A Monster Calls é o excelente filme que foi lançado em janeiro de 2017 no Brasil com o nome de “sete minutos depois da meia noite”. O filme é baseado no livro de mesmo nome escrito por Patrick Ness (ironicamente no Brasil o livro levava o título de “O chamado do monstro” antes do lançamento do filme, após, claro, ele foi mudado).

O A Monster Calls conta a história de Connor O’Malley, o garoto de doze anos e a sua luta particular para compreender que sua mãe sofre de câncer e em que isso implica

A tensão da trama gira em torno do menino que precisa assimilar todas as nuances e transformações que ocorrem na sua vida conduzidas pela doença que ataca a sua mãe, ele ainda deve perceber como isso se desenvolve através dos outros membros da sua família.

Connor é o único filho de um casamento desfeito, seu pai mora nos Estados Unidos com a nova esposa e uma filinha, sua vô é essencialmente rígida e a relação entre eles é problemática, o impacto de todas estas forças sobre a personalidade do menino ditará toda a estrutura psicológica do filme.

O filme toma rumos de fantasia quando o menino passa a receber a visita de um monstro gigantesco que propõe a ele verdadeiros exercícios filosóficos, à partir deste momento torna-se óbvio que a enormidade e a monstruosidade da criatura são reflexos diretos da questão que o garoto precisa absorver.

As cenas são de saudade e o ritmo do filme é lento como a espera, todo a construção dos diálogos e a forma como o roteiro foi estabelecido tornam o filme uma espécie de ampulheta do inevitável, é evidente o que está acontecendo e o público sente o gosto do momento final desde as primeiras cenas, contudo, assim como acontece com o garoto, as horas passam e a angústia se mistura com esperança o que torna toda a espera um exercício de força.

O roteiro assume dois aspectos distintos que estão muito bem trabalhados, a vida real do garoto e a sua vida na presença do monstro, nestes momentos o filme me lembrou o incrível “O Labirinto do Fauno” onde uma criança também deve compreender as dificuldades de uma realidade absurda através da fantasia, será que todos nós não estaríamos fazendo isso agora mesmo? Tentando absorver nossos problemas através das nossas fantasias particulares?

Adaptado do livro com mesmo nome o filme é uma excelente experiência de reflexão, existe tristeza e saudade nas suas cenas mas também existe o conforto da compreensão.
Longe de ser perfeito o menino O’Malley lida com toda sorte de situações adversas das maneiras mais humanas e angustiantes possíveis, seus sentimentos surgem das entranhas e a voracidade da sua infância deformada pela esquisitice do acaso torna a experiência de assistir o “A Monster Calls” enormemente familiar.

Existem assuntos sérios que nós devemos tratar, problemas que alguns já encararam e que outros ainda deverão encarar no futuro, em A monster Calls é possível lidar com estas situações através da sua história bem estruturada, o filme conta com doses certas de ternura e de crueldade para nos fazer pensar sobre estes problemas.

Para quem conhece o livro é importante saber que o roteiro foi elaborado pelo próprio Patrick Ness o que torna a experiência do filme muito mais completa.
O mais comum quando um livro é transformado em filme é acharmos que o trabalho do filme é apenas traduzir as palavras em imagens para que os preguiçosos não tenham trabalho de procurar o livro, nada poderia estar mais longe da verdade e “A Monster Calls” é uma boa prova disso.

O filme e o livro se completam e estabelecem relações entre si

É bem verdade que muitas das cenas chave encontradas no livro também estão presentes no filme basicamente na mesma estrutura e na mesma sequência, contudo, a transformação psicológica das personagens e o grau de profundidade são absolutamente diferentes, como devem ser, então para os leitores desse rápido e pequeno livro que estiverem procurando apenas uma transcrição rápida do papel para a tela saibam estarão se enganando.

O diretor é J.A.Bayona, conhecido pelo filme de 2012 “O Impossível” que conta a história do Tsunami que atingiu a Tailândia em 2004.

Na equipe de atores estão; Lews Macdogall no papel do menino Connor, Sigourner Weaver (conhecida por diversos filmes da franquia Alien, além de Avatar entre outros) interpreta a avô, o pai é interpretado por Toby Kebbell (Planeta dos Macacos, Kong, Bem-Hur) e a mãe é interpretada por Felicity Jones (Star Wars Rogue One, A Teoria de Tudo).
O destaque fica para o papel de Liam Neeson (Silêncio, Batman Begins) o ator é quem da voz a criatura.

A monster calls é um filme bem escrito e bem dirigido, a cinematografia é competente e o silêncio bem posicionado da trilha sonora ajuda a manter o filme em constante espera, é como estar no corredor de um hospital aguardando notícias de um ente querido.
Por tratarem de um tema tão complexo e familiar tanto o filme quanto o livro merecem a nossa atenção, é preciso encarar, mesmo que seja através do espelho da tela, os nossos monstros interiores.

Estudante de jornalismo, escrevo por compulsão e vejo filmes pelo mesmo motivo, às vezes é o contrário. Me arrisco em curtas metragens, até já me deixaram gritar "corta" e me chamaram de diretor em um set de filmagem, vai entender.
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