Entrevista | Marcelo Willer, produtor do filme Red Trees

Como a nossa geração consegue se conectar com um passado tão diferente e até alienígena?

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Documentário sobre o extermínio Nazista em Praga e com reflexões sobre o nosso cotidiano, Red Trees vai ao ar no circuito alternativo de cinemas pelo Brasil. Nós tivemos a oportunidade de conversar com um dos produtores (irmão da Diretora e filho do protagonista do documentário) Marcelo Willer falou conosco sobre os diálogos entre esse filme e a geração dos filmes de heróis.

Conversei com o Marcelo em um cafézinho muito simpático localizado dentro do cinema onde a cabine de imprensa foi organizada:

Vinicios/Cinerama: Marcelo, faço parte da equipe do Cinerama e o nosso público tende a ser mais novo, entre 15 e 25 anos. Como cobrimos filmes de heróis e cultura pop, eles acabam abraçando esse cenário de vilão x mocinho, como você acha que o documentário pode conversar com esse público?

Marcelo: Eu acredito que o tema do documentário seja sobre a intolerância. E a intolerância é um tema bem atual. O que no passado era incorporada no Nazismo e outros movimentos, hoje ela está na forma do Brexit, do muro do Trump, etc.

Nós tínhamos as imagens do meu pai e quando começou essa onda, essa guinada de intolerância pelo mundo, foi quando nós pensamos “Opa, tá na hora de usar isso aqui e fazer algo que fale com eles”. Pois, o filme não é para falar sobre as dores do meu pai ou da minha família, sabe, não é olhar para o próprio umbigo, mas sim para demonstrar como as coisas acontecem e aconteceram.

A nova geração nasceu com uma perspectiva de que, por exemplo, você pode nascer no Brasil, estudar nos Estados Unidos e ir trabalhar na Europa. Se nada for feito, isso vai acabar. Pois agora existe o Brexit, existe o Trump com suas políticas, enfim.

O mundo está se fechando, fechando portas por todos os lados e acho que antes de falar apenas de nós mesmos é demonstrar como é um mundo de portas e janelas fechadas. A nova geração sabe intelectualmente como é, mas não internalizou, ela não internalizou o que é a censura, o que é a perseguição. Ela sabe como é de um modo abstrato, cabe a nós conversarmos sobre isso para tentar explicar um pouco mais.

Vinicios/Cinerama: Eu notei que a vida deles já era muito mais limitada se comparada a nossa. Quero dizer, eles trabalhavam em uma fábrica, e moravam em casas dá fábrica, compravam em mercadinhos também dá fábrica. Ou seja, a vida era aquele pequeno círculo.

Marcelo: Exatamente, como você viu no documentário. O meu  vô, ou seja, pai do meu pai, sobreviveu graças a fórmula que ele tinha para garantir que a fábrica continuasse trabalhando. Era aquele pedaço de papel que garantia uma vida para ele. Os Nazistas afastaram os judeus da fábrica, e como você disse, isso significava perder toda a vida. Mas, de tempos em tempos as máquinas paravam de funcionar, então ia o meu vô ia lá e arrumava. E assim por diante… quero dizer. É algo que talvez escape a nós hoje em dia, entender como era essa vida completamente voltada para uma fábrica.

É muito incrível o que as pessoas dessa geração passaram. Existe um elemento surreal. Quer dizer, para a morte do Governador de Praga (referência ao Açougueiro de Praga, responsável Nazista).Existiu um plano inventivo e arriscado. Tem um filme chamado Operação Antropoide que conta essa história, é incrível. Então, acho que o Documentário também fala disso, sobre essa vida no passado e como, apesar dela encontrar ecos nas nossas atitudes, ela era fantástica.

Vinicios/Cinerama: No filme você fala que o seu pai dizia “conhecer outros idiomas é como conhecer outras camadas de si mesmo”. Queria que você falasse um pouco sobre isso, será que esse é o nosso caminho, para vencer esses muros?

Marcelo: É exatamente isso. Se a gente puder ser mais internacional e menos tacanho, menos bairrista. Esse é certamente é um dos caminhos.

Muitos dos nossos conflitos são artificiais, você coloca os Estados Unidos contra o México, sendo que 40% de algumas cidades americanas são compostas por mexicanos. Quer dizer, é encontrar os fatores de link entre nós e não o que nos separa.

Vinicios/Cinerama: Marcelo, se a mensagem do filme pudesse ser condensada em apenas uma mensagem. Uma mensagem para esse público mais jovem, acostumado com filmes rápidos. Qual seria essa mensagem?

Marcelo: O que eu acho é assim, não importa muito como você vê o mundo. Por exemplo, o meu pai era daltônico e via as folhas vermelhas (daí o nome do documentário), e todas as outras pessoas viam o mundo de maneira “correta”. Contudo, o meu pai virou arquiteto e enfim, ele não deixou essa visão de mundo dele atrapalhar.

O que quero dizer é, não importa muito qual é o seu filtro para o mundo, nós temos os nossos e os nazistas tinham um filtro deles. O que importa é você entender que outras pessoas veem o mundo diferente de você e você não pode obriga-las a ver do seu modo. Acho que essa é a mensagem. Não obrigue os outros a serem como você, a verem o mundo pelo seu filtro. Cada um tem um filtro próprio. Saiba disso e aceite isso, sem querer impor a sua maneira, a sua visão.

Vinicios/Cinerama: Obrigado Marcelo, obrigado pela experiência.

Marcelo: Obrigado por ter vindo.