Uma das maiores séries da atualidade chegará ao fim nesse domingo (13/08). Estamos falando, é claro, de Orphan Black, a premiada produção da BBC criada por Graeme Manson e John Fawcett que está chegando ao fim após 4 anos no ar e 5 temporadas.

A série deixa para trás um legado quase inoxidável de qualidade em todos os aspectos possíveis, com críticas quase exclusivamente positivas, tanto de especialistas quanto da audiência em geral. Elogios nesse caso são compreensíveis e merecidos, mas não deviam ser a única palavra dirigida à obra, que ao longo dos anos apresentou diversos problemas que, admitamos ou não, prejudicaram a experiência de muitos de nós, fãs.

-Decisões administrativas, como a aquisição dos direitos exclusivos de distribuição pela Netflix são assunto para outro dia. Vamos discutir a parte artística da coisa.

Primeiro algumas coisas boas…

Antes de falarmos mal falemos bem, porque tenho muito carinho por Orphan Black, apesar dos pesares. Vamos nos situar a respeito da série:

Orphan Black, a princípio, conta a história de Sarah Manning, que presencia o suicídio de uma mulher idêntica a ela mesma em uma estação de trem e decide investigar por conta própria, eventualmente assumindo sua vida, em busca de dinheiro para fugir do país com a filha. Não demora até que ela descubra outras mulheres que compartilham sua aparência e que todas são frutos de clonagem humana, de origem até então desconhecida.

Enredo inovador

Talvez pela breve descrição dada nessa matéria isso não tenha ficado claro, mas o conceito da série é inovador. Num meio em que todas as histórias giram em torno de personagens unidimensionais com rumos previsíveis, uma história tão sombria e misteriosa quanto a de Orphan Black é muito bem vinda. A falta de esclarecimento sobre o que diabos está acontecendo paira tanto sobre a protagonista quanto sobre o público e é muito bem conduzida até certo ponto.

O brilhantismo de Tatiana Maslany

Você pode elogiar o que quiser. Pode falar que a fotografia da série é excelente (e é mesmo), que a trilha sonora é ótima ou que as locações são perfeitas. No fim do dia, o grande trunfo da produção ainda será a performance da atriz principal, Tatiana Maslany. A moça interpretou 11 personagens diferentes e recebeu diversos prêmios (incluindo um Emmy) pelo seu trabalho, que beira o inacreditável.

Cada uma das clones se comporta de um jeito totalmente particular e crível. Cada uma fala de um jeito, cada uma chora de um jeito, cada uma ri de um jeito, cada uma beija de um jeito. Chega ao ponto de podermos reconhecê-las apenas pela voz e pensar que, de fato, são mais de uma pessoa (eu ainda tenho minhas dúvidas). Essa é a parte mais fundamental da jornada: a grande quantidade e diversidade dessas personagens, que interagem entre si e são trazidas à carne por apenas uma pessoa. Pessoa essa que é capaz até de mesclar as personagens, quando uma precisa se passar pela outra para cumprir algum objetivo (como mostra o vídeo abaixo), algo divertido de se ver, como sabem os roteiristas, que não deixariam as oportunidades de fazer isso passarem.

Os olhos de uma, o sotaque da outra.

Então qual é o problema?

São alguns, na verdade. Difíceis de se ignorar quando você pensa a respeito.

Quantidade e tempo dos episódios

O enredo de Orphan Black pode se provar bastante complexo e ramificado, mas tudo bem, porque no final das contas tudo vai ficar claro, certo? Bom, não exatamente. Com apenas 10 episódios por temporada e 40 minutos por episódio, é praticamente impossível estabelecer, desenvolver e concluir um arco bom e claro para todos os personagens da série.

A sutileza da exposição é sacrificada para que os acontecimentos possam avançar. Isso gera alguns momentos bem desconfortáveis e diálogos robóticos, que destoam do tom que está tentando se estabelecer. Reveja alguns episódios e preste atenção ao começo: Algum personagem sempre vai, com todas as palavras, narrar os acontecimentos do episódio anterior em uma conversa com outro personagem. Não há tempo para nos mostrar o que está acontecendo, então é preciso dizê-lo o mais rápido possível.

 

Só o básico

A complexidade da história contada em Orphan Black não cabe na duração dos episódios. “Não entendeu nada do que aconteceu? Tudo bem, já já vai acontecer algo mais interessante e você pode esquecer o que viu até aqui…”

“A história se repete…”

Desde os primeiros episódios da série fica claro que tem gente importante envolvida no que está acontecendo. Isso é óbvio, não se clonam humanos no quintal de casa, alguém muito poderoso, influente e rico está por trás da própria existência das irmãs. A revelação de quem era essa pessoa ou grupo era um dos momentos mais aguardados pelos fãs.

E assim foi feito, descobrimos sobre a Neolução e o Dr. Aldous Leekie. “Uau, então era ele o tempo todo?” Não, ele era controlado por alguém ainda mais poderoso. “Poxa, que reviravolta bacana!” Pois é, só espera até ela se repetir, literalmente, 3 vezes ao longo dos anos.

Em todas as temporadas o alto escalão previamente estabelecido é desconstruído e um ainda mais alto é estabelecido. É um rumo interessante para a narrativa, sim, mas depois da segunda vez que aconteceu deixou de ser surpreendente e fez com que o público se sentisse feito de bobo. Durante 4 anos o enredo limitou a si mesmo. Poderiam ter sido exploradas diversas outras possibilidades, mas ao invés disso, as temporadas formam uma escada para o nível de influência dos vilões.

Ética?

Como dito anteriormente, a duração das temporadas prejudica diretamente o desenrolar claro da história. Tratam-se de clones que raramente questionam suas identidades, mesmo rodeadas de cópias de si mesmas, e cientistas implacáveis que nunca parecem duvidar que o que estão fazendo é certo.

O roteiro flutua na ética e moral, especialmente na quarta temporada, mas novamente é diluído pelo tempo e impedido de se aprofundar em qualquer questão apresentada. Vamos gente, se questionem, pensem. Não finjam que andar por aí com várias de si é algo completamente confortável. Se você viu a série, nem é preciso dizer o que aconteceu com a única personagem que questionou o que estava acontecendo…

Virou novela

Há muito tempo o roteiro tem perdido coragem em virtude de momentos fofinhos ou de humor, transformando algumas personagens em monstrinhos de estimação ou até mesmo as ressuscitando sem motivos aparentes no arco principal da história, apenas para cumprir as metas paralelas da trama, como romances, por exemplo. O enredo foi de chocante a piegas em doses homeopáticas, sem que o público reagisse ou sequer percebesse até que a besteira estivesse feita.

Lembra quando ela era uma assassina inescrupulosa? Eu também não.

E por fim, Kira

A filha da protagonista é interpretada por Skyler Wexler, uma garota que além de não se parecer com ela, é incapaz de atuar. Se torna doloroso de assistir a uma criança tão deslocada contracenando com uma atriz tão engajada emocionalmente em seu papel. O contraste que surge quando ambas se encontram é gritante e capaz de quebrar a imersão construída ao longo dos episódios.

bleh

Esse problema seria facilmente evitado se os responsáveis pelo elenco tivessem escolhido para o papel de Kira a atriz Cynthia Galant, que interpreta as órfãs quando criança. Mas tudo bem, não faz sentido culpar as pequenas atrizes por isso.

No fim das contas, por mais que a série nos tenha presenteado com a atuação da atriz canadense Tatiana Maslany em suas diversas e amáveis personagens, e alguns bons momentos de suspense, é impossível ignorar a sensação de que Orphan Black sempre esteve fadada a ser uma sombra de seu verdadeiro potencial, tanto técnico quanto filosófico. Tudo é apresentado, algumas coisas são desenvolvidas e quase nada é aprofundado. Tudo isso, infelizmente, em uma série com um leque de possibilidades para discussões e reflexões individuais. O que não sabemos (e talvez nunca saberemos) é se isso se deve a más decisões ou à compreensível necessidade de atingir um público maior. Ou os dois.

 

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