O mais fiel admirador da obra de Tom Jobim, o artista brasileiro mais documentado no mundo, não faz ideia das surpresas e novidades que terá ao assistir esse filme. São fotos e imagens inéditas captadas durante 15 anos por Ana Jobim, mulher do músico, que mostram particularidades jamais reveladas da vida e obra do Maestro Soberano.

Realizado em Nova York , Rio de Janeiro e no sítio da família em Poço Fundo, na Serra Fluminense, o filme mostra a intimidade com os filhos , o nascimento de importantes composições, saraus caseiros, encontro com amigos e até mesmo um inusitado Tom Jobim de pijamas em “expedição” na Mata Atlântica. “Quando alguém visita a intimidade de um grande artista possivelmente sente diminuir a distância entre ele e o mito. Para mim é o contrário, a distância aumenta e me dá mais consciência do mito”, diz Ana.

Livro “Ensaio Poético”, de Tom e Ana Jobim

A CASA DO TOM – MUNDO, MONDE, MONDO, filme de Ana Jobim conta a história de amor de Antonio Carlos Jobim com a música, a família e a natureza.

A inspiração para este DVD veio do Ensaio Poético, livro que lançou em parceria com o marido em 1987 na Casa de Cultura Laura Alvim. Na época, Ana pensou em fazer um vídeo com Tom que pudesse ser exibido em diversos monitores enquanto durasse a exposição de fotografias do livro. Chamou o primo documentarista Luiz Eduardo Lerina, contratou uma equipe composta por cinegrafista e sonoplasta, e saiu em campo documentando o marido na intimidade. Tudo feito de maneira muito livre, como ela faz questão de dizer. Tom abordava os temas que tinha vontade no momento e ela seguia sua intuição, filmando-o na casa que estavam construindo no Jardim Botânico, no Rio, no sítio da família em Poço Fundo, na serra fluminense e em Nova York. O material resultou em oito horas de gravação. Guardado há exatos 20 anos, de vez em quando Ana se via às voltas com o pedido de alguma televisão que desejava exibir uma imagem ou trechos do trabalho. Ela sentiu que os empréstimos poderiam acabar com o ineditismo e a intimidade dos filmes: “Começamos a ficar meio ciumentos, porque se fosse fragmentado perderia o sentido”. Decidiu então que iria preservar toda a documentação para a hora certa. Não deve ter sido fácil mergulhar nesta memória com passagens muitos dolorosas. Mas ela conseguiu, de certo modo, fazer uma catarse e está feliz com o resultado. Além de lindo, o DVD é emocionante.

O poema vai intercalando falas, fotos em P&B e cor, filmes caseiros, filmes profissionais, uma grande entrevista com Tom feita por Ana e histórias saborosas de uma intimidade de amor: “No dia da mudança para o alto do Jardim Botânico”, conta Ana, “a única preocupação de Tom era o piano. Ele mesmo ligou para a transportadora, tomou conta de cada passo, desde a saída da casa antiga, à chegada na casa nova, até a posição do piano na sala”.

As locações mudam. Tom pode estar no apartamento de Nova York ao piano e abandonar o teclado para carregar a filha Maria Luiza, ainda um bebê, ou brincando com o filho João Francisco no Central Park ou nos jardins de Poço Fundo. Ou conversando com Narciso, um empregado do sítio, que lembrava os personagens fantasiosos de Guimarães Rosa que Tom tanto amava: “Seu Tom, senhor acredita que eu meti tanta bordoada no lobisomem, que o lobisomem só olhava pra mim com a cara redonda, a orelhazinha curta e todo rupiado. Falei: vai me pegar…”. Esta conversa acontece debaixo de uma mangueira e Tom não perde a oportunidade de exercer seu fino humor: “Você vê: essa mangueira aqui, por exemplo, não dá manga, mas dá água…Isso na verdade, isso não é uma mangueira, isso é o pessoal de Hollywood que veio me filmar…são os cabos da CBS, da NBC”.


Musicalmente, A Casa de Tom – Mundo, Monde, Mondo também é intimista. Tema para Ana, a primeira faixa, é executada por Ryuichi Sakamoto e Jaques Morelembaum, numa gravação feita na própria casa de Ana e Tom. Sakamoto tinha loucura para conhecer o piano do maestro. Ana emprestou a casa – Tom havia morrido oito anos antes – e os dois músicos acabaram gravando todo um CD no piano encantado. Mas Ana guardou uma preciosidade. O próprio Tom interpretando Tema para Ana, que ele nunca gravou comercialmente e ela tinha guardado num gravador caseiro.

O documentário é narrado pela própria Ana Jobim, tem como fio condutor o poema Chapadão, que Tom começou a escrever quando escolheram o terreno no alto do Jardim Botânico para construírem sua casa: “A casa levou quatro anos para ficar pronta e o poema, oito”, conta Ana.

Poema Chapadão

Vou fazer a minha casa
No alto do chapadão
Vou levar o meu piano
Que ficou no Canecão
Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
Vou levar don’Aninha
Prá me dar inspiração
Vou fazer a minha casa
No alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
Inventar nova megera
Vou fazer a minha casa
Com largura e comprimento
E peço ao Paulo uma sala
Pra botar Aninha dentro
Vou botar minha biruta
No taquaruçu de espinho
Vou fazer cama macia
Pra te amar devagarinho
Seremos dois belezudos
Neste mundo de feiosos
As noites serão tranquilas
E os dias tão radiosos
Quero minha casa feita
Com régua prumo e esmero
Quero tudo bem traçado
Quero tudo como eu quero
Quero tudo bem medido
De largura em comprimento
Não quero que minha casa
Me traga aborrecimento
Vou fazer a minha casa
Do alto de uma canção
E agradecer a Deus Pai
A sobrante inspiração
Sob a axila do Christo
Neste sovaco christão
Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
E vou dar festa bonita
Com bebida e com garçon
E ao Lufa que foi amigo
Dou champagne com bombom
Vou fazer a minha casa
No centro do ribeirão
Quero muita água limpa
Pra lavar meu coração
Minha casa não terá
Nem sábado nem domingo
Todo dia é dia santo
Todo dia é dia lindo
Todo dia é sexta-feira
Sexta-feira da paixão
Vou convidar o Alberico
Para o peixe com pirão
E dentro da minha casa
Nunca vai juntar poeira
Pelo meio dela passa
Uma enorme cachoeira
Quero água com fartura
Quero todo o riachão
Quero que no meu banheiro
Passe inteiro o ribeirão
Quero a casa em lugar alto
Ventilado e soalheiro
Quero da minha varanda
Contemplar o mundo inteiro
Vou fazer o meu retiro
Na grota do chororão
A minha casa será
Uma casa de oração
Vou me esquecer do pecado
Entrar em meditação
E não saio mais de casa
Só saio de rabecão
Vou entrar pra Academia
Vou comer muito feijão
E acordar à meia-noite
Pra vestir o meu fardão
Mas na minha Academia
Sem chazinho e sem garçom
Só entra Mário Quintana
Só entra Carlos Drummond
Que já chega de besteira
Já basta de decoreba
Que a cultura verdadeira
Tá na asa do jereba
Porque tem urubu-rei
E tem urubu-ministro
Dois de cabeça amarela
E um preto que registro
Registro neste debuxo
Os dois condores também
Embora urubus de luxo
Têm direito no além
Sob a axila christã
Neste sovaco christão
Vou fazer de telha-vã
A casa do Chapadão
Vou dormir meu sono velho
Neste sovaco do Christo
Vou comprar muito sossego
Vou regar o meu hibisco
Vou viver na minha casa
Vou viver com a minha gente
Vou viver vida comprida
Prá não morrer de repente
Vou contemplar grandes pedras
Vazio de compreensão
Vou esquecer o meu nome
No alto do Chapadão
Vou plantar um roseiral
Vou cheirar manjericão
Vou ser de novo menino
Vou comprar o meu caixão
E vou dormir dentro dele
Bem relax tranqüilão
Dormir de banho tomado
Já pronto para a extrema-unção
Vou fazer a minha casa
No alto do cemitério
Vou vestir a beca negra
E exercer o magistério
Vou vestir a roupa lenta
Que leva ao desconhecido
E eis que chego aos sessenta
Como um homem sem partido
Nesta passagem de vento
Nesta eterna viração
Vou fazer a minha casa
Com as pedras do ribeirão
Vou fazer a minha toca
No bico d’urubutinga
No pico da marambaia
Lá na ponta da restinga
Será no rastro das antas
Na trilha da sapateira
Que é pra onça do telhado
Cair dentro da fogueira
Que eu gosto de onça assada
Mas na brasa da lareira
Conversando ao pé do fogo
A conversa rotineira
Das queixadas dos macucos
Conversa pra noite inteira
Da memória das caçadas
Na floresta brasileira
Deste planalto central
Este projeto christão
A ninguém faltará teto
A ninguém faltará pão
Desta prancheta ideal
Na luminosa manhã
Dr. Lúcio faz o risco
Do projeto telha-vã
Nesta oficina serena
Carpintaria christã
Dr. Lúcio mais Oscar
No projeto telha-vã
Neste canteiro de obras
Onde manda mestre Adão
Os milhares de operários
Colocar as telhas vão
Neste desvão principal
Nesta branca e azul manhã
Vou erguer a minha casa
De vermelha telha-vã
Vou fazer a minha casa
No meio da confusão
Que o jereba se alevanta
No olho do furacão
Vou fazer a minha casa
Na asa d’urubu peba
Que casa só é segura
Feita em asa de jereba
Vai ser na vertente seca
Na virada da chapada
Onde o peba se suspende
Na fumaça da queimada
Não quero mais ter galinha
Vendo toda a capoeira
Vou mandar cortar o mato
E vender toda a madeira
Mas quem pôs fogo no mato ?
E espontânea a combustão ?
Esse fogo vem de longe
Esse fogo é de balão
Inda que mal lhe pergunte
Esse fósforo aí grandão
O compadre me desculpe
E só de acender balão ?
Vou botar fogo no mato
Comandar rebelião
Incendiar a floresta
Tacar fogo no sertão
E o urubu de queimada
Vai surgir na ocasião
Pra comer todas as cobras
Sapos ratos pois então !
Caracóis e lagartixas
e todos bichos do chão
Urubu santo lixeiro
Tu és da Comlurb então ?
Trabalhando o ano inteiro
Tem décimo terceiro não ?
Camiranga meu amigo
Obrigado meu irmão
Que limpa toda sujeira
Desse povo porcalhão
Q’inda por cima te xinga
De feioso e azarão
«Doação ilimitada
A uma eterna ingratidão»
E vou viver no deserto
Quero o ar puro do sertão
Não quero ninguém por perto
E nem que passe avião
Não pode ter venda perto
Nem estrada de caminhão
Não quero plantas nem bichos
Nem quero mulher mais não
Quero vestir meu pijama
Smith e Wesson na mão
Quero ler na minha cama
Papo-amarelo no chão
As histórias do corisco
Vividas nesse sertão
Que Sérgio Ricardo e Glauber
Cantavam ao violão
«Eu não sou passarinho
Prá viver lá na prisão
Não me entrego ao tenente
Nem me entrego ao capitão
Eu só me entrego na morte
De parabelum na mão»
Minha casa é por aí
E no mundo monde mondo
Que eu só durmo no sereno
Quem faz casa é marimbondo
Vou cerzir a minha asa
Na casa do Sylvio então
Pra voar que nem jereba
Bem longe do Chapadão
Vou vender o meu pandeiro
Vou levar meu violão
Favor mandar meu piano
De volta pro Canecão
Vou-me embora vou-me embora
Aqui não fico mais não
Adeus minha bela morena
Vou pegar meu avião
Adeus minha roxa morena
Minha índia tupiniquim
O meu amor por você
É eterno até o fim
Não quero partir chorando
Já tá tudo tão ruim
Não chore meu bem não chore
Não me deixes triste assim
Adeus minha moreninha
Não vá se esquecer de mim
Mas não vou ficar solteiro
Você pára de chorar
Que com a sobra do dinheiro
Mando logo te buscar
Avião papa jereba
Passa mal e cai no chão
Avião foge do peba
Peba derruba avião
Por favor seu urubu
Me deixe passar então
Não entre em minha turbina
Não derrube o avião
Eu já tô tão tristezinho
E tantos outros já estão
Não derrame meu uisquinho
Não abata o meu jatão
Vou-me embora desta terra
Meu desgosto não escondo
O afeto aqui se encerra
Quem faz casa é marimbondo
Vou-me embora vou-me embora
Você não me leve a mal
Se Deus quiser fevereiro
Venho ver o carnaval
E não quero mais ter casa
Precisa de casa não
Quem tem casa é marimbondo
Minha casa é o avião
Telefonei pro aeroporto
Não tinha avião mais não
Vou fazer minha viagem
Na asa do peba então
(Acho asa de jereba
Mais segura que avião)

Ao todo são 24 músicas, algumas com participações (Dorival Caymmi, Chico Buarque, Maucha Adnet, a própria Ana Jobim, Danilo Caymmi, Paulo Jobim e a pequena Maria Luiza, acompanhando o pai em Samba de Maria Luiza, além da célebre gravação de Garota de Ipanema com arranjo de Eumir Deodato e participação de Jerry Doggion (sax-alto), Ron Carter (baixo), Joe Farrel (flauta) acompanhando o piano de Tom. Nos extras, mais seis canções e dois poemas. Além de Águas de Março, uma verdadeira homenagem a Dorival Caymmi (Maracangalha, Saudades da Bahia, Suíte do Pescador e Maricotinha), uma lembrança de Bororó (Curare) e os poemas Chapadão e Oda a Rio de Janeiro, de Pablo Neruda.

“Na minha infância o Brasil tinha 30 milhões de habitantes, então era um país imenso e desabitado, cheio de florestas e animais selvagens.

Duermes em la desconocida primavera de uno planeta salvaje.

O Rio de Janeiro era completamente selvagem. E essa praia de Ipanema era linda, assim, a areia tão fina que quando você corria fazia “qui, qui, qui”, ela cantava, a areia, la arena cantava.

O Neruda disse que o Rio de Janeiro eres la puerta delirante de una casa vacia, el antigo pecado, la salamandra cruel intacta de los largos dolores de tu Pueblo. É bonito, né?” Tom Jobim

Narração de Ana Jobim

Comecei a fotografar o Tom logo que a gente se casou. Eu era encantada com as histórias que ele me contava sobre um tempo que eu não vivi. Me dei conta, mais tarde, que estava registrando uma outra história. Diferente daquelas, mas que também foi muito boa.

Enquanto o tempo tira, o tempo nos traz, cria uma perspectiva. Reedito fotos, textos e algumas gravações que fiz com ele na época da publicação do livro Ensaio Poético, 1987. É um material em vídeo que nunca foi usado, eu mesma não sabia bem o que fazer dele, é um experimento, uma tentativa de ir além da fotografia, de dar som e movimento à imagem. São registros de Tom em tempo real, o Tom em tempo presente.

“Esse negócio de entender de uma coisa, tem que amar. Quando você ama, isso cria uma capacidade. Você se interessa pela coisa, você começa a olhar.” Tom Jobim

As Casas

“O Drumond tem um verso maravilhoso que diz o seguinte: os senhores me desculpem mas devido ao adiantado da hora me sinto anterior a fronteiras. Quer dizer, anterior a fronteiras, porque essas frronteiras são fictícias, o sujeito bota lá uma cerca, bota um troço e urubu passa por cima.” Tom Jobim

Para Tom a casa era um templo, um lugar de concentração, no meio do burburinho doméstico. Mas casa é algo que não depende só de um endereço. Aliás, Tom era muito cobrado por não ter um endereço fixo, ou por ter vários endereços. Mas ele tinha as casas nas cidades e nos lugares onde se sentia bem: Poço Fundo, Rio de Janeiro e Nova York. Em casa, protegido e livre para criar.

Tom era um obcecado pela arquitetura de morar, cuidava de cada detalhe, manda os detalhes do interior mas da luz, da posição do sol, de dormir com a cabeça voltada para o Norte absoluto, da vista, da paisagem que gostava de contemplar.

Poço Fundo é uma reserva particular da Mata Atlântica. Sítio da família Jobim, a duas horas do Rio de Janeiro, em São José do Vale do Rio Preto, entre Petrópolis e Teresópolis. Fica no meio do mato, num vale fechado por onde passa um vento forte, que Tom apelidou de “Vento redondo”.

Em 1972, Tom encomendou o projeto de sua casa ao arquiteto Wilfred Cordeiro, seu amigo de infância, com as seguintes especificações: o sol da manhã devia bater nas janelas dos quartos; a parede sul devia ser cega, por causa do vento e das chuvas de verão; os quartos isolados do chão, para evitar umidade; telhas coloniais grandes em teto sem forró, pé-direito de sete metros de altura; degraus nas portas de entrada, para evitar cobras.

Lá ele passou a juventude, caçando com mateiros, conversando com os locais. Tom tinha enorme admiração pela sabedoria do homem simples, talvez por isso admirava tanto Guimarães Rosa, que conseguiu captar a riqueza da imaginação e palavreado do homem comum. Era um lugar de grande inspiração, o retiro da família. Cada um tinha sua casa, mas era tudo muito próximo. A gente se juntava nos almoços, jantares, que muitas vezes terminavam em cantoria.

Casa do Jardim Botânico. Enquanto a gente morava na Rua Peri, onde João nasceu, procurava terreno para construir uma casa. Encontramos um e Tom gostou logo. O terreno era muito bom, no lugar mais alto da rua.

Tom acompanhou de perto todos os detalhes de localização, bússola na mão o tempo todo. Sua grande preocupação era fazer uma casa descolada do chão. Exigiu que fosse dessa forma. A construção demorou quatro anos. Projeto de Paulo Jobim e Maria Elisa Costa.

Tom era a mesma pessoa em todos os lugares onde vivia. Em São José fazia churrasco, no Rio ia à padaria, em Nova York fazia supermercado e lavava louça.

Casa de Nova York

O Hotel Adams, entre Madison e 5a. Avenida, foi residência de Tom em Nova York até 1987. Os apartamentos eram bem grandes, com cozinha. Lá, cercado de dicionários, Tom escreveu a letra em inglês de Águas de Março, (Waters of March). Além de Falando de Amor e Você Vai Ver.

Em 1987, o Adms foi vendido. Fomos visitar o gerente do hotel e o porteiro disse: “Mr. Jobim, estão construindo um prédio aqui atrás. O senhor vai gostar”. E aí começou a procura do apartamento. Primeiro, escolhemos um que não tinha vista. Tom ficou resistente. Depois a corretora nos levou para visitar o 22° andar com uma vista linda. Era aquele aquário, “a view with the room”, como ele diria depois. Tom se encantou. O contador foi radicalmente contra, dizendo “O apartamento é caro e pequeno”.

Tom deu a palavra final: “Eu vou comprar este apartamento!”.

O que fez o contador comentar depois de efetivada a compra: “ah, ele tinha razão, vai ver que eu gosto mais de dinheiro do que ele”.

“Pra mim, Nova York tem sido… uma espécie de repouso, quer dizer, onde eu posso pensar, onde eu posso trabalhar no sentido de poder fazer o dever de casa. Porque o Rio é uma cidade muito linda e muito dissipante”. Tom Jobim

Quando a gente viajava em turnês, eu tinha dificuldade de tirar o Tom do hotel, ele não gostava de fazer turismo, de ir a lugares, ele gostava mesmo era de ficar em casa, sentado com os amigos em volta da mesa. Nova York era a única cidade do exterior onde ele se sentia totalmente à vontade. Para ele, parecia uma fazenda, onde curtia aqueles seres estranhos em quase total anonimato. Digo quase, porque ele acabava sendo reconhecido, e até gostava.

“Essas plantas selvagens só os mateiros descendentes de índios, assim como eu, podem comê-las. Porque muitas são venenosas… E a isso eu atribuo a minha incrível longevidade…” Tom Jobim

Pianos

Tom tinha um piano em cada casa.

Poço Fundo: um piano de armário

Jardim Botânico: no sótão, um piano de armário, onde compôs Garota de Ipanema

Jardim Botânico: na sala, um piano de cauda Yamaha

Nova York: piano de cauda Steinway

Em Casa

Tom era um homem absolutamente normal na vida doméstica. Nos últimos anos acordava muito cedo. Comprava pão, depois sentava ao piano e Luiza ficava desenhando. Ou passeavam juntos no Jardim Botânico.

Ele ia diariamente à churrascaria Plataforma (Muito amigo do italiano Alberico) onde tinha mesa cativa e reunir-se com amigos. Frequentava a padaria Século XX, a banca Piauí, a farmácia, o florista. Lá pelas 3 ou 4 horas da tarde voltava para casa e à noite sentava para compor.

Muitas vezes, acordava de madrugada e ficava ao piano.

Certa vez, um vizinho falou das noites de insônia em que ficava ouvindo Tom tocar só para ele.

Ele vivia a música, o presente, o trabalho, a repetição exaustiva até chegar ao acorde mais perfeito. No piano ele estava inteiro, absorto, sem palavras. As músicas vinham, algumas num instante, outras ao longo do tempo.

Tom repetia suas falas para quem quisesse ouvir, repetia muito, numa espécie de mantra: “deixa o mato crescer, deixa o índio, deixa…” São temas recorrentes: Passarim, água, pau, pedra… E urubu, por que não?

Sempre atendia ao telefone. As pessoas do outro lado da linha não acreditavam que era o Tom Jobim que estava atendendo.

Tom tinha essa capacidade de se manter amável, se interessar pelos outros, de demonstrar amizade, como se mantivesse uma pureza infantil, um espírito de companheirismo.

A Banda Nova era a continuação dos saraus que aconteciam espontaneamente em casa. Éramos todos ligados a ele: os filhos, os amigos, as mulheres dos amigos. As festas eram quase que ensaios. De repente ele cismava com uma música e ficávamos cantando a noite inteira.

Tom adorava tocar música de outros compositores. Se sentia realmente feliz e se dizia um excelente acompanhado.

Este filme virou um novo ensaio, onde junto minhas fotos, as cenas que gravamos no Rio, no sítio de Poço Fundo e em Nova York. E o longo poema Chapadão que ele burilou ao longo de oito anos. Deixava parado um tempo, depois voltava ao texto. É um poema autobiográfico, ou pelo menos uma biografia em versos desses oito anos que levou para ser escrito. Como também são uma biografia de quinze anos as fotos e os depoimentos que gravamos.

Referências:

http://portal.jobim.org/

Livreto A CASA DO TOM MUNDO, MONDE MUNDO

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