golpe. Tanto em Love the Hard Way quanto neste, a característica de um Brody atraente influenciado pelo background das ruas e do estilo bad guy, tatuado, apropriadamente com uma arma e um cigarro, me convence de que este perfil traçado, é o cara que mais atrai a sociedade cinéfila feminina. Sem rebaixar o posto do bem vestido John Wick, é claro.

Invertendo para  good guy

…Adrien e Penélope Cruz são ardentes em Manolete (2007)! Sem falar na aparência com o verdadeiro toureiro espanhol, sua atuação é muito bonita e delirante, como o próprio encenar corporal nas cenas em que está na arena. Destaque para o vermelho do Capote de Manolete e do vestido de Penélope.

O que dizer ainda de personagens lúdicos, quase animados, de Wes Anderson. O fictício anti-vilão Dmitri e o irmão do meio, Peter. Não só isto, mas a comédia impossível possível de Wes, fez Adrien bem especial. O primeiro, ele personifica um Conde de gostos arrojados e linguajar grosseiro,  deixando-o sensacional em The Grand Budapest Hotel (2014). O último, ele é parte de um trio de irmãos que não se veem há um tempo, sendo aquele que obtêm mais ego que o mais velho e mais indecisões que o mais novo (The Darjeeling Limited, 2007).

"The Grand Budapest Hotel" (2014): darjeeling limited: Outro, ainda, quase animado personagem, é o Salvador Dalí de Midnight in Paris (2011). Forte no sotaque e emblemático na aparência e nas “visões” persistentes de “rinocerontes”. Mesmo que sua participação não passe de 5 minutos, sua presença é importante e divertida para um papel de grande semelhança e de precisão performática de.

Wes escalou Adrien, novamente, no fim de 2016 para um curta publicitário da marca H&M. Apenas 3:52 min e é excelente, veja aqui. Outra participação em curtas, foi no projeto incrível Jameson First Shot super apoiado pelo super Kevin Spacey. Veja um dos 3 curtas.

Adrien fucking Brody, é um cara apaixonante de certo. O  perfil de ator crescido no Queens/Bronx e filho de pessoas artisticamente presentes, o faz ser ator de O Pianista e ator com a bandeira do hip hop e a arte grafitada social. Em conversa descontraída na rádio, ele afirma sua criação e influências familiares como importante pilar para aprender com os papéis diversos, de se colocar em desafios, de preocupar-se com as mazelas da sociedade. Adrien atua, faz beats em seu ipad, pinta, e compartilha a ideia de um mundo melhor. Uma olhada em sua conta do Instagram, é possível ver isto tudo e se simpatizar por sua fineza e autenticidade.

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Textão somente para os excitados em analisar dois filmes excelentes

Parte 1 – Drive (2010) de Nicolas Winding Refn

Temos visto o quão estranhas as coisas podem ficar à noite..Bom, as coisas estão prestes a serem muito mais estranhas.
Este misterioso motorista engana os policiais, à pensarem  que ele irá estacionar, mas então allhell breaks loose.
Sua jogada ainda é desconcertante para a polícia, a forma como desvia toda a estrada, dirigindo como um homem possesso.Em algum instante ele irá contornar para a zona do crepúsculo. Watch.
Mas num piscar de olhos será visto novamente.
Ele está girando da polícia for a loop, volta imediatamente, exibindo uma aparente velocidade sobrenatural…Por um momento, o motorista e seu veículo parecem desaparecer no ar rarefeito..
Os oficiais, vendo isto, têm um rápido vislumbre do homem atrás do volante.Será a última visão que terão.
Desta vez, ele tenta passar a frente da polícia em vez de sumir..Uma cerca no fim da pista indica no way out …. ou não?
Mesmo olhando novamente, os caras são incapazes de entender..
Tudo que veem é a cerca intacta e nada mais do que as luzes trazeiras desaparecendo, o que o departamento policial de Garden City chamou de: The Gost Car.

Direto ao ponto este prelúdio adapta Pacific Coast Highway de Kavinski, ao que Drive figura nos  seus sete primeiros minutos.

De adrenalina e equilíbrio, Ryan Gosling entende e aplica no longa mais popular do dinamarquês Nicolas Winding Refn.  Drive humaniza (for real) um cara simples envolvido em roubo e assassinato.

…encurralado e contra as probabilidades
Com sua força de vontade e sua causa
Suas ações são impressionantes
Você é emocionalmente complexo
Na contra mão de reivindicações distópicas
Seus pensamentos e ações não são para agradar
E você, provou, ser ,

diz a letra de A Real Hero (Collegefeat. Electric Youth).

The driver (a própria referência do filme ao personagem) em seu ofício prestado à situações que exigem ação e precisão. De dia é dublê de perseguição de filmes, de tarde suja as mãos em um trabalho modesto na oficina de um conhecido, e de noite, cobre bad guys em corrida contra a polícia.

Este motorista faz o bem e se abre para uma aproximação bacana com uma mãe e seu filho, e mostra ter sanidade convincente para tomar as rédeas com virilidade, coerção e necessidade. Oh Ryan que viril de sua parte.

movie ryan gosling drive

Todo o cenário induz o prazer de andar de carro. As cores prendem e combinam com o astral quente de velocidade. As luvas Gaspar de Gosling as tight as fit para segurar o volante. A soundtrack é o filme em si à portas e janelas fechadas, com o cálido estilo synthwave – uma onda vinda a partir dos anos 2000 para o som clichê sintetizado e ardente dos anos 80. E seus automóveis.

Como parte determinante da trilha tudo a ver com a sonoridade de Drive, compõe a obra o ruído abafado de cidade no interior de um carro e o som elétrico francês de Kavinski. Este fixa mais por ser o próprio filme em sua pegada ¨dirigir um carro às altas horas¨. Ouvir somente o álbum OutRun o ambiente sintético do filme é o mesmo.

Há ainda o som também elétrico mas com o beat melódico que remete ao sentimento oitentista, em Under your spell (Desire), Lady( Chromatics), Heartbets (The Knife), Journal of Ardency (Class Actress) e Goodbye Horses (Psyche).

Como alternativa de trilha encontra-se em várias playlists um outro típico som electric french do grupo M83, bem simbólico e místico para uma banda eletrônica.

Cliff Martinez é o que contribui com a trilha original – não apenas em Drive mas em Só Deus Perdoa (2013) e o novíssimo The Neon Demon, do mesmo Winding Refn. Martinez envolveu o som ambiente tanto nas cenas estáticas (relação do driver com Irene, interpretada pela doce Carey Mulligan) quanto nas cenas em movimento e com fundo dramático pesado, devido ao que o personagem é levado a fazer. Skull Crushing e Hammer representam bem isto. Não apenas Martinez “deu a cena”, que o filme carrega , à música de fundo. A banda de synthpop Chromatics incorporou todo o abafo e contagem que o driver está , quando em aguardo de transportar dois ladrões acompanha a rodada dos segundos no relógio. Tudo em Tick of the Clock.

Ouça CHROMATICS / TICK OF THE CLOCK (Film Edit) de JOHNNY JEWEL #np na #SoundCloud

 

Parte 2 – Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese

Em Taxi Driver, um taxista que não dorme à noite e por isto trabalha somente este período, conhece todo o centro urbano e o caos e a sujeira que impregna ele. Se apaixona, se enlouquece. Luta pelo bem de uma mocinha das ruas e dos motéis… mas trama o assassinato de um homem público.

Travis está ocupando sua mente com muitos devaneios aqui. Ao tomar posse de 4 revólveres, dedica o dia em brincar com eles e treinar sua defesa/ataque. Robert De Niro e sua habilidade em observar, analisar e depois falar em filmes de ação, traz o drama certeiro.

Mas mesmo com estes traços aceitáveis é complicado absorver o filme, inclusive nos 15 minutos finais.

Se em Drive há sanidade precisa, aqui o segundo motorista falta lhe o mesmo. Não dormir á noite ou até dias, “brincar” com 4 armas. Ter tempo de sobra para stalkear e escrever. Travis não transparece sua espécie de transtorno aos outros no filme, mas é apresentado como lúcido e de opinião popular sobre os males da cidade. Este driver não é tão humanizado quanto o primeiro, mas Martin Scorsese consegue convencer de que ele é um anti-herói. Mesmo que isso só seja percebido nos momentos finais do longa.

Pode ser que não também. Verdade seja dita que o filme é um clássico e está presente nos debates entre cinéfilos.

A trilha original feita pelo mesmo que fez em Cidadão Kane e Psicose, se mostra marcante na abertura e nas cenas com o De Niro/Travis. Tem um peso considerável por ambientar a decadência e o movimento das ruas de Nova Iorque dos anos 70, através de um jazz sensual e surpreso.

Bernard Herrmann captou momentos de maior contato interpessoal de Travis com a loucura – ou, joguinho de ser uma outra pessoa em frente o espelho. Com 4 armas escondidas pelo corpo. Com muitos pensamentos na cabeça.

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Um destes momentos está na faixa The 44 Magnum is a Monster, como um apego dele com a arma mais potente que comprou. Mune ele para ataque de forma planejada e não para uma tragada rápida. Assim como se vê na cena em que, na cadeira encostado e de análise suspeita, olha para o televisor apontando certeiro ao rosto que está na tela.

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Me espanto e admiro pela loucura de senso crítico que ele passa em palavras em seu diário. Diary of a Taxi Driver é mais um momento. ¨Todos os animais saem à noite¨ diz Travis, ¨sujeitos, rainhas, fadas, dopantes, viciados. Doentio, venal. Um dia uma chuva de verdade irá lavar toda esta escória das ruas¨. E por aí percorre toda a faixa em mais relatos grotescos e imorais das entranhas da cidade, e ameaças, e desabafos. Herrmann reuniu a maioria das falas de todo o filme, o que parece ser um turbilhão melancólico, o ponto de vista do motorista.

Parte 3 – Desfecho

A descrição e enfim a comparação dos dois personagens para com sua profissão, serviram de relato do que pode se chamar de paradoxo de papéis. Ambos trabalham á sombra da sociedade e nas sombras da cidade. Sem querer humanizar o que já é (the driver) e o que é absurdo de ser (Travis), é difícil não reparar na vida solitária. E porquê não amaldiçoada? O driver de Winding Refn é agraciado com companhia e autocontrole, mas justo através do que sabe fazer de melhor se envolve com o lado da máfia e se torna como um deles por uns momentos. O de Scorsese dá um desconforto por não ter seu passado apresentado como é sua solidão e devaneio, mas é impecável a sacada irônica da moral e da decadência nele em repugnar a sociedade apesar de ser o único repugnado na história.

Desfecho foi sucinto, porque escrever não é fácil. Fora este detalhe, a abordagem destes dois suspenses clássicos cada qual à seu tempo e atualidade, é de inteira percepção admirável do conjunto da obra. Dois diretores que trabalham os opostos do ser humano personificado em tela; atuação contida e atraente de dois atores boa pinta; trilha sonora fucking good.

Afinal, qual é o melhor e mais confiável “herói” ?

 

Nas duas últimas décadas, o ator de mil faces, Nicolas Cage não têm sido levado muito á sério. Mesmo tendo sido aclamado em meados dos anos 1980 e 1990, e por ser da família dos Coppola, não conseguiu provar ter realmente mil faces. Nicolas é aquele cara que faz os melhores filmes de ação ruins de bilheteria, mas excelentes em repetir o Cage caracterizado dele mesmo. O que é um charme da parte dele!

É de se saber que ele: já se envolveu em brigas; é especialista compulsivo em gastar seus dólares hollywoodianos em bugigangas e coisas vivas; e que tem mais imagens de memes com seu rosto do que imagens próprias nas pesquisas do Google. O cara é realmente zuado! Mas the zuera never ends só me faz divertir com o descaso.

funny laughing laugh nicolas cage nic cage

Porém… meu conhecimento mínimo de cinema e de atuação, não me fazem considerar mais as zueiras do que o próprio alter ego de Cage nas telas. Macho, de andar rígido, voz máscula tórrida, respirar arfante. Ele meio que me seduz.

Aquela ironia dramática percebida em Feitiço da Lua (1987) em conjunto com a também dramática, mas racional, Cher.

Hilário no mais forçado possível e atraente no mais drogado admissível, como em Vício Frenético(2009) ao lado de Eva Mendes. Sem exageros maldosos, ele atua com descaramento para ser um policial entretido entre o ofício e o crime, de forma a deixá-lo mais zuado. O filme é de fazer rir por ser mirabolante.

Em O Senhor das Armas (2005), Nicolas está em incrível comando de uma trama policial, com causa e efeito de guerra, munições e família, muita seriedade, paciência e charme. Cage está tão sedutor quanto poderoso, até sendo um simples judeu vindo da Ucrânia.

Teve ainda sua atuação enigmática, enérgica e erótica em um longa muito bem dirigido pelo mestre do nonsense, David Lynch. Wild at Heart, de 1990, apresenta um Cage himself vivendo uma paixão na estrada, rodeada de muita violência e insanidade.

A verdade é que adoro esse cara excêntrico e expressivo facialmente. Ele possui uma filmografia mais extensa do que meu primeiro old american man  favorito, Johnny Depp. Dentre os mais de 60 filmes – também chamados de fiascos – é válido mencionar Despedida em Las Vegas, de 1995, que lhe rendeu oscar como o melhor bêbado sentimental.

film nicolas cage leaving las vegas

Ele produziu muitos papéis interessantes e legou uma personalidade instigante. Contrariando os gostos de críticos robustos e suas chatices, relevo aqui o Nicolas Cage vibrante e impossível no seu melhor e no seu pior. Desculpe se ficou evidente que sou fã.

 Feliz natal aí adiantado.

christmas nicolas cage


Bônus

Para um fim de post com mais kkkk e menos bláblá, entre no site com gifs maravilhosos de Cage.https://giphy.com/search/nicolas-cage

A pós-modernidade parece ser o melhor da geração atual. Uma internet disponível em qualquer lugar (quando o wifi é liberado); rapidez em atendimentos do cotidiano com pressa; e até ¨nossos melhores momentos¨ registrados em nuvens, caixas virtuais, timelines. E ainda, como que um extra para quem NÃO QUER perder tempo, dar um clique ali, ativar uma bomba aqui, apagar um arquivo revelador, deletar a memória de um dito cujo lá… Coisa simples. Prático. Não se incomode leitor, este post quer apenas fazer você trocar rapidinho de lugar o cenário da  realidade social que te cerca, para o cenário futurista pesado de uma série bem feita.

 

O tema

Black Mirror – já online desde 2011 pela BBC – foi feita para descrever uma sociedade, a SUA sociedade.

O britânico, creative mind, Charlie Brooker utiliza de condutas bem humanas e satiriza-as de um jeito bem sombrio, examinando a sociedade moderna/tecnológica, e despertando questões como: ela está progredindo ou está exterminando?

Diversos blogs e websites atentos à produção não tão fictícia, pautaram o tema explorando textos e estudos sobre o comportamento e mente humana, relacionando o futuro já gritante à nossa volta.  Acredita-se que o tema não está presente baseado apenas em mais um mistério, e sim, em realidades tão próximas que aceleram o choque interpessoal e social, levando ao clima de abismo tecnológico.

Não é de estar surpreso com a intenção do título, ao aludir à uma tela digital, escura, vidrada. Reflete, diz, grita, quebra.

 

Episódios

Consiste em duas temporadas de 3 à 5 capítulos cada. O enredo não segue um tempo cronológico em sua programação, sendo somente correlacionado o tema do humano e do tecnológico. Cada episódio apresenta um cast e uma história diferentes. Para encurtar a missa, vou listar os episódios em frases que expressam o foco de cada história.

Temp.1Ep.1 The National Anthem (Hino nacional) – História política difícil de ser vista, mas corajosa em chocar. Já digo que foi o mais satírico de toda a série. Aqui cabe a pergunta até que ponto vai a autoridade de um político em mãos erradas?

Ep.2 Fifteen Million Merits (Quinze milhões de méritos) – Acordar. Levantar. Faça um movimento de touchscreen no ar pra desligar o despertador. TV logo cedo. Propaganda. Futilidades. Touchscreen. Perder. Ganhar. Exercício. Físico. Exercício físico.  Méritos em moedas virtuais. TV.  VT. Rotina do dia. Dormir. Quarto de quatro paredes em telas. Prisão. Uma espécie de reality show inteligente com uma crítica fortíssima.
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Ep.3 The Entire History of You (Toda a sua história) – Uma historinha  sobre como guardar toda sua identidade em um lugar seguro e ainda provar que a mente humana é traiçoeira. Como a realidade…. e um pouco de ciúme e obsessão também.Resultado de imagem para black mirror

Temp.2 Ep.1 Be Right Back (Volto já) – Ok. Aqui a gente tem uma considerável demonstração de como a tecnologia pode ir além. Tipo, além da morte. Com atuação do gracioso Domhnall Gleeson (Questão de Tempo; Ex Machina).  Resultado de imagem para be right back black mirror

Ep.2 White Bear (Urso branco) – Uma moça acorda em um cenário apocalíp… isso mesmo, estilo seriados da FOX. Lembra uma caça às bruxas em algum país nórdico. Todos estão atrás dela. Inclusive as câmeras de celular. 10 Mysteries, Passions, and Hauntings to Obsess Over If You Like ‘Serial’:

Ep.3 The Waldo Moment (Momento Waldo) – Uma sátira em que o próprio Brooker chamou, em setembro de 2016, de ¨a campanha de Donald Trump¨. Sem papas na língua, Waldo faz fama brincando de política. Mas pera. Waldo não é uma pessoa.

Ep.4 White Christmas (Natal) – Lançado como episódio especial à parte, justamente no mês do natal para abusar do espírito sentimental propício da época e entrar na mente. Perturba a ponto de causar colapso em quem somos e quem achamos que somos. Falo do personagem, é claro. Tsc, tsc.

 

A já grande, Netflix, acreditou na série e em 2015 encomendou novos episódios. A terceira temporada já é, a partir de hoje (21/10), estréia imperdível na plataforma. E já veio ostentando 6 episódios de cara pra provar que o assunto é denso e convincente.

Fale de Black Mirror com seus familiares e amigos, ou use em uma pesquisa ou experimento. Faça um TCC. Uma palestra. Faça do seu jeito, usando a tecnologia. Só não posta. Senão quebra.

Parte 2 downloading

Estava eu em minha cama, envolta pelo edredom cheirando à amaciante, lendo o livrinho supimpa da youtuber Jout Jout, ao som chuvoso de quarta-feira e lembrando que o tema deste post ainda se encontrava indefinido. Sem pressa, cogitei falar sobre o que estava escutando, ou o que me lembrava isto, a chuva abafada. Juntei com a leitura que dizia sobre crises no cotidiano e na vida… Mas que filme, ou coisa do tipo se encaixaria nesta mistura??..

Esse mix renderia um belo drama….e um drama de alta tensão? Melhor. Mas, e se essa tensão fosse incorporada à algo ligado à chuva… um suspense psicológico seria completo! É o que filmes como Garota Exemplar (2014) oferecem. Tanto em imagem e música quanto em enredo, o fôlego é acirrado, e o que parecia ser somente um fim de dia tranquilo com chuvinha e calmo com a companhia de um livro, se torna um script estridente.

Poster de Garota Exemplar
Poster de Garota Exemplar
Um trabalho minucioso do penetrante David Fincher, com base em um casal vívido de expansivos instintos , que enfrenta uma aleatoriedade na relação.

Sim, em outras palavras, uma crise. Mais densa e excitante. Características reveladoras dos filmes de Fincher.

Sr. David Fincher, in black and white.
Sr. David Fincher, in black and white.

Temos neste sedutor roteiro adaptado, de Gillian Flynn : a belíssima Rosamund Pike com um porte fino impecável e um controle fatal ; o másculo Ben Affleck como esposo conivente e misterioso; um diretor de cinema especialista no quesito históriadensaatéficartudonacorcinzametálico; Trent Reznor com o sound metálico enevoado de sempre; e, last but not less, uma fotografia técnica nas melhores escalas possíveis de azul-cinza e um relançe de vermelho-sangue – o que sempre acompanha Fincher.

Escala de cores em Garota Exemplar
Escala de cores em Garota Exemplar

Tive grande encanto por este gênero, pois chega a ser viciante o jogo de cenários do cinema de Lynch, Scorsese, Winding Refn , e com Fincher a regra foi a mesma, onde consiste no drama de alguém que esconde um mistério e comete um crime, que se envolve com outras pessoas sendo por crime ou pela sedução, que já vira um suspense, que há uma fatalidade que provoca questionamentos, que já induz o psicológico a fazer ligações atordoantes. You got it, right?

 

Vem cá rapidinho nessa tradução

Sem mais delongas, até porque queridos, é de dar uma certa agonia em tentar expressar toda a estrutura magnífica deste longa, concluo dizendo que quando eu e uma amiga o assistimos no cinema, saí de lá a dar risadas de tão bom que foi , e ainda por ter recebido uma carga tempestuosa de instintos assassinos vindos do personagem chamado… você vai descobrir quando vê.

Estou tão feliz, agora que estou morta
Estou tão feliz, agora que estou morta

Bônus: uma amostrinha da soundtrack , para atiçar você mais um pouco.

 

Me and Earl and the Dying Girl

Me and Earl and the Dying Girl

Me and Earl and the Dying Girl

Me and Earl and the Dying Girl

Esqueça um roteiro que tenha romance convencional. O filme de hoje é sobre estar presente e ser invisível. É sobre amizade e outras preocupações juvenis além do amor. É um filme de AMOR amizade.

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Desde a primeira vez que assisti o filme independente Medianeras (2011), passei a ter atração por filmes desconhecidos. Agora, desconhecido e tão franco no título e no roteiro, como este longa é, é de deixar quem o assiste absorto o restante da madrugada. Falo de Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl).

Sob a direção de Alfonso Gomez-Rejon (dirigiu alguns episódios de American Horror Story), o filme é bem criativo ao seguir sequências alternadas de animações-cenasreaislúdicas e tomadas de cenas rápidas e minimalistas. E ainda, a autoafirmação do persona central — Greg — em ser o cara que move a história; o que afeta e é afetado neste grande melodrama.

O que se assiste é a vida de Greg (Thomas Mann)antes e depois de conhecer a garota que vai morrer. É, o título entrega.

O roteiro foi bem dividido por partes que o próprio Greg introduz e narra, favorecendo seu apelo existencial.

Olivia Cooke as "Rachel," Katherine Hughes as "Madison" and Thomas Mann as "Greg" in ME AND EARL AND THE DYING GIRL. Photo courtesy of Fox Searchlight Pictures. © 2015 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reserved
A parte em que eu entro em pânico por pura falta de jeito

Thomas Mann (Projeto X; The Preppie Connection)é incrível, ao ser aquele cara que carrega todas as incertezas, e, mesmo assim, sobrevive com esforços que te leva a gargalhar de uma equivalente tragicomédia. São esforços quase inatos à personalidade afável e artística de Greg, onde sua tática para enfrentar o último ano colegial é tão brilhante, ao ter ¨passaportes¨ em todos os grupos separatistas do ensino médio.

O tema central abordado pelo diretor não deixa de ser um dos mais frequentes na vida dos queridos teenagers. A falta de identidade no mundo. Muita carga emocional os jovenzinhos suportam! E esta idílica fase só não ganha da crise dos 20 anos.

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¨Me deixe apenas sentar aqui e arrepender das coisas.¨

O sereno e ainda estonteante Greg, vive a trama de forma bem singular. Com pais liberais e excêntricos na medida do possível; faz o colegial e produz filmes caseiros paródicos. Sim! O Greg faz filmes! O que daria outra matéria bem legal sobre o inventivo, porém original, trabalho dele e seu co-worker Earl.

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¨Meu jantar com Andre, o grande¨

Mas a questão que o filme impressiona com força, é a amizade. É de grande solidez como isto é tratado.

Ao vermos Greg, o grande inspirador e com laços seletos de amizade, conviver com Earl, seu amigo, não tão best friend forever, desde a infância. É importante mencionar  que uma das melhores cenas seja talvez a briga entre os dois. Diz tanto sobre o espaço vazio e o preenchido, que divide e consagra uma amizade-parceria de longa data.

 Esta é a parte que você conhece o Earl. ¨Prático. Perverso. Profundo.¨
Esta é a parte que você conhece o Earl. ¨Prático. Perverso. Profundo.¨

A garota que…, Rachel(Olivia Cooke), entra num círculo mais próximo de uma amizade com Greg de forma embaraçosa e involuntária , segundo ele chama de doomed friendship. Pela insistência da mãe, ele passa o tempo com esta garota limitada pela condição física mas acessível para ser a pessoa que abriria os olhos dele. As cenas com estes dois, meus caros, são as essenciais para filosofar em conjunto com esta pérola de filme. Todas as pressões versus as possibilidades estão aí. E de forma delicada, galante e hilária, o afeto juvenil deles é construído e tocante.

E ainda que Rachel e Greg tenham tudo para serem mais um casalzinho romântico bláblá, o filme não perde por ser brilhante em mostrar um super romancedramacomédia que supera as expectativas. Ou então, um espetáculo de celebração à amizade.

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¨A vida pode continuar revelando-se para você, apenas contanto que você preste atenção.¨

Eu, Você e a Garota que…, é imperdível. É revelador. Traz aqueles primaveris temperamentos e a adição de novos sentidos para o amor entre duas pessoas. ótimo para se identificar.


Bônus: se ainda falta mais motivo para ir conferir ou afirmar a perolicisade que é esta obra prima, confira este bate-papo entre o mestre Martin Scorsese — que aprovou o filme ! — e o próprio diretor Alfonso Gomez-Rejon. Vá nas configurações pra legenda.

 

 

É isso.

 

 

Identifique-se com os filmes

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[button color=”” size=”” type=”3d” target=”” link=””][/button]  Não são todos seus amigos ou conhecidos, que ao se encontrarem em um pub, vão saber dizer a ficha técnica de certo filme, mas todos vão saber te indicar um. Falar de cinema é algo instigante, excitante. Se em uma conversa o assunto está banal, comentar o filme assistido na madrugada passada faz animar o clima do grupo.

  Para quem se autodeclara como expert no assunto, falar desta arte descoberta no século 20 vira tema de monografia. Meu caso foi consideravelmente penoso. Em um curso de viés político e histórico, falar de filmes seria uma afronta ao modelo todo certinho. ¨Seu trabalho é de relações internacionais e não de artes¨, me lembrava a orientadora. Descobri que devia seguir minha liberdade de pensamento e o fascínio particular por cinema. Entrei na brincadeira do padrão dos trabalhos acadêmicos e discursei com qualidade, elegância e criatividade sobre como os filmes podem imitar a realidade e vice-versa.

  Achei interessante defender teorias descobertas no mesmo período histórico em que o cinema foi inventado e assim relatei meu ponto de vista em relação aos filmes como intrapessoais. Usei teorias do movimento Pós-moderno e assim desvendei uma característica singular nas Artes do período – identidade. É aquela velha história quando alguém diz ¨chorei ao ver esse filme¨. Esse artefato artístico que é o filme, seja ele drama, cult independente ou documentário, é capaz de transmitir uma conexão pessoal com quem o vê. É capaz ainda, de explorar a liberdade individual omitida e evoca uma seleta interpretação do real. Ou seja, ele funciona como instrumento de estudo e conhecimento, da História, por exemplo, e como catalisador de memórias pessoais.

  Acontece um choque de realidade ao comparar sua vida com algum personagem da trama. Ingmar Bergman (Morangos Silvestres – 1957; Persona – 1966) foi ótimo ao proferir que nenhuma arte tem tamanha capacidade de trabalhar além da própria consciência, como o filme faz com o pessoal.

Cinema e método

O cinema como método é nada mais do que  aquele momento em que somos arrebatados para outros sentidos, por causa de uma cena, fotografia ou atuação. É o prazer arrepiante que induz o imaginário coletivo das pessoas, documenta a denúncia e o fato, expõe mudanças de comportamento. Há filmes que seguem a linha do intencional, os chamados filmes político-sociais, feitos nos anos 50. E há os que causam isto não intencionalmente. Há filmes estrondosos por sua produção, e há os que encantam pelo estilo alternativo.

O que dizer ainda da trilha sonora? Tudo se encaixa, tudo faz sentido, tudo arrepia. Com a soundtrack perfeita. E quando ocorre o tão bajulado Oscar?! Aí que a galera se mobiliza para comentar os merecimentos de cada produção. Filme não precisa de pessoas formadas no curso tal, apesar de ser inspirador o trabalho dos especialistas. Filme é coisa de uma dimensão intrapessoal. Íntima. Transcendental. “Filmes têm o poder de capturar sonhos” (Georges Mélies) — citou Isabelle ao fofíssimo Hugo Cabret .

A questão não é se Interestelar (2014) é mais bem feito, ou com mais efeitos especiais que 2001, Odisséia no Espaço (1968). A questão é que todos os filmes falam pra alguém.

Buscar identidade em coisas artísticas é de grande valor e importância. Tive sucesso em iniciar meu projeto de identificação com minha monografia. Descobri que arte cinematográfica é arma. E também um pedaço de nós. Vamos dar boas-vindas ao projeto de identificação. Que venham muitos filmes!

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Nota sobre o 1° post. Prometo mostrar nesta coluna minha visão particular sobre o que é Cinema. Vem por aí matérias bem articuladas, com mixes de filosofias e música. Ótimo pra quem curte uma linguagem mais intelectual sem deixar de ser leve. É isso.