Para fins não menos que incríveis, conheça SKAM

A Noruega tem minha atenção. É o país do prêmio Nobel,  é nórdico,  é modelo nos recentes rankings mundiais, se destaca em conteúdo e assuntos tabus. Mas os noruegueses não são nem tradicionais nem pós-modernistas. Nem os mais felizes do mundo, nem os mais  desiludidos. A cultura que os envolve (como em cada país nórdico/escandinavo) tem base nos costumes da discrição em serem os melhores. Apenas. Vejamos pelo lado jovem e fresco da coisa.  

A série SKAM (VERGONHA, em norueguês) produzida  por uma emissora de tv em Oslo, traz  profundidade e superficialidade da cultura norueguesa. Assuntos como transtorno mental, assédio,  sexualidade,  religião e amadurecimento. A vida é real para eles. É pesada na maior parte mas o centro é a simplicidade.

O lance da série é que há problemas, porém não há “novela”. Há uma super valorização das pessoas, uma vez que os atores não passam dos 18 anos, sendo fiéis aos papéis. E os diálogos? É algo como:  poxa, duas pessoas conversam numa mesma cena que já dura 10 minutos…e quando acaba eu fico como assim? isso não foi maçante! que palestra sobre a vida foi essa?

Não tem chance de se entediar. O idioma de origem norte-germânica e a gesticulação dos personagens são uma loucura de entonados. Os estudantes gastam esforços pra reformar um ônibus (sim) promovendo festas cabulosas nele – uma tradição nacional celebrada no último ano colegial, a russetiden. A trilha sonora é constante e diversificada, ostentando do hip hop e electropop ao experimental e pop melancólico, como Suzanne Sundfør – também norueguesa.

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Baby’s on fire – Die Antwoord
Illest motherfucker alive – Jay-Z  e Kanye West

Há um tanto de cômico e de dramático que eleva a série a um lugar selvagem, explícito, que difere muito das outras. Aqui todos falam e passam em situações de sexo, de abertura, de identidade. Normal. Mas estamos falando da Noruega!! 

Sana a muçulmana foda-se
Chris o rei das expressões
Eskild o gay guru

A cultura comportamental teen norueguesa: ferramenta que a diretora, Julie Andem, garantiu na série. Norueguesa convicta com qualidade, Julie criou SKAM para esse público após inúmeras pesquisas sobre o que adolescentes noruegueses viam na internet que os pais não gostavam (hahaha). Como para quase todos os serviços do país, é a população que financia a emissora do programa, e este acertou em cheio no conteúdo direcionado. Outra tática inteligente, e atualíssima, foi a sincronia entre filmagens e postagens nas redes. Conversas e fotos das festas, por exemplo,  eram logo compartilhadas após encenadas.  Agora que a série acabou não dá pra acompanhar instantaneamente, mas é inovador  saber dessa jogada.


Pois bem, a série é dividida em 4 temp. centralizadas na perspectiva de 4 personagens.
“Suas opiniões importavam mais que as minhas, e não é como deveria ser.”

EVA.  lida com sua identidade e solidão. Sem amigos, o objetivo em um dia é uma solicitação no facebook. Algo a ser entendido aqui talvez seja:  não conte tanto com as redes sociais, apostar no cara a cara é a melhor forma de firmar uma amizade. Mas essa dica não teria impacto para noruegueses, já que o nível de conexões é imenso, assim como no resto do mundo. Eva representa, contanto, essa carência de muitos jovens.  Reviravolta: enfrenta mentiras e verdades a sua volta, ganha 4 amigas loucas e recebe as visitas por uma janelinha do quarto.

NOORA É compreendida como moralista. Feminista na essência. Não se desvaloriza por qualquer negócio sexual ou evento cabuloso da turma. Aconselha sobre alimentação e questiona distúrbios alimentares. Ainda  lida com relacionamento com um típico fuckboy, William. Reviravolta: Noora é bem segura e independente , mas acaba sofrendo uma situação vulnerável de abuso. P.S: não do namorado, William.

ISAK lida com a sexualidade,  repelindo de início tudo que indica ser gay. Ele é liberto ao descobrir que o amor está acima de tudo depois de conhecer Even (um aficionado pelo diretor Baz Luhrmann de Romeu e Julieta, sendo a maior referência como pano de fundo para o amor dos dois).  Há um fundo religioso interessante, onde nas camisetas usadas, aleatoriamente, por Isak, Even e Eskild (outro personagem gay) está Cristo crucificado. Seria uma provável  indicação de redenção,  levando em conta que mais da metade da população tem o Cristianismo para influenciar, e há uma certa cobrança. Outras referências pra denotar a relação homossexual são as músicas e a teoria do universo paralelo.

SANA a multifacetada,  lida com o paradigma de ser muçulmana. Ela é muito ciente e disposta com sua religião, que atura muita coisa. Considerada girl boss, lidera a parte racional do grupo. Reviravolta: por não conseguir aturar mais o preconceito, passa do princípio de boa conduta para a prática de cyberbullying, mas com ajuda de Isak se conscientiza das suas más ações.

SKAM visava alcançar somente os adolescentes da Noruega, principalmente garotas de 16 anos, ajudando-as na autoestima. Ocorreu que atingiu notoriedade e até remakes pelo mundo. Hey leitor!  não veja SKAM como se vê Malhação ou Gossip Girl. Skins é ótima, mas não é da Noruega. Diálogos e cenas longas, reais, com as bobagens da idade e maturidade extra. Esta série é muito diferente – mais complexa e completa na sua abordagem que outras do gênero.

Legendado em português veja aqui; em inglês aqui.



Noruega, SKAM


Letícia Nunes

Cinema: artefato preferido

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