Darren Aranofsky (12 de fevereiro de 1969) tem uma cinematografia relativamente curta quando comparada a outros diretores aclamados, uma vez que na totalidade, o mesmo tenha dirigido cerca de 7 filmes, tendo participado do processo produtivo de algumas outras obras na função de diretor, roteirista e até mesmo como ator. Nascido em Nova Iorque, Aranofsky deu início aos seus estudos sobre cinematografia na Universidade de Harvard, na qual se destacou entre os melhores alunos do instituto Franklin J. Schaffner.
Um dos seus primeiros trabalhos, PI (1998), foi custeado com a ajuda de doações de parentes e familiares, tendo o mesmo recebido cerca de 60 mil dólares como investimento, apresentando bons resultados posterior a isso com um faturamento de aproximadamente 3 milhões de dólares. Desde então, se dedicou como diretor em algumas obras, sendo Réquiem para um sonho (2001), Cisne Negro (2010) e Noé (2014), os seus três projetos mais aclamados, obtendo resultados altamente significativos em bilheteria, e críticas positivas que serviram para consolidar sua presença na indústria cinematográfica.

Cisne Negro (2010)

Quando se trata da sua direção, existem algumas características no seu estilo que podem ser facilmente pontuadas na grande maioria das obras em que o mesmo foi diretor, tendo ele mesmo em inúmeras vezes apontado as suas influências no cinema, que caminham de diretores como Akira Kurosawa até Roman Polansky e Terry Gilliam. Analisando o conjunto dos seus trabalhos, é perceptível a utilização recorrente do chamado “fast cutting” ou montagem hip-hop, que nada mais é que a constância de cortes pequenos ao invés do uso de planos longos, com o intuito de gerar uma atmosfera tanto de agitação quanto de caos. Além disso, é percebível a relação direta dos seus trabalhos com temáticas fortes, que fazem referências a coisas como a psiquê humana e suas atribulações individuais, e também à passagens bíblicas, que seria onde melhor precisamente se encaixaria Mãe!, ainda que o mesmo acabe por permear uma gama bem maior de temas, não se delimitando a alegorias religiosas.

Lançado nos Estados Unidos no dia 15 de setembro, e no Brasil no dia 21 do mesmo mês, Mãe! é o sétimo filme do diretor, e desde o lançamento foi aguardado que a obra ficasse em segundo lugar na bilheteria americana, contudo, os números de venda estão bem abaixo do imaginado, tendo o mesmo alcançado na semana de estréia, nos EUA, cerca de $7,5 milhões de dólares, o que é considerado muito baixo em comparação com outras produções.

Ignorando os resultados negativos de vendas, é preciso então falar do filme e da epifania visual que nos foi proporcionada por Aronofsky.
Tendo em seu elenco figuras como Jennifer Lawrence e Javier Barden, a obra se mostrou incontestável quanto as suas performances de atuação, evidenciando e concretizando ainda mais a tão ascendente carreira de Jennifer Lawrence, que já vem provando desde outros trabalhos sua capacidade invejável de interpretação, sendo que nesse, ela apresentou ao mundo o melhor do seu desempenho, servindo para estabelece-la como uma das mais eficazes atrizes de Hollywood, que assim como era de se esperar, é hoje a terceira atriz mais bem paga do cinema Norte Americano, depois de passar dois anos em primeiro lugar.

A história de Mãe! se passa numa casa isolada, num clima que inicialmente se propõe ao bucólico e completamente entregue ao isolamento, na qual habitam os dois protagonistas, que como não apresentam um nome em momento algum, iremos denomina-los de Ele e de Mãe, para facilitar o desenrolar da crítica.
Os dois personagens em questão são casados, e se mudaram recentemente para essa casa, que é apontada no filme como a antiga residência Dele, que havia sido incendiada um período atrás, mas que agora estava sendo restaurada de modo individual pela Mãe, sendo que ao longo de todo o enredo é perceptível o seu zelo descomunal para com o espaço, umas vez que ela desempenhou sozinha as tarefas relacionadas a toda estrutura, desde decoração até a edificação do mesmo. Ambos estavam indo para aquele lugar sob o pretexto de que Ele precisava produzir novamente os seus poemas, uma vez que o mesmo é escritor e estava passado por um período difícil em relação a sua produtividade, isso sem contar o laço emocional que havia para com o espaço, uma vez que foi lá em que Ele passou grande parte de sua vida.
Até esse ponto, o filme apresenta uma atmosfera um tanto quanto tensa, e a mesma é reforçada através de inúmeros acontecimentos que se dão, sobretudo envolvendo a personagem da Jennifer Lawrence com fenômenos um tanto quanto estranhos na casa, e também com a constante insinuação de que a personagem tem algum tipo de doença, tendo o diretor optado por mostrar isso através de picos de tontura que a personagem apresenta e do uso constante de um medicamento de coloração amarelada.
Ainda que tenso, o cenário permanece intacto, e isso é reforçado no silêncio presente, que passa uma ideia de tranquilidade e termina por servir também para potencializar a tensão.

Tudo muda no momento em que um personagem chega a residência, e Ele decide unilateralmente que será ao personagem oferecida a estadia no local, desconsiderando o incômodo da Mãe. Esse por sinal, é um ponto que volta ao longo de toda a narrativa, diante de todas as vezes em que Ele reafirma sua força como proprietário do lugar ao ser extremamente egoísta quando inviabiliza a vontade dela, ou pelo menos é isso que o diretor quer que entendamos.
Desde o instante em que o visitante se instala na casa deles, tudo começa a ganhar uma atmosfera completamente nova, sempre apontando o ambiente invasivo que surge para a mulher quando obrigada a lidar com a presença daquele estranho. Nesse ponto do filme já não é mais entendido pelo telespectador o que está acontecendo, ainda mais depois que Ele é complacente com o hóspede, e acaba se mostrando receptivo não só com o mesmo, como também com sua família que pouco a pouco chega no local.

A junção da família serve, inclusive, para que o público comece a supor o enredo da história, uma vez que é no encontro dos mesmos que se percebe uma alusão bíblica referente a história de Adão e Eva e de seus dois filhos Caim e Abel. Depois de uma discussão sobre a herança de família, os irmãos começam a se digladiar e em um ato enfurecido, um deles termina por ceifar a vida do seu irmão no meio de um cômodo da casa.
Mesmo diante do clima de conflito e desespero, Ele permanece voltado para si, condensado em sua paciência que beira o sempiternal, enquanto que Mãe, é mostrada em absoluto desespero com a situação, estando apavorada, incomodada e quase sufocada com a presença daquelas pessoas e com o episódio de fratricídio que acabou de se desenrolar.
A estadia do casal se prolonga ainda que com o incômodo da personagem, e é somente deles retirada a morada quando num gesto absurdamente impetuoso e invasivo, terminam por quebrar o cristal Dele, que desde o início do filme já havia mostrado o seu apego para com o mesmo.

Em relação a essa parte da história, é preciso evidenciar a complexidade da metáfora por trás da obra:
Logo no início do filme, a pedra aparece como uma espécie de simbologia para a criação, haja visto que no momento em que ela é colocada no suporte, toda a casa ganha vida e cor. Não aleatoriamente, o objeto fica guardado no escritório do personagem, compactuando assim para a significância da mesma como aquilo que é associado a criação, ao conhecimento, restringido-a a um espaço voltado para a palavra, para o verbo.
Através dessa figura metafórica, o diretor confere ao cristal uma associação direta com a maçã bíblica, que é apontada no texto judaico cristão como o motivo pelo qual Eva e Adão foram expulsos do paraíso, uma vez que ambos acabaram por usufruir daquilo que não era a eles pertencente, o conhecimento.

Depois da partida do casal, o clima que foi gerado em cenas anteriores acaba por se perpetuar, servindo como ferramenta para apresentar ao telespectador a inconstância de opiniões e perspectivas entre Ele e Mãe.
Diante desse momento de conturbação, no meio da crise e do confronto, os personagens principais acabam por transar, e é sobretudo nesse take que é possível perceber a forma que o sexo é compreendido e tratado, tendo o mesmo se configurado no contexto de fúria e desentendimento, equivalendo inevitavelmente a tensão sexual com uma percepção mais mundana do mesmo, reduzida a uma realidade mais bruta e distanciada, em todo o filme, de uma compreensão mais amorosa e/ou sensível do ato.
Ainda que seja representado de um modo tão pontual, com uma cena curta que não trouxe muito além do entendimento da perspectiva sexual naquele contexto, o mesmo acabou sendo necessário para que logo depois fosse implementado um novo elemento na história: a gravidez de Mãe.


A gravidez da personagem nasce para dar continuidade ao discurso bíblico gerado desde o início, e é justamente decorrente desse acontecido que Ele acaba tendo um momento de absoluta epifania, produzindo de um jeito que beira o desesperador o texto que tão almejava. Nesse ato de total entrega a palavra, o diretor sementou na cabeça do público, a ideia do nascimento de um filho, no caso, o filho Dele, como a simbologia do ápice da abertura daquele espaço e daquela casa.
Com a realização do texto tão esperado em mãos, o mundo começou a progressivamente voltar a atenção para o escritor, de tal maneira que nas cenas seguintes o que se observa é o surgimento de uma aglomeração de proporções inacreditáveis na residência do mesmo, e o clima, que já não era de um todo tão agradável, começa a se tornar ainda mais sufocante, desesperador, e completamente inesperado.
A partir desse ponto, se faz necessária a percepção completa da analogia aplicada:

• Ele, figura associada a escrita, depois de um período de absoluta reclusão em sua casa, termina por receber a notícia de que espera um filho, e com isso acaba por alcançar a produtividade esperada, lançando ao mundo novamente a sua palavra, o verbo.
Nessa passagem é clara a correlação entre o momento vivido pelo personagem e pela figura bíblica de Deus, que aparece inicialmente no Velho Testamento, mas que se distancia durante um longo período das escrituras (Período Negro ou Os Anos silenciosos), abandonando a compreensão mundana de suas palavras. A literatura cristã só aponta então a volta da figura divina a partir do nascimento do seu filho, que acaba sendo o motivo para o surgimento do Novo testamento. 

• Quando de volta ao seu momento de exposição, o personagem se vê rodeado de fãs que os seguiam, e a sua casa passa então a receber amontoados significativos de pessoas, tendo todas elas ido de encontro ao mesmo com um único propósito: comungar da sua palavra.
Na literatura cristã, o nascimento de Jesus serve não somente para fomentar a presença de uma figura divina na terra, mas também para alavancar a proximidade dos homens para com a religião, demonstrando através de inúmeras passagens que o simples retorno da palavra de Deus e da possibilidade de que seu filho estivesse na terra, já foi mais do que suficiente para agitar multidões, fazendo com que mais e mais pessoas comungassem com a palavra do senhor. 

No filme, a dispersão da palavra Dele é tão gritante, que o conjunto de indivíduos que começam a chegar cria um contexto que é, sem sombra de dúvidas, inimaginável para qualquer pessoa que esteja assistindo ao mesmo. Pouco a pouco, esses grupos de pessoas que se aglomeravam, começaram a apresentar comportamentos muito característicos, uma vez que Ele já não mais significava somente a figura de um escritor, mas sim de um ser divino, que havia criado a sua obra com o intuito de dividi-la com o mundo, sendo o mesmo cultuado de um jeito obsessivo. Nesse instante, Aranofsky e sua equipe conseguiram desenvolver um cenário completamente surreal. Era possível observar que o clima que se constituíra era completamente perturbador, com guerras se passando na parte interna da casa, pessoas matando e sendo mortas em nome da palavra Dele, e um mundo visualmente remodulado onde o ambiente que antes se apresentava como bucólico, agora já ultrapassava os limites do caótico.

Ao decorrer desse momento cinematográfico onde a casa já não mais se constitui como o mesmo local que Mãe havia criado e desenvolvido com zelo e apreço, a mesma se mostra em completo surto, desacreditada das coisas que acontecem diante dela, percebendo de um jeito quase simbiótico, tudo aquilo que reverbera ao longo da casa. Mesmo em um estado de nervos gritante, Ele nunca se mostrou compadecido com os incômodos dela, principalmente porque na sua percepção individual (ou talvez ampla), todos aqueles que buscavam a sua palavra eram dignos daquele espaço.

Depois de minutos angustiantes que se passam, a calmaria volta novamente ao filme quando Mãe acaba dando a luz ao seu filho no meio daquele ambiente perturbador, e em estado de irrequietude, pede ao marido que afaste todas aquelas pessoas do local, gesto esse que ele parece acatar, mas que ao longo da narrativa é perceptível de que não é exatamente o que acontece.
O culminar do filme é trágico, e não é concedido ao telespectador a chance de resguardar para si uma noção menos perturbadora da história, porque tudo que ela engloba e representa, é por origem perturbador.

Aranofsky já se mostrou eficaz e pontual quanto ao seu trabalho em inúmeras outras grandes obras, mas em Mãe!, o diretor se projeta para uma compreensão muito além do esperado pelo público que o acompanhava. Não é somente por demonstrar eficácia no desenvolver do projeto, mas sobretudo por ser permissivo com a insanidade, com uma configuração realística que nos é tão próxima (através da religião), mas tão distante do nosso olhar humanizado social. Ao optar por materializar uma leitura tão voraz, ele trouxe consigo o peso da interpretação literal, e expôs quase que de maneira forçosa, uma percepção dura e cruel apresentada pela bíblia, colocando por consequência a sua própria reputação a mercê dos olhares religiosos e dos críticos superficiais.
Além disso, muito maior do que a simplória tentativa de representar uma história já existente, foi a sua capacidade de configurar a mesma através de alegorias e metáforas que foram trabalhadas através do uso de recursos cinematográficos, o que termina por viabilizar um entendimento de que Aranofsky, além de um diretor de capacidade exímia, é também um homem mergulhado em criatividade e inventividade, características cruciais para a delimitação da sua presença no cinema mundial.

– Por que assistir Mãe! ? 
Além das duas mil palavras dedicadas acima, o filme ainda culmina com um final surpreendente, carregado de significância e de complexidade, que vai corroborar de um jeito voraz para que toda e qualquer pessoa que se aventure ao cinema, possa sair do mesmo em um estado de completo questionamento e incerteza tanto sobre a mensagem passada pela obra, quanto pela percepção individual da religiosidade e do mundo em sua totalidade.

 

 

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.
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