O ser humano que não nasceu em berço de ouro tende a seguir o caminho mais comum da vida: nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar, trabalhar, ter filhos, trabalhar, envelhercer, trabalhar e morrer. Ainda estamos na hipótese de que, qualquer pessoa consiga seguir isto, tendo em vista os problemas sociais (isso já seria outra discussão).
E quando os problemas financeiros são tantos que você cansa de ser bonzinho? Cansa de ver sua família passando por apuros, simplesmente por não ser afortunado de grana? Pessoas boas optam em seguir o ilegal. E o ilegal é lucrativo. Na história mais recente das produções audiovisuais, esta premissa foi explorada de maneira genial na aclamada série Breaking Bad, criada por Vince Gilligan. Nela, um excelente químico descobre que tem câncer e começa a fabricar metafentamina para garantir o futuro da família.

E chegamos em Ozark, série original Netflix que acompanha Marty Byrde (Jason Bateman), um competente consultor financeiro que decide lavar dinheiro para “o segundo maior cartel mexicano” afim de dar maior conforto para sua família. Parecido o roteiro de ambas, certo? Sim, porém Ozark vai na contramão do que foi retratrado em Breaking Bad.

Nela, Marty e Wendy (Laura Linney) são obrigados a mudar de Chicago para a região do lago Ozarks, no Missouri, com o objetivo de salvar toda a família depois de uma grande desavença com o cartel. Nesta pequena cidade Marty continuará a lavar dinheiro e precisará enfrentar todo tipo de perigo que uma família novata aparentemente rica pode sofrer aos olhos da população local.

Ozark

Ozark não perde tempo com detalhes. No primeiro episódio tudo está estabelecido, todo perigo está exposto e a cumplicidade do casal Marty e Wendy fica evidente, inclusive lutando contra traumas recentes no relacionamento. Após a mudança de cidade, os filhos começam a questioná-los sobre as atividades suspeitas, até que tudo fica claro e todos são envolvidos no grande jogo de gato e rato.
Sabe quando você tem um problema e desse problema derivam-se mais dois? E destes dois mais quatro, e destes quatro mais oito e assim por diante? É exatamente isto que acontece ao longo dos 10 episódios. Não existe tempo para otimismo. Ozark tem um narrativa tão destrutiva que, provavelmente você chegará em algum episódio roendo as unhas se perguntando: “como ele vai resolver isso? Ferrou!”
É perceptível também o egocentrismo absoluto do protagonista. Assim como Walter White era soberano no que fazia e tinha autocontrole sobre as ações, Marty segue exatamente isso. Resolver um grande problema parece ser um auto-desafio constante para provar que sua capacidade está acima dos demais. E isto só é deixado um pouco de lado quando a segurança da sua família é ameaçada.

As subtramas se encaixam de maneira coesa. Exemplos: o policial obcecado pelo trabalho, a rejeição dos filhos de Marty e Wendy em um novo ambiente, a família gangster caipira que planeja roubar Marty, o pastor que prega dentro de um barco, o cartel que silenciosamente ameaça todos. Tudo acontece ao mesmo tempo sem te deixar perdido.
Todo o elenco está ótimo. Jason Bateman (que além de produtor, dirige quatro episódios com maestria) transparece o cinismo absurdo que o personagem Marty precisa. Laura Linney é uma ÓTIMA atriz e aqui ela faz o de sempre, com muita firmeza. Os filhos do casal são interpretados pela atriz Sofia Hublitz (Charlotte) e o pequeno ator Skylar Gaertner dá um show como o pequeno Jonah (fiquem ligados nos trabalhos deste garoto no futuro).
O núcleo de apoio ainda tem Julia Garner (Ruth Langmore), Esai Morales (Del), Jason Butler Harner (Roy Petty).
Tecnicamente não existe nenhuma inovação para o gênero (como Breaking Bad fez ao colocar câmeras em lugares inusitados). A cinematografia é competente com os planos quase sempre abertos mostrando muita informação, quase não tem close-ups e a paleta de cores é totalmente azul/cinza, dada a frieza e tristeza que a trama pede.

Posso afirmar que Ozark é uma jornada de desconstrução do ser humano. É um relato da linha tênue entre a tentação de ganhar muito dinheiro e de perder completamente a paz, para sempre. É a prova de que toda pessoa precisa se auto desafiar constantemente afim de parecer realmente viva, ainda que estes desafios destruam completamente sua vida mediana que outrora possuia.

A Netflix acerta mais uma vez nesta produção original, e sem perder tempo já anunciou que Ozark retorna para a segunda temporada.
Se continuarmos com a coragem narrativa, as ótimas interpretações e um gancho bem construído para a história, poderemos seguir Ozark por alguns anos.
A comparação com Breaking Bad é inevitável e vocês poderão notar claramente (não quis falar muito sobre isso, pois o texto ficaria extenso e monótono). Entretanto seria injusto colocar Ozark apenas como uma cópia. Ela tem identidade e com certeza caminha com as próprias pernas.

 

 

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Formado em produção audiovisual, fotógrafo, e idealizador de videoclipes musicais quando o tempo permite. Amante da sétima arte, defensor do cinema nacional e apreciador de uma cerveja gelada. Não gosto de fazer lista de diretores favoritos e sim de filmes: Trilogia do Anel, Cidade de Deus, Forrest Gump, O Rei Leão, O Menino e o Mundo... e por aí vai.