Trilha sonora: This world is not my home | Fern Jones

“[…] a cidade é uma criação natural, e que o homem é por natureza uma animal social, e que é por natureza e não por mero acidente, não fizesse parte de cidade alguma, seria desprezível ou estaria acima da humanidade […]” – Aristóteles, A Política

Em uma de suas obras mais famosas, Aristóteles afirma que o homem, por natureza, é um animal social, um ser adaptado para o convívio e relações sociais. Talvez alguém deva sair espalhando essa notícia por aí.

Triiiim, triiiiiiim. O despertador toca anunciando o alvorecer de mais um dia. Também conhecido como eufemismo de: “Triiiiiiim,  triiiiiiim. O gongo toca anunciando o início de mais um round entre você e o mundo.”

Cada dia é um round e ao longo dos dias, alguns vão ficando pelo caminho, mas você continua talvez não tão firme, nem tão forte, mas continua. Continua apanhando sem nem mesmo saber o porquê, apanhando quando opina diferente dos outros, apanha quando alguém falta com educação ou respeito para você, apanha até mesmo quando o soco não é desferido em você, mas no seu próximo. Apanha quando vê injustiças, desrespeito, intolerância, quando vê o meio ambiente pedindo ajuda. E você continua nas cordas, tentando se segurar de alguma forma, torcendo pelo final do round, mas sem saber quantos rounds essa luta tem. Essa luta parece não terminar nunca.

Poster do filme 'Já não me sinto em casa nesse mundo'

Essa luta não é minha. Não fui eu que causei tudo isso. Mas mesmo assim sou eu que tenho que levar os socos e seguir em frente?! Já não me sinto em casa nesse mundo. Esse é o grande questionamento e o título do longa dirigido por Macon Blair que foi tão aclamado no festival de Sundance que acabou atraindo a atenção da Netflix que o adquiriu.

O filme conta com as grandes atuações de Melanie Lynskey (Ruth) e Elijah Wood (Tony) e traz à luz essa indignação dos humanos médios que vivem sua vida correta, fazendo o que é certo e vendo seres – de intelecto voltado para única e exclusivamente o benefício próprio que, erroneamente, se auto denominam seres humanos – se darem bem na vida.

O mundo está cada vez mais… ESQUISITO é a palavra. Um recado para os extraterrestres que porventura estejam lendo esse texto: esse mundo não me representa. É claro que nos indignamos com tudo isso, é claro que não nos sentimos satisfeitos com essa vida média e além disso ter que aguentar sermos pisados por seres superiores e magnânimos, como quem pisa em um estalinho só para ouví-lo estourar e se divertir. Indignai-vos, ó humanos! Lutai por seus direitos, lutai por sua liberdade, lutai por seu mundo.

Poster do filme 'Mãe!'

Mais recentemente, Aronofsky, em Mãe! no uso da metáfora para a bíblia e para o mundo em si, alerta para o rumo que estamos dando para o mundo, para a forma que tratamos nossa casa. Como ele afirmou em uma entrevista, o próprio título, com o ponto de exclamação, funciona como um grito de socorro, um grito de alerta para acordarmos enquanto o penhasco ainda não chegou.

” E dado que a condição do homem […] é uma condição de guerra de todos contra todos, sendo neste caso cada um governado por sua própria razão, e não havendo nada, de que possa lançar mão, que não possa servir-lhe de ajuda para a preservação de sua vida contra seus inimigos, segue-se daqui que numa tal condição todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo os corpos dos outros.” – Hobbes, Leviatã

Talvez o filme de Macon Blair não seja tão otimista com os seres humanos como Aristóteles ou até mesmo como Aronofsky, seguindo mais a linha de Hobbes, que acreditava no princípio do homem ser o lobo do homem. Todavia, até mesmo este acreditava em uma maneira de ultrapassar essas dificuldades quando o homem se abdicasse de parte de sua liberdade para que todos pudessem conviver em paz. Assim, também podemos ver um fio de esperança na humanidade através do longa, quando vemos que talvez nem todas pessoas sejam ruins. Talvez, assim como você e Ruth, existam outras milhares, até mesmo milhões de esquisitos e selvagens, conforme afirma Aristóteles, que não concordam com esse mundo e queiram apenas viver suas vidas e serem felizes. Não podemos deixar que todo o resto suje nossa fama para os extraterrestres.

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