Esse post compõe um conjunto de outros relacionados ao XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema, que acontece em Salvador – BA. Segue abaixo as críticas de alguns dos filmes exibidos no dia 09/11, sobretudo aqueles que concorreram na Competitiva Nacional I.

COMPETITIVA NACIONAL I – 09/11

Curta metragem
Galeria F, Quando a chuva passa
A passagem do Cometa

Longa metragem
Pela Janela

Galeria F, Quando a chuva passa – Na ditadura militar, muitos presos políticos eram torturados e mortos na mão do exército brasileiro. Em 1970, na Bahia, os que sobreviviam eram transferidos para o complexo penitenciário Lemos Brito. Essa transferência significava que eles existiam, que eles estavam vivo.
Curta-metragem de caráter documental, de Henrique Dantas, Galeria F apresenta recursos imagéticos interessantes, mas se delimita a um espaço confinado, e pela ausência da exploração mais vasta dos recursos cinematográficos, acaba por se trancar na sua própria perspectiva. Seu roteiro é interessante, mas como muito do que é dito ao longo do filme é característico da fala dos próprios entrevistados, a dicotomia do discurso que associa a noção de liberdade com uma cadeia acaba sendo menos mérito do diretor e mais dos indivíduos que se predispuseram a contar suas histórias.

A fotografia é meio cinza, mas é intencionalmente aplicada assim, para que o enquadramento de cenas ao longo da cadeia, acabem por casar com as histórias de vida que estão sendo relatadas a todo momento. Algumas das falas são célebres, e tomei a liberdade de anotá-las, para que não se perca na história a percepção daquele momento.
“Você se sente muito forte. Na cadeia, você se sente forte. Ali tínhamos boas condições de vida. Era mais seguro do que lá fora. Nós eramos livres sendo presos.”
” Tínhamos uma biblioteca com 300 livros, e muitos deles Marxistas. Pros carcereiros o livro perigoso era o que tinha armas dentro, e eles revistavam-os. Mas eles não sabiam que a arma era o próprio conteúdo.”
” Na cadeia tudo era pago. Um capitalismo fracassado que chegou lá, mas tudo era sempre muito barato. Era o farelo do Sistema capitalista.”

A passagem do cometa – 1986. Na sala de espera de uma clínica de abortos clandestina, a recepcionista, uma paciente e uma acompanhante aguardam a passagem do cometa Halley, enquanto a médica enfrenta dificuldades com um dos procedimentos.
Direção de Juliana Rojas, o curta faz parte de um projeto maior, chamado O Sonho e o Tempo, que se propõe a construção de um curta com a introdução de músicas de mulheres brasileiras dos anos de 1930 até 2000. À Juliana coube a temática dos anos 80, período no qual a diretora viveu. Seu trabalho é extremamente bem executado, com uma câmera que corre segura nas cenas, utilizando de modo favorável a sua narrativa uma série de recursos imagéticos. Existe uma grande preocupação na transferência da atenção para a realidade por trás da tela, negando ao telespectador o direito de questionar a validez do enredo por exemplo, haja visto que não é trazida a problemática do aborto como um questionamento, e sim como apenas mais um fator recorrente na cena.

A fotografia é impecável, e associada a construção oitentista propiciada pelo figurino e pelo editor de arte, o resultado foi extremamente pontual. Além disso, é perceptível a presença de uma direção que zela pelo valor do feminino, e que constitui ao longo do discurso cinematográfico uma perspectiva muito próxima de uma noção empática, rodeada pela sororidade tão requisita em tempos atuais.
A diretora participou de um diálogo no final da sessão, e tocou, naturalmente, na compreensão social sobre o aborto, e também falou nos retrocessos, que ao seu ver, tem sido recorrentes na implementação das políticas do governo atual.

Pela Janela – O filme conta a história de Rosália, uma operária de 65 anos que dedicou a vida ao trabalho em um fábrica de reatores da periferia de São Paulo. Ela é demitida, e, deprimida, é consolada pelo irmão José, que resolve levá-la a Buenos Aires em uma viagem de carro. Na viagem, Rosália vê pela primeira vez um mundo desconhecido e distante de sua vida cotidiana, iniciando uma jornada de libertação e transformação interior.
Longa da estreante Caroline Leone, se propõe a evidenciar um momento de dificuldade encarado diante de uma mudança brusca na vida de uma mulher, Rosália, interpretada maravilhosamente pela atriz Magali Biff. O filme trabalha em cima de um enredo forte, baseado numa perspectiva de experimentação de uma nova realidade a uma mulher que sempre lidou com a mesma concepção da sua vida e da sua rotina.

A fotografia é leve, sem excessos ou chamariz para nenhuma das cenas ao longo do trabalho. A trilha sonora é quase ausente, sobretudo porque o filme se apropria muito da utilização da sonoplastia, dos recursos sonoros minuciosos captados para condicionar o telespectador as pequenezas da vida da personagem. Ainda que a direção comece sendo eficaz, ao longo da obra, por optar por uma linearidade muito característica, e pela existência de um roteiro que não propicia um desenvolvimento progressivo e forte da personagem, o filme acaba caindo na monotonia. Suas cenas são demasiadamente delongadas, e os conflitos internos, que poderiam ser muitíssimo bem trabalhados, acabam sendo jogados para escanteio, na tentativa do prevalecimento dessa narrativa mais morna, quase morta. O problema acaba por não se delimitar nessas nuances tão pacatas, mas acaba invadindo toda a atmosfera do filme, criando uma sentimento tedioso, e trazendo para o telespectador uma impressão (não resolvida), de que a obra se delonga em vazios. A trilha sonora deixa a desejar, e a ausência da introdução musical, a nível de pontualidade, corrobora ainda mais pro marasmo da obra, como se a mesma fosse um eterno estado de tensão entre o “quase” e o “feito”.
Dito isso, é preciso ressaltar que as analogias e metáforas aplicadas para representar o processo de desenvolvimento da psiquê dessa personagem foram muitíssimo bem aplicadas, e os enquadramentos não deixaram a desejar em nada. As atuações são impecáveis, e esse é sem sobre de dúvidas o ponto alto desse trabalho.

 

 

 

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Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.