– Nós podemos partir

Escrito e dirigido por David Lowery, A Ghost Story é uma revisão do conceito de instante, o tempo é representado não como um rio que corre, mas como uma lagoa silenciosa, onde o futuro, o presente e o passado formam uma entidade só, dependentes entre si.

Uma marca na madeira coberta de tinta; a memória de um caderno vazio refletido no papel escrito. Um bilhete de pêsames jogado no lixo, a violência do futuro contra o passado.

Construído sobre uma trama simples, o enredo é a constatação de que não somos presente senão pelo passado imaginado e pelo futuro desejado.

Casey Affleck e Rooney Mara formam o casal que foi separado por um acidente, o que caminhava para uma história dramática sobre o luto vai gradativamente ganhando camadas, até que chega um momento onde o público é amarrado na cadeira.

Um adulto vestido de fantasma assombrando a si mesmo. Atordoante pressão exercida pelo universo imune ao relógio, todos os dias da vida condensados em uma música pelos fones de ouvido.

Todo o potencial filosófico do roteiro está presente na fotografia. Os takes distantes ampliam a sensação de abandono, a iluminação difusa e fria é uma característica em filmes Indie e funciona muito bem aqui. O trabalho de montagem é impecável, a forma como a passagem do tempo foi feita causa estranheza e deslumbre na medida certa e nos momentos certos.

A trilha sonora é o elemento final que embrulha o filme todo em um pacote coeso, sensível e marcante, você pode detestar o filme por milhares de motivos – “é chato, é silencioso, não é o que eu esperava” – mas você jamais vai poder acusa-lo de ser mal feito.

A Ghost Story é um filme que você não vai gostar, talvez ele te deixe irritado, talvez você fique com raiva dessa crítica e tudo isso pode ser verdade, a única coisa que A Ghost Story não consegue ser é esquecível, ele não consegue ser só mais um filme e se você assistiu já sabe o porquê.

Estudante de jornalismo, escrevo por compulsão e vejo filmes pelo mesmo motivo, às vezes é o contrário. Me arrisco em curtas metragens, até já me deixaram gritar "corta" e me chamaram de diretor em um set de filmagem, vai entender.
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